Apresentação – Sub 20

por Lourival Holanda

 

O Projeto Sub-20 em Literatura é a expressão de uma atitude generosa na forma de aposta: atitude de quem tateia, já no presente, os poetas futuros. No futebol o formato Sub-20 vem desde o campeonato na Tunísia em 77, embora o equivalente na América Latina seja anterior; a versão nacional em 2006 popularizou o modelo, e serviu de celeiro de talentos: entre tantos revelados a partir dali, Maradona e Luis Figo, Ronald'O fenômeno e Ronaldinho. Claro, em Literatura, além do aspecto físico – a juventude evidente se revela no que eles não se deixam desencorajar pelo enorme desconcerto do mundo – o potencial já se mede pelo entusiasmo no investimento do verso, na busca de uma linguagem que testemunhe esse tempo, no modo como se apoderam do presente. Um campeonato onde entra em campo a energia sob forma de alegria; alegria até de destroçar valores e soerguer outros, mais condizentes com a efervescência, com o anseio de renovação com que eles chegam. Eles creem na poesia, por isso criam; investem, inventam.

Tiram partido da discordância: daí essa espécie de tesão na atenção àquilo que se afigura ou se desfigura na vida cotidiana. Fazendo cabeça no vazio dos porões da cidade ponte fluindo pelo rio ideologicamente contrário. [Clareira].

Mais fácil detectar a atitude comum a todos em ver na poesia uma fonte inesgotável de registro, de projeção do mundo através do imaginário da poesia. Como no campo erótico, nessa idade, é possível que alguns versos tenham mais força que sutileza. Por sorte deles – e da cultura que assim reavivam, sendo seu sal – a escola não reduziu o encantamento em indiferença, como acontece tanto quando a invenção passa atrás de controle de regras gramaticais.  Eles já ousam fundir o tempo da formação com o tempo da invenção. É o que aponta o tempo sincrônico em André Monteiro:

o poema é uma constante

variável pela genética

das mãos

e o embrião

gesta

outro embrião X Y Z

que poderia ser romântico

ou barroco

um árcade!

mas é contemporâneo

a todas as gerações

gêneros

e gestações.

E não ficam presos a nenhuma superstição de estilo, de fôrma talhada de antemão; antes, eles conjugam a busca da forma, a consciência da música interna do verso e o gesto de ousadia:

poema veio antes da forma

mas se forma dentro dela. [André Monteiro].

Assim o lirismo em João Gomes:

teu estar

altera o meu

como batidas

numa porta

que não abre

sem alcançar

as mãos os bolsos

mas a preencher vazios

me transpassar

não pede chaves

Privilégio testemunhar nessa recolha os ventos de renovação. Expressão das primeiras emoções, em alguns; o claro acerto, já, em outros. É o caso da proposital concisão de David Henrique:

Arco turvo

Desliza a lua

Faltando o pedaço

Que a faz minguar.

Há, na maior parte, experimentação – que condiz com o contemporâneo. Difícil lugar do poeta, num mundo de realidade cada vez mais virtual. A publicação de poesia nas mídias eletrônicas pode fazer pensar o poeta ameaçado pelo anonimato das redes, certo; mas é igualmente a oportunidade para uma invenção mais larga, uma criação mais ousada – onde fazer toda a diferença. Basta ver o tom incisivo de Luna Vitrolira:

o medo das palavras

e o medo que eu tenho dessa paz de ser

sozinho.

Essa, uma geração de coragem da palavra em expor esse processo de ser pela palavra – poesia.

[...] mas se pertencer pressupõe coragem e paciência, posto que se aguentar

é tão difícil .

Como o gesto de ensimesmamento de Francisco Pedrosa:

Não existe hierarquia ou sonhos intangíveis

Somos apenas o que somos:

Energia imersa no tudo

E dessa forma

Por trazermos a mesma herança

Numa comunhão universal da existência

É que olho o pôr do sol

Como olho para mim mesmo.

O verso dribla o clichê e a elegia que vinham em toda poesia antiga e surpreende ao apontar no pôr do sol um brilho enigmático – surpresa e mistério.

Buscam direção, talvez; mas têm energia bastante para ir longe. Da leitura sai uma impressão de um conjunto heterogêneo, experimental; um movimento lírico e ao mesmo tempo cinético perpassa, aleatório, por muitos poemas. [Cinético: no sentido mesmo da ação de força nas mudanças de movimento dessas cabeças moças atravessando uma cidade decrépita]. A cidade na visão crua de Yago Santana:

A cidade é uma ciranda de ruas,

interligadas.

A cidade é um mar de piche,

com ilhas de concreto e sal.

Ilhas cinza de sal.

Ilhas de pedra e sal.

A leveza aguda no verso de Penélope Araújo:

hoje

eu quis grafitar o muro do papel

eu quis fotografar a energia elétrica

eu quis uma ópera de semáforos

eu quis que a calçada fosse de plumas.

A poesia de Bárbara Nunes capta um momento, uma circunstância precisa do cotidiano no Recife:

O sol do meio dia comportava-se

como no final da tarde:

não era vivo porque

não reluzia e

nem queimava a cabeça

como na Agamenon.

A poesia dá outra visibilidade às coisas que o ritmo frenético do cotidiano subtrai ao olho. Em João Gomes é a percepção da singularidade do corpo:

não estou se estar

é ser percebido pelos passos

mas sinto meu corpo

meus pés de itinerários

não vistos por cabeças

que nunca baixam.

Em Zé Vitor são as asperezas da pele na memória do corpo social. Desde Carlos Pena Filho poetas denunciam essa mãe-madrasta que é a cidade do Recife:

Sobre lama e sangue fostes erguida

Subproduto fértil

Alimentador de animais

Homens e ideias

Agora, invadida por latifundiários

Transformam-te em improdutiva

monocultura de concreto

Pragas de calcário e brita,

Petrificam tua vida,

Soterram teus frutos.

Vale louvar a atitude generosa da Interpoética: dar aqui uma visibilidade especial a essa geração que vem carregada de suas contradições, suas complexidades – e suas surpresas. Uma aposta sustentável, os Sub-20 em poesia: às vezes a intenção leva mais longe que a execução; mas basta dar um zoom no conjunto para perceber sua riqueza de potencial e diversidade de promessas. O espírito poético sopra onde quer. Cabe acolher. A aposta se sustenta enquanto aposta: alguns deles serão referência. Calei os versos fracos, inábeis ainda porque têm a seu favor o tempo da maturação. Deixei em branco, como em branco um muro pede o poema futuro:

Na parede...

O silêncio

Pede um poema

Pichado. [David Henrique].

Vale a pena ouvir esses poetas jovens como pássaros bêbados de um canto incontido.

 

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Editores:

 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cícero Belmar