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Edmilson Ferreira

por Sennor Ramos

 

Vamos começar pela atualidade, o que levou você a fazer o mestrado de Letras/Linguística, na Universidade Federal da Paraíba?

Sempre acreditei na educação como o melhor caminho para a emancipação pessoal, intelectual e política. No âmbito mais específico da cantoria, sinto a necessidade de pesquisas mais aprofundadas que ajudem a compreender os fenômenos envolvidos na complexidade da sua criação, difusão e manutenção. Há muitos “por que?” carecendo de outros “porque” nesse universo. O desafio de repente, por exemplo, continua exercendo um grande fascínio nas pessoas, mas tem passado nas últimas décadas por um processo de humanização em que a disputa pela superioridade performática dos repentistas não implica mais em desdobramentos que prejudiquem um ou outro. Por que se chegou a esse grau de amadurecimento artístico? Que implicações essas mudanças têm para o presente e o futuro da cantoria?

A busca por essas respostas e tantas outras me levou a fazer mestrado em Linguística na linha de pesquisa “Oral/Escrito: práticas institucionais e não institucionais”. O meu projeto propõe investigar exatamente o desafio e os seus desdobramentos nos mais de duzentos anos de cantoria no nordeste do Brasil. Acredito que essa pesquisa poderá trazer algumas contribuições importantes para os repentistas, os pesquisadores e o público em geral.

 

Você conhece outros repentistas que também entraram no meio acadêmico, especificamente na área de Letras?

Conheço alguns, mas muitos dos repentistas que trilharam os caminhos da academia, sobretudo na segunda metade do século passado, optaram pelo curso de direito. Era um curso que dava um certo status e oferecia a possibilidade de uma carreira paralela autônoma. O curso de Letras é uma tendência mais recente, apesar de haver registro de repentistas de gerações precedentes que o fizeram, como Dimas Batista (pernambucano da Vila Umburanas, São José do Egito – hoje Itapetim) e Raimundo Adriano (cearense residente em Fortaleza). Atualmente, o curso de Letras tem atraído jovens, como Nogueira Neto (pernambucano residente em Belo Jardim – mestrando em Literatura na UFAL), Helânio Moreira (norte-rio-grandense de Serra de São Bento), Cícero Cosme (cearense que reside em Iguatu), Zé Carlos do Pajeú (pernambucano de Tabira-PE), entre outros.

 

Ainda existe uma grande cisão entre poesia popular e erudita, principalmente por parte das universidades e academias de Letras. São raros os cursos que constam nas ementas a poesia popular. Como você vê essa separação entre poesia popular e erudita? Existe discriminação?

Existe. Mas isso é fruto de um longo processo histórico. A partir do século XV, com a fixidez do texto e o consequente afastamento entre as artes e as ciências, as manifestações orais, ou vocalizadas – como prefere Zumthor (1993) – passam a ser vistas como algo pobre, pertencente à zona das nossas “culturas populares”, cuja definição de valor não parte da opinião dos que as fazem. Ainda hoje, o conceito de “popular” é questionável. Seria apenas algo feito pelo e para o povo? Refere-se a um horizonte comum a todos, como se conceituava antes do século XV? É algo sem refino, sem valor artístico? Trata-se de manifestação espontânea, autêntica, fruto da expressão cultural do povo? Ou é simplesmente uma denominação opositiva ao vocábulo “erudito”, para demarcar uma distância semântica e de valor entre os termos? São muitas questões que ainda não foram suficientemente respondidas. Assim, levando em conta as razões históricas e as suas implicações semânticas, a oposição popular/erudito soa um tanto incômoda.

O ambiente acadêmico apesar das aberturas gradativas que vem tendo continua muito conservador e não tem respondido de forma prática a essas indagações. Vale ressaltar que na primeira metade do século XX, sobretudo nas três primeiras décadas, o ensino universitário era profundamente influenciado por teorias extremistas que tratavam as artes populares como “cultura naufragada”. Atualmente, os espaços para essas manifestações, entre elas a poesia, estão se abrindo, ainda que timidamente, e a tendência é serem ampliadas. Aqui perto da gente, em Nazaré da Mata, o curso de Letras da UPE incorporou três cadeiras de literatura popular (uma obrigatória e duas eletivas), graças ao esforço do professor Josivaldo Custódio. A UFPB desenvolve um trabalho interessante no âmbito da oralidade nos seus programas de pós-graduação em linguística e teoria da literatura. Há outras universidades que trabalham essa temática, mas sobretudo na pós-graduação, que atinge bem menos gente.

 

Segundo consta no livro Cordel - João Martins de Athayde (Hedra, 2005), no começo do século XX, o poeta Athayde não gostava de ser chamado de violeiro, pois a este era associado “o hábito de embriaguez, a vida de bebedor de cachaça, a do malandro que perambulava sem pouso certo”. Depois se falava muito que os repentistas eram analfabetos e sem cultura. Hoje em dia os cantadores têm programas em rádios e TVs, publicam livros, têm CDs e DVDs, websites, realizam cantorias em grandes teatros etc. Em sua opinião ao que se deve essa evolução e profissionalização da arte do improviso?

Cada época tem que arcar com o seu ônus e o seu bônus. Cada pessoa também. João Martins de Athayde pertenceu a um momento histórico da cantoria em que o cuidado do repentista com a sua imagem profissional parece ter sido menor. Apesar disso, o hábito da “bebida” e da “malandragem” nunca foi, nem naquele tempo, uma coisa generalizada. No entanto, como o erro é mais barulhento, aparece mais, ressoa mais distante, esse comportamento inadequado de poucos, testemunhado e comentado por muitos, findou tatuando a imagem de todos os repentistas, como se vê em Vaqueiros e Cantadores, Cascudo (2005).

É necessário esclarecer que, naquela época, a condição nômade dos repentistas é fruto do próprio mercado de trabalho. Não havia facilidade de transporte, o rádio – que contribuiu muito para a sua fixação – ainda não existia. A única alternativa possível eram as longas excursões nordeste a fora. O analfabetismo é outro rótulo questionável. Boa parte dos repentistas tinha conhecimentos autodidáticos, o que nem sempre era visto ou reconhecido pelos estudiosos. Novamente prevalece o conceito de uma parte definindo um todo.

Atualmente, o contexto da cantoria envolve alguns detalhes que justificam o que se pode chamar de profissionalismo. Entre eles o acompanhamento às demandas da sociedade. A urbanização aconteceu, a tecnologia avançou, o acesso aos bens de consumo foi ampliado, os meios de difusão se multiplicaram. A cantoria não poderia ficar à margem dessas mudanças. Não há grandes avanços, o que tem havido é uma adequação aos novos tempos, às novas ferramentas, aos novos espaços. A cantoria foi reconhecida, em janeiro de 2010, como profissão, e os repentistas vivem um momento de transição entre o anonimato formal e a conquista de direitos trabalhistas. Apesar do novo contexto, ainda há resquício dos mesmos rótulos que incomodavam João Martins de Athayde.

 

Tenho observado que quase sempre os cordelistas e os repentistas frequentam espaços distintos e não se misturam. Nos congressos e festivais de violeiros geralmente aparece a figura do declamador de poesia matuta e quase nunca de um cordelista. Existe uma disputa de espaços entre os artistas de cada área?

Essa pergunta é frequente, sobretudo depois que o cordel se tornou mais fortalecido, graças aos movimentos organizados de cordelistas em várias cidades do Brasil e, é claro, a veiculação da novela Cordel Encantado, que quase nada tinha a ver com cordel.

Os cordelistas sempre participaram dos eventos de cantoria, até porque alguns deles conciliam as duas atividades. Essas participações se dão muito mais nos espaços destinados a vendas (CDs, DVDs e cordéis) nos festivais, confecção de material a ser cantado pelas duplas, e homenagens. O fato de haver mais declamadores do que cordelistas no palco, quando há, deve-se a uma adequação ao tempo disponível para apresentação. Declamadores geralmente apresentam poemas curtos. Os cordéis, principalmente os mais tradicionais – de 16 ou 32 páginas – levam um tempo bem maior para serem declamados. Quanto aos locais de difusão, sinceramente não vejo a ocupação de espaços diferentes como uma disputa. Pelo contrário, é importante que as manifestações conquistem novos espaços, andem com as próprias pernas. Se invertermos o olhar, veremos também que os eventos de cordel dificilmente absorvem o trabalho dos repentistas. Contudo – insisto – não entendo como uma disputa. A prevalência de cada área nos seus respectivos eventos é algo normal e até necessário. Cordel e repente são convergentes pelo seu conjunto de regras, pelas características do público que atingem, mas são manifestações independentes e com vida própria.

 

Agora nos fale de sua entrada no universo do repente.

Desde criança sou fascinado por essa magia da improvisação, presente nos repentistas. Comecei cantar, de brincadeira, aos 12 anos. De verdade, aos 16, quando fundei um programa chamado Jardim da Poesia, na rádio Vale do Canindé, Oeiras-PI, ao lado do meu irmão Zé Ferreira, que começou junto comigo. Daí pra cá não parei, nem me arrependi da escolha.

 

Na sua família tem ou teve outros cantadores e/ou poetas?

Como disse há pouco, tenho um irmão que canta, e bem. Mas não venho de uma família de poetas, como alguns colegas meus. Meu pai adora cantoria e cantava muitos romances de cordel, amadoramente; meu avô paterno gostava, e me falava que o seu irmão cantava umas modinhas de viola. Não tenho nenhum registro da poesia do meu tio-avô. Creio que cantava de forma amadora, também.

 

Certa vez em uma conversa com Antonio Lisboa, ele comentou que no ramo da cultura popular o repentista é um dos poucos artistas que vive apenas de sua arte. Na maioria das artes populares, o artista precisa de uma outra profissão para sobreviver. Como é para você viver exclusivamente do repente?

Me orgulho muito disso. Numa sociedade em que, via de regra, as pessoas tendem a aprender a gostar do que fazem, e não a fazer o que gostam, eu vivo fazendo o que mais gosto e gosto do que mais faço. Esse privilégio, no entanto, alguns outros artistas populares infelizmente não têm. Antonio Lisboa tem razão. Muitas manifestações têm uma sazonalidade regular. A cantoria não tem um período específico do ano para acontecer. Isso significa que nós repentistas cantamos o ano todo, todos os anos. Fazer arte é ótimo; poder viver dela é melhor ainda!

 

Aqui em Pernambuco já aconteceram muitos festivais e congressos de violeiros, inclusive na capital, embora hoje isso seja raro. Em outros estados eles são realizados, inclusive no Sudeste. O que levou a escassez dessas atividades no nosso Estado e qual o impacto disso para os cantadores locais?

Os festivais, assim como as cantorias e apresentações em eventos, acontecem em muitos estados do Brasil, principalmente do Nordeste. De maneira geral, não diminuíram; o que tem havido são deslocamentos. Pernambuco parece ter diminuído o número de festivais por não ter dado continuidade ao extraordinário Desafio Nordestino de Cantadores, nem ao COCANE (Congresso de Cantadores do Nordeste). Isso é fruto da velha e conhecida política de governo, onde deveríamos ter política de estado. Mas em compensação várias cidades pernambucanas passaram a realizar grandes eventos de cantoria ou os intensificaram. É o caso de Caruaru, que durante o mês de junho realiza apresentações de repentistas, coquistas, declamadores e cordelistas de quarta a domingo, todas as semanas. O impacto da diminuição desses eventos, na capital, é pouco sentido pelos artistas locais porque os acontecimentos nessa área absorvem os artistas de outros municípios, estados e regiões. Eu, por exemplo, moro em Paulista-PE, mas participo de festivais em todos os estados do Nordeste e em cidades fora da região, como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília.

(abril/2015)

 

 

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Editores:

 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cida Pedrosa