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Mauro Mota

 

Os 100 anos do poeta poetíssimo

Mauro Mota tem seu legado poético resgatado e é homenageado na VIII Bienal Internacional do Livro de Pernambuco

por Thiago Corrêa

Não é preciso ir muito a fundo na pesquisa no mundo das letras para se deparar com o nome de Mauro Mota. Respeitado pelos intelectuais, bem-citado quando se trata de traçar um histórico da literatura e sempre lembradonas datas redondas das efemérides, chega a ser fácil localizá-lo no panteão da poesia pernambucana. Quase 27 anos depois da sua morte, porém, chega a ser igualmente fácil constatar que ele termina por ser um autor pouco lido nesta segunda década do século 21. No ano do seu centenário de nascimento, completado no último dia 16 de agosto, o poeta amarga o fato de ter seus livros transformados em itens raros, esgotados nas livrarias, acessíveis apenas em bibliotecas e sebos. Como consequência, poucos são os que têm se dedicado ao estudo da obra deixada pelo autor.

Para fazer justiça a um dos grandes poetas da literatura brasileira, o ano do centenário de Mauro Mota vem servindo como um ponto de partida para o resgate do seu legado poético. Desde o início do ano, instituições como a Academia Brasileira de Letras (ABL), a Companhia Editora de Pernambuco (Cepe) e a Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) têm se articulado para tirar a obra do poeta pernambucano do esquecimento. Nesse fluxo, a Bienal Internacional do Livro de Pernambuco também dedica espaço especial a Mauro Mota, colocando-o como um dos homenageados da sua oitava edição. “No ano de seu centenário, Mauro Mota não poderia deixar de ser um dos homenageados da Bienal. A importância de seu nome para a cultura de Pernambuco é inegável, e tínhamos que contribuir para valorizar a sua obra e o seu legado”, explica o produtor do evento Rogério Robalinho.

Com esse objetivo, a Bienal convocou o atual presidente da ABL, o também pernambucano Marcos Vinicios Rodrigues Vilaça, para fazer a saudação ao homenageado na abertura do evento. Dada a mesma origem e os interesses pelas letras em comum, Vilaça conviveu diretamente com Mauro Mota e teve o poeta como um dos seus maiores incentivadores para entrar na ABL. Mas coube ao destino fazer com que o atual presidente assumisse justamente a cadeira de número 26 que, entre agosto de 1970 e novembro de 1984, fora ocupada pelo poeta pernambucano. “Foi uma contradição entre alegria e tristeza. Substitui um amigo. Um mentor. Uma alma lírica. Um espírito brincalhão. Vou dizer a você uma frase dele: ‘Meus amigos, vou-me embora’. Disse, mas não foi. Mauro nunca se vai. Mauro é o que fica”, conta Vilaça.

Na intenção de colaborar na permanência do amigo, a ABL vem realizando uma série de eventos, como uma mesa-redonda, uma exposição comemorativa do centenário e a publicação de um livro que reunirá textos do escritor chileno Juan Gúsman Cruchaga e de Mauro Mota. “A ABL tem um carinho muito especial por Mauro Mota e estamos mostrando para os meninos de hoje o homem que ele foi, por intermédio de atividades que o lembrem para as novas gerações, estas que estão por vir, de mouse nas mãos”, afirma Vilaça.

Outras alternativas para reencontrar a escrita de Mauro Mota serão os três títulos que a Cepe, em parceria com a Fundaj, publica em novembro. Para marcar o centenário, a editora planeja reeditar o livro O cajueiro nordestino (estudo desenvolvido pelo pernambucano, publicado em 1956), lançar uma seleta de 100 poemas, organizada pela escritora Luzilá Gonçalves Ferreira, e outra com 100 crônicas escolhidas dentro de um universo de mais de mil escritas pelo poeta numa coluna que assinava no jornal Diario de Pernambuco. “Como tinha que preencher aquele espaço todos os dias, ele aproveitava a coluna para fazer resenhas de livros, contar causos e celebrar efemérides. Mas um dos melhores traços que caracterizam suas crônicas é o humor, várias delas têm como mote esse tom cômico”, explica o ensaísta e membro da Diretoria de Documentação da Fundaj, Paulo Gustavo, responsável pela seleção. Dentro da programação da Bienal, ele divide mesa com a viúva Marly Mota, para traçar um perfil biográfico do poeta.

INÍCIO DE CARREIRA

Como muitos da sua geração, a trajetória intelectual do poeta se deu através da imprensa da época. Já no fim da década de 1920, os leitores pernambucanos começavam a se deparar com crônicas e poemas assinados por um ainda desconhecido Mauro Mota. Com o tempo, a assinatura foi se tornando cada vez mais presente nos jornais do Recife, até o ponto em que o poeta ingressou de vez na equipe do Diario de Pernambuco, no qual editou o Suplemento Literário (1947-1959). Durante esse período, ele teve papel importante na divulgação da produção literária do Estado, abrindo espaço para novatos como o poeta Carlos Pena Filho e o poeta e crítico literário César Leal, que viria a substituí-lo na edição do suplemento. “Mauro dava sustentação à Geração de 1945, sempre abriu espaço para o pessoal mais velho e conseguia atrair nomes nacionais para o suplemento”, recorda Leal.

Apesar da vasta produção jornalística e do seu interesse pela geografia e antropologia, foi nesse período que Mauro Mota se consolidou definitivamente como poeta, lançando Elegias (1952), título que o projetou nacionalmente e o fez conquistar o Prêmio Olavo Bilac, concedido pela ABL. Segundo César Leal, a obra foi escrita no clima do luto pela perda da primeira esposa do escritor. “Nas Elegias, predomina o aspecto sensorial, cada elegia corresponde a um sentido – a visão, a memória, a audição. É um livro muito interessante, mas, para mim, seus livros posteriores apresentam uma superioridade técnica. Ele foi se tornando um poeta mais forte”, avalia Leal.

Por ser da Geração de 1945, tida como a segunda leva modernista, Mauro Mota soube dosar os preceitos do movimento. “A poesia dele era marcada por essa geração, trazia elementos do Modernismo e do Simbolismo, mas já vinha despido daquele combate, daquele radicalismo academicista”, observa o escritor Everardo Norões, que em 2001 organizou o volume Obra Poética de Mauro Mota, junto com a esposa Sônia Lessa Norões, e compõe uma das mesas dedicadas ao homenageado na Bienal. Para ele, o que torna singular os versos do autor e de outros grandes nomes da poesia como Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto é justamente essa dosagem equilibrada que o fez não se desprender do seu local. “O fato de ter ficado no Recife marca a poesia dele. Sua obra é muito apegada às coisas da rua, ao cotidiano da cidade, mas também traz denúncias. Ele poderia até ser considerado um poeta político”, observa Norões.

Chamado de “Poeta Poetíssimo” pelo sociólogo Gilberto Freyre, ele conseguiu enxergar como poucos as peculiaridades da sua terra. “O horizonte de Mauro é o Recife, depois vem Pernambuco, o Nordeste e o Brasil. E é interessante observar que o Recife dele é circunscrito ao Capibaribe, essa era a cidade em que ele vivia e gostava de retratar”, analisa Paulo Gustavo. Mas o apego às cores locais da obra do poeta não implica uma circunscrição limitadora, seu olhar ultrapassa as fronteiras geográficas e atinge a essência da alma humana. “É interessante perceber como Mauro conseguia transformar temas locais em universais. Ele sempre estava atento às nossas tradições, mas alguns poemas dele são dedicados ao cosmos”, aponta Leal.


THIAGO CORRÊA
jornalista e escritor

Este texto foi publicado originalmente na Revista da VIII Bienal Internacional do Livro de Pernambuco.

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Editores:

 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cida Pedrosa