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Rosângela Ferraz


PALAVRAS PARA FAZER CHOVER

por Cida Pedrosa 

 

Fazer apresentação de livro para mim é um parto. Leio e leio, leio os poemas e fico tentando achar o gancho que me leva à dicção poética do escritor. Sempre acho que vou ser injusta para mais ou para menos. Para mais supervalorizando a obra e aí dourando pílulas e enganando o leitor. Para menos sendo injusta com quem se debruçou sobre a difícil tarefa de lapidar palavra por palavra e transformá-la em poema.

Quando Rosângela me enviou seus dois livros, Campos Ceifados e Águas de Chuva, li os dois e escolhi falar sobre Águas de Chuva. Por identificação e curiosidade. Identificação, pois este é um livro de poemas curtos, telegráficos, quase haicais(ocidentalizando esta forma oriental de fazer poema) e eu sou afeita a este tipo de poesia, tendo inclusive publicado muito nesta forma. Curiosidade porque às vezes a poesia de Rosângela causa certo estranhamento. O tempo verbal muda de poema a poema quando não muda de verso a verso. Quase sempre os poemas terminam com um fecho de imagens fortes. Algumas provocam uma estranha beleza.

Acho que esta é uma poesia de ocasionalidades, observação e vivências. É mais ação que contemplação. Os poemas vêm e vão entre varias nuances de sertão e andam em ritmo variado. O tom selvagem dá lugar ao sussurro, que dá lugar ao urro, que dá lugar à flor, que dá lugar à moça, que dá lugar à crença, que dá lugar ao nada e ao tudo, pois tudo e nada cabem na poesia de Rosângela. Ah! Tudo se transforma  em água. Sim, a água tem particularidades neste livro. Ela pode vir a partir do choro, da dor, mas também do renascer da natureza, da flor e das espigas de milho. Água para ela é ressurreição.

Vários são os poemas em que imagens singelas são trabalhadas de forma inusitada, provocando singular beleza. Isto acontece principalmente nos poemas que evocam lembranças, infâncias e imagens agrestes a exemplo de: “O que é”, “Milagre”,  “Feira de Ponta de Rua” “Resgate”, Guerrilheira”, “Garranchos”, “Jardim da Infância”, “Sempre”, “Pra Ser feliz”, “Integração”, “Escola”, “Desconhecida”, “Minguante”, “Na Palma da Mão”,”Estação Chuvosa”, dentre outros.

Tem também uns poemas muito interessantes que trazem uma dicção irônica com tom de cotidiano. Presentes nos poemas “Oratória” , “Paternidade” e no  “Festa de Casamento” Há um suspiro da noiva tostado no bolo./ Escarlates merengues.

Quando Rosângela resolve ser minimalista se torna ótima e o poema não existe sem o título, vejamos: CORAGEM E FORÇA -  Espremer os amargores/ Mãos frente ao peito;  ALTA TENSÃO -  Cruzo a cidade a teu lado/ tal qual certos fios./ Eterno paralelo sem encontro;  ESCURIDÃO - Apagadas as velas/ enfrentar o escurecer./ Muitas vezes a claridade dói mais; FORÇA -  E o amor fez daquele ódio/ lapidável diamante líquido;  EXTRAVAGANTES MOMENTOS - Fazer cócegas na vida/ e vê-la debruçada sobre nós às gargalhadas e ENTRE VÔOS E CANTOS -  Não podiam voar as asas brancas da pomba;/ salpicadas do sangue dos bem te vis que c antavam.  Dizer mais o quê?

São 151 poemas ao todo, uma grande produção. Nem todos mantêm o mesmo nível de clareza e firmeza poética, mas isso também faz parte. O importante é afirmar que Rosângela tem talento e vontade de lapidar a palavra. Tem muito a realizar ainda em poesia, principalmente se não perder este gosto pelo inusitado e se debruçar firmemente sobre a estética que escolheu. Vamos todos dançar esta dança de fazer chover.

 

Apresentação do livro Águas de Chuva 

03.11.06

 

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Editores:

 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cícero Belmar