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A sombra e a luz

por Raimundo de Moraes

 

Somos várias personas. Mas qual delas merece maior espaço no tempo e no palco?

Se contradizendo e ao mesmo tempo sendo lúcido, o escritor americano Mark Twain assinalou na sua autobiografia que a vida da própria pessoa não pode ser escrita. A autobiografia seria apenas um invólucro, uma embalagem. Por um lado, podemos entender o comentário como uma espécie de antevisão da frase célebre de Saint-Exupéry – e que virou clichê – o essencial é invisível aos olhos. Ou, para concluir esse pensamento inicial, citar Clarice Lispector no seu Água viva: O melhor ainda não foi escrito. O melhor está nas entrelinhas.

Quando abro esse Breu de Geraldo Maia, sinto a imensa força de um subtexto que corre sob e além das suas recordações de infância, das suas primeiras dores e descobertas. A sinuosa prosa poética quebra o que seria um desabafo ou depoimento pessoal para dividir conosco o difícil aprendizado da construção de uma (ou várias) identidade(s) – esse drama perpétuo que nos leva ao divã do analista, à arte ou ao que classificam como loucura.

Diante de um texto onde são expostos com coragem os sofrimentos e as dúvidas do autor, reforça em mim a ideia que a boa literatura não pode ser feita com embustes. Ficção ou não, histórias inventadas para entreter leitores mundo afora, no alicerce de uma obra deve existir uma força genuína que ultrapassa as classificações acadêmicas.

Nas suas recordações o menino Geraldo chora conosco o funeral da mãe enfeitada de cravos brancos, goza com requintes de adrenalina e medo nos braços de Melquíades, dedilha na rua notas musicais de sêmen e cumplicidade entre amigos que compartilham do mesmo desejo que não ousa dizer seu nome.

No trato da homoafetividade, a prosa de ficção e a poesia pernambucana têm poucas referências de qualidade que merecem ser citadas. Nesse Breu de Geraldo Maia, além da primeira impressão de serem fragmentos de uma autobiografia, há um auto de fé e de libertação. O que seria de nós se não renascêssemos através de tudo que renegamos e não queremos mais?

O escritor, que já é tão conhecido por todos com seu violão e sua voz, nos ilumina com uma obra densa na escuridão da culpa e na crítica mordaz ao pecado imposto e inventado.

Mas para encerrar essa coisa tão movediça que é a apresentação de um livro, me permitam que eu diga a minha verdade neste instante: o mérito maior deste Breu, caro leitor, é a emoção de ver alguém tornar-se protagonista da sua própria história e trazer à luz tanto talento e sensibilidade.

RAIMUNDO DE MORAES
poeta, jornalista e editor do Interpoética

 

Este é um dos textos de apresentação de Breu.
Para adquirir o livro 
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Trecho do livro:

 

Tocávamos violão até tarde,

eu e dois amigos.

Sentávamos na calçada da minha casa.

A certa hora da noite,

quando a rua já estava deserta,

do violão

era retirada

a função

de instrumento musical

para virar

uma espécie de parapeito,

a única barreira

que nos protegia

contra os possíveis olhares.

 

Ali

nos masturbávamos

uns aos outros,

numaespécie

meio enviesada

de ménage

à trois.

 

Sempre desconfiei

que uma vizinha,

moradora da calçada oposta,

voa tudo pelo cobogó

da janela da sala.

Isso nunca foi pretexto

para qualquer

inibição.

 

Ejaculávamos

no meio da rua

com o mesmo despudor

de quem

mija

na esquina, 

em plena

luz

do dia.

 

 

 

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A sombra e a luz

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Editores:

 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cida Pedrosa