principal   |   poesia   |   poetas na rede


Miró até agora

  

por Wilson Freire

 

Eu pensei que ia morrer ontem, o Poeta me disse. De quê? Não sei. Mas era uma sensação esquisita. Aqui dentro da existência. E passou pro físico: Falta de ar, coração acelerado, vista embaçada, boca seca. Depois uma tristeza que eu acho que era a mesma que sentiu meu bisavô quando foi jogado acorrentado nas areias quentes do Porto de Galinhas d'Angola, vindo num porão imundo de um Navio Negreiro do continente africano pra cá. Terá sido banzo, Poeta? É bem capaz.

Também eu pensei que ia morrer ontem quando nasci com baixo peso e escapei de morrer com menos de um ano de vida, de sarampo, catapora, diarreia, verminoses, deixando de engrossar as estatísticas de mortalidade infantil.

Eu pensei que ia morrer ontem, já adolescente, de tiro, facada, por ser preto, pobre e periférico. Mais tarde por ser tudo isso e mais poeta. Por preconceito. Puta que pariu com tanto P, porra! Pois, pois.

Eu pensei que ia morrer ontem enquanto era moleque de recado na casa de Maurício Silva, Zeh Rocha e Alex Mono, depois das peladas nos campos das várzeas de Santo Amaro das Salinas, quando conheci a poesia de Drummond.

Eu pensei que ia morrer ontem quando escrevi meu primeiro poema depois de ver um policial preto como eu arrastar um moleque preto que nem ele pela ponte da Boa Vista por ter comido um pão que não comprou.

Eu pensei que ia morrer ontem quando vi que essa cena se repetir comigo 30 anos mais tarde, só porque eu estava rindo.

Eu pensei que ia morrer ontem quando Wilson Araújo publicou meu primeiro poema no jornal dos servidores da SUDENE e levei o maior esporro do meu chefe que disse que era pra eu reconhecer o meu lugar de limpador de banheiro e não me metesse a besta de ficar tirando onda de Poeta aonde não me cabia, e a Poeta Maria do Carmo Barreto Campelo, da Academia Pernambucana de Letras, chefe do meu chefe, depois de saber do ocorrido e de ler meu poema, chamou o meu ex-chefe e deu-lhe o maior esculacho por ele ter sido preconceituoso comigo e que ela se sentia orgulhosa de ter um Poeta como eu entre eles e disse que a partir daquele momento eu ia ficar diretamente subordinado a ela e que eu podia escrever e publicar tudo que o que quisesse.

Eu pensei que ia morrer ontem quando conheci Lara, Valmir Jordão, Chico Espinhara, Érickson Luna, Cida Pedrosa, França, Samuca Santos, Malungo e tantos outros que como eu fizeram a opção de viver da, com e pela poesia.

Eu pensei que ia morrer ontem quando Conheci Carla catando lata Seus olhos brilhavam como alumínio ao sol São Paulo ardia num calor de quase quarenta graus Pisou na lata como pisam os policiais nos internos da FEBEM Jogou no saco com a precisão que os internos jogam monitores dos telhados e rápido foi embora...

Eu pensei que ia morrer ontem quando André Telles do Rosário descobriu Corpoeticidade - CORPO, POÉTICA e CIDADE - Algumas relações entre corpo, poesia e a cidade do Recife na minha literatura performática.

Eu pensei que ia morrer ontem quando Jomard Muniz de Brito disse “Não me permito ler Miró se não admirando e ultrapassando, pela contundência de sua performática declamação / declaração de princípios e precipícios. Provocações de ira e gozo, malícia e trabalho, sufoco e mais gozar. Como se o baque virado do maracatu invadisse o samba de breque mais desvairado. Suas bricolagens filosofantes entre o riso, a dor, e a morda-cidade com e sem “Ilusão de Ética”.

Eu pensei que ia morrer ontem quando descobri que a fria São Paulo é fogo e a amava mesmo andando de ônibus e sem ter comido aquela puta pizza mas é foda na companhia de Ricardo Reys, no edifício Copan ou na balada Literária com Marcelino Freire ou num Sarau na Laje na casa de Marco Pezão.

Eu pensei que ia morrer ontem quando dona Joaquina, minha mãe, morreu e o álcool que pairava sobre mim como um pesadelo, invadiu minha vida ocupando o vazio deixado por aquela que me pariu.

Eu pensei que ia morrer ontem quando entre os anos de 1986 e 2001 troquei correspondências com vários amigos espalhados pelo mundo e registramos nossas dores de amores, vãs filosofias, momentos políticos, movimentos sociais importantes, que marcaram e transformaram o Brasil e o mundo, como a queda do Muro de Berlim, em novembro de 1989.

Eu pensei que ia morrer ontem. Mas só pensei, pois de Ipubi a Tel Aviv, confesso que também vivi.

 

Prefácio do livro Miró até agora 

 

Foto: Wilson Freire

 

  Voltar à página inicial

Miró até agora

Rosângela Ferraz

Ismael Gaião

Silvana Menezes

Fábio Andrade

Esther Sterenberg

Helder Herik

Pedro Américo de Farias

Robson Sampaio

Telma Brilhante

Cloves Marques

Gerusa Leal

Greg Marinho

Wellington de Melo

Everardo Norões

Vital Corrêa de Araújo

Lúcio Ferreira

Maria de Lourdes Hortas

Valmir Jordão

Jussara Salazar

Deborah Brennand

Silvio Hansen

Junior do Bode

Marcos D'Morais

Terêza Tenório

Miró

Graça Graúna

Bruno Candéas

Almir Castro Barros

Odile Cantinho

José Costa Leite

Chico Pedrosa

Wellington de Melo

Marcos de Andrade Filho

Robson Sampaio

Jailson Marroquim

Severino Filgueira

Janice Japiassu

Cícero Belmar

Fabiano Calixto

Francisco Espinhara


Flash player required!






Banner

Banner




quem somosfale conoscoportfoliolinksclipagemhotsiteslogin

Editores:

 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cícero Belmar