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Tem muita sombra indo embora

Num caminhão de madeira

por Ésio Rafael

 

Já temos algumas áreas no sertão nordestino, a exemplo do semiárido pernambucano com claros sinais de desertificação.  Isso é real. Nesses últimos períodos de seca braba, a situação vem se agravando a cada dia. Uma coisa puxa a outra. Não chove e por isso secam açude, barragem, barreiro e cacimba. Daí, o cidadão campesino, começa a vender a própria madeira do seu sítio, por razões óbvias de segurar a barra da sua família. Afinal a moral do homem mora no estômago, como assim falou o nosso saudoso filósofo brasileiro, Millor Fernandes.

Vi, com meus próprios olhos que a terra já começou a comer vários caminhões carregados de madeira, transitando pelo bairro de - São Cristóvão, em Arcoverde, um atrás do outro, depois de terem (não sabemos como se permite) passado pelo comando da Polícia Rodoviária Federal, localizado em Cruzeiro do Nordeste, distrito de Sertânia, no Moxotó, ou por outras vias.

No Pajeú/Cariri, ocorre também esse arbítrio. Antônio de Catarina, poeta (hoje uma Entidade) pertencente às gerações do Louro do Pajeú, Jó patriota, Zé Catota, Pedro Amorim e outros mais, não se conteve ao presenciar a triste cena e se manifestou poeticamente criando o mote de improviso: - TEM MUITA SOMBRA INDO EMBORA / NUM CAMINHÃO DE MADEIRA.

Celebrando o poeta Antônio e a volta da CORDA VIRTUAL, há algum tempo reivindicada, através dos poetas participantes, estamos colocando esse mote ecológico e de “panos pra manga”, pra que todos se pronunciem, começando com a minha colaboração:

 

Desde o Quinze de Rachel

Que a história se repete

No Sertão que nos compete

Inda manda o coronel

Falta abelha no vegel

O xexéu na bananeira

Até a grande mangueira

Mataram pra fazer tora

Tem muita sombra indo embora

Num caminhão de madeira

 

Para dar continuidade à inspiração do poeta, convocamos a todos os poetas, cordelistas e cantadores, desde que compreendam as regras da poesia popular, para glosarem o mote.

Envie sua participação para:

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Junior Baladeira [Ouricuri, 02/04/14]

Nosso mundo atualmente

Constrói-se de for estranha

E a destraça é tamanha

Com nosso meio ambiente

O homem destrói ciente

Umbuzeiro e aroeira

Baraúna e cajazeira

E para o fim não demora

Tem muita sombra indo embora

Em caminhão de madeira

 

Nessa minha região

Eu sempre vejo passar

Transportes a carregar

Madeira pra produção

Do gesso e só o patrão

Nessa cultura gesseira

É quem aumenta a carteira

Na terra onde agente mora

Tem muita sombra indo embora

Em caminhão de madeira 

 

 

Dedé Monteiro [Tabira, 31/03/14]

Geme a mata em plena serra...

Mas ninguém lhe atende o rogo.

O pau morre no fogo,

Morre pela moto-serra.

Tombam, sem vida, na terra,

Baraúna, catingueira...

E a queda de uma aroeira

Quem vê, se arrepia e chora.

Tem muita sombra indo embora

Num caminhão de madeira. 

 

 

Paulo Moura [Recife, 30/03/14]

Tem sombra de toda sorte

Na caatinga ressequida

Tem sombra que assombra a vida

Sombra que se chama morte

Tem sombra de sul a norte

Assombrando a capoeira

Tem sombra numa caieira

Na casa onde a fome mora

Tem muita sombra indo embora

Num caminhão de madeira.   

 

 

Allan Sales [Recife, 29/03/14]

Caatinga dizimada

Pegam pau pra fazer lenha

Aqui a velha resenha

A mata desrespeitada

Assim ela é podada

Como saga costumeira

Com fome de madeireira

Que a vida em volta devora

Tem muita sombra indo embora

Num caminhão de madeira

 

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Tem muita sombra indo embora / Num caminhão de madeira

Na terra é difícil um ninho / Mas no céu tem de Cancão

São retratos verdadeiros / Das coisas do meu sertão

Só meu casebre pequeno / Papai Noel desconhece

Baixa a face o pranto desce / Ao som da Ave Maria

A natureza tomou / Tudo quanto tinha dado

Dorme junto aos teus pés o meu ciúme / Enjeitado e faminto como um cão

Mergulhei pra ver Narciso / No espelho do meu lago

Quem não pode com o mote / Não pega na redondilha

Essa noite eu retalho o mundo inteiro / Com a peixeira amolada do repente

Perco em luz, minha recusa / Nego ao dia, a noite invado

Dois poetas brigando o povo chora / Com vontade de ouvi-los novamente

Nessa vida de vaqueiro / Todo mundo é carnaval

Vi a porteira do mundo / Entre as pernas da mulher

Coveiro sem esperança / Não sepulte o meu passado

E no visgo do improviso / a peleja é virtual

Demos viva! ao Mestre Vitalino / Que com arte enricou nossa cultura

A marreta da morte é tão pesada / que a pedreira da vida não aguenta

Quero César Leal me abençoando / Pra tornar imortal minha geração

No tereiro da paz Salu descansa / Silencia a rabeca genial

Que na gravura em madeira / Esse Samico é um danado

Amanhã vá no cartório / passar seu cu pro meu nome

Nesta cidade cadela / Chico deixará saudade

Allan Sales x Susana Morais

Pinto do Monteiro x Severino Milanês

Cego Aderaldo x Zé Pretinho dos Tucuns

A peleja entre a Velha do Bambu e o Velho Mangote através da internet

Peleja de Riachão com o Diabo

Ignácio da Catingueira x Romano da Mãe D'água


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Editores:

 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cícero Belmar