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Maria Alice Amorim

por Elisabet Gonçalves Moreira

 

 

Cursou Doutorado (2012) e Mestrado (2007) em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Tem Especialização em Teoria da Literatura (UFPE, 1985). Graduação em Jornalismo (Unicap, 1990) e em Psicologia (Fafire/Recife, 1982). Atua na área de Comunicação e Literatura, com ênfase em jornalismo cultural, e principalmente nos seguintes temas: literatura de cordel, poéticas de oralidade, arte e cultura populares. Ministra cursos, oficinas, palestras sobre os temas que pesquisa. Autora de diversos livros e ensaios, entre eles figura o premiado No visgo do improviso ou A peleja virtual entre cibercultura e tradição, publicado em 2008 pela Educ, editora da PUC-SP.

Feliz por ter Maria Alice mais de perto, agora também colega de coluna do Portal Interpoética. E me pediram para lhe formular perguntas, como uma entrevista. Meia dúzia é um bom número para respostas que podem ser muito abrangentes. Então vamos lá...

 

Maria Alice, você estreou como colunista do Portal Interpoética. Foi “ao acaso” ou por consciência de sua escrita múltipla que se dispôs a esse trabalho?

Se podemos chamar de "acaso" o fato de sentir-me apaixonada, seduzida pela palavra, pelas línguas, pelas linguagens artísticas, então, sim. Agora, de fato há o desejo e a consciência de uma escrita múltipla, e finalmente começo a me dedicar mais assiduamente à escrita literária e a criar a necessária coragem para publicar. Já havia o convite da Interpoética, finalmente decidi encarar. Acho bacana a pluralidade, independente de enquadramentos, de sagrações, de aprisionamento ao canônico. Por gostar muito de brincar com o humor, o non sense, com o surreal, o aleatório, o mix de linguagens, propus a desmedida como critério articulador de trabalhos artísticos a serem conhecidos em primeira mão nesta revista.

 

Ambas somos de Petrolina. Diretamente: o que essa cidade representa para você e seus estudos?

Petrolina significa o sertão e o rio. As memórias de infância, as sensações térmicas, cheiros, gostos, costumes, a caatinga, muitos meses sem chuva e as tempestades recheadas de relâmpagos e trovões. Isso está entranhado em tudo o que eu faça, inclusive estudos e pesquisas. Na infância algumas experiências foram decisivas: o reisado, a morte e ressurreição do boi; o carnaval de rua, com a irreverência e o brilho das fantasias, o frevo e as batucadas; a malhação do Judas e a leitura do testamento, todo feito em versos rimados e metrificados; as festas juninas com o repertório e a sanfona de Luiz Gonzaga. As carrancas do São Francisco em barro e madeira. Os remeiros. As festas de rua. O sofisticado ouvido musical do meu avô paterno, virtuose no violão e apreciador de bossa nova, chorinho, samba. Cartola, João Gilberto, Tom Jobim era o que ouvíamos na casa dele. As viagens de trem pela zona rural da cidade, ou seja, a região do sequeiro, para visitar o avô materno. O rio, sempre o rio. A Ilha do Fogo, e as lendas que povoam poética paisagem.

 

Ambas temos algumas referências pessoais significativas. Uma delas é, sem dúvidas, Roberto Benjamin, falecido há pouco tempo. No que ele lhe foi representativo?

Roberto Benjamin foi um grande incentivador. Arguto, inquieto, dedicava-se às etnografias com postura sensível e respeitosa. Deixou uma obra consistente, importante legado aos estudos sobre cultura popular. Sempre trocávamos ideias, Roberto e eu batíamos papos instigantes, ele oferecia questões, descobertas, sugestões, convites para integrar pesquisas, congressos, publicações. Tenho profundo reconhecimento por ele ter sido uma espécie de preceptor no início de minha trajetória de pesquisa. Inclusive graças a um livro que publicamos juntos, "Carnaval: cortejos e improvisos", conheci uma grande amiga de Benjamin, Jerusa Pires Ferreira, que me convidou para ser orientanda dela na PUC-SP, onde terminei cursando mestrado e doutorado. O amor à cultura popular nos uniu, a mim e a Roberto, principalmente o maracatu de baque solto, o pastoril profano, a arte popular, as poéticas de oralidade, com destaque especial à literatura de cordel. Muitas eram as confluências, as afinidades na pesquisa.

 

O cordel ainda é improviso?

Cordel não é improviso. Vital falar desta questão, pois os equívocos são constantes. Há às vezes um embaralhamento entre o que chamamos de cordel e o repente ou improviso. Literatura de cordel não tem como característica ser uma poesia feita na hora, de improviso. No entanto, as marcas de oralidade estão presentes, é indiscutível. Na poesia de viola, no samba de maracatu, no coco, ciranda, samba de matuto, roda de glosa o verso é feito na hora, diante de plateia atenta. O cordel lida com a escrita, com o impresso. A confusão muitas vezes se instala pelo fato de existirem semelhanças em aspectos formais, como rima, métrica, ritmo, temas. Com a cibercultura, a partir do final dos anos 1990 o cordel ganhou novo impulso e os poetas passaram a produzir pelejas mediadas pela web. Imediatamente isso passou a me interessar muito. Tenho estudado as relações entre impresso, oral, digital, e o consequente acréscimo de complexidades, nessas poéticas tradicionais.

 

Poesia em suporte virtual ou o livro, objeto impresso?

Retiro ou, coloco e. Poesia em suporte virtual e o livro, objeto impresso. Não consigo separar ou tratar de modo excludente. Ambos estão conectados. Adoro manusear livros, curto o design, o cheiro, o contato físico. Ao mesmo tempo é muito bom, e prático, e ágil, e fácil, ter a possibilidade de ler poesia em suportes digitais, em ambientes virtuais. Caem as distâncias, as temporalidades. E, para além da conectividade, existe a interatividade, que amplia a instiga de leitores e criadores.

 

O que é o leitor do século XXI?

O leitor do século XXI é um sortudo, um privilegiado. Sem precisar viajar, nem mesmo sair de casa, posso ler, por exemplo, poetas de séculos passados disponíveis em acervos digitais de bibliotecas nacionais, como o português José Daniel Rodrigues da Costa. Posso ler toda a poesia de Glauco Mattoso, me introduzir na obra de tantos autores desconhecidos, rapidamente realizar levantamentos bibliográficos, adquirir livros, ler autores antes quase inacessíveis no Brasil. Num clic, posso ler cordéis raros impressos em Portugal, na Espanha. Enfim, o leitor do ano de 2000 em diante ampliou as possibilidades de se valer e de combinar múltiplas ferramentas em busca de arquivos, de textos, em benefício da leitura. Aposto bem mais nos benefícios das tecnologias do que na síndrome da tecnofobia. É um modo mais participativo de cultura.

 

Confiram as colunas:

Poética Ribeirinha de Elisabet Gonçalves Moreira

Hybris de Maria Alice Amorim 

 

 

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Editores:

 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cida Pedrosa