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Everardo Norões

 

 

O Portal Interpoética encerra sua série de entrevistas de 2014 com um nome importante na literatura brasileira atual: o cearense e andarilho – viveu na França, Argélia e Moçambique – Everardo Norões, que atualmente mora no Recife, publicando livros, traduzindo e ganhando prêmios. Foi o vencedor da última edição do Portugal Telecom, Categoria Contos, com o seu Entre moscas. Convidamos Cícero Belmar, Cristiano Ramos, Sidney Rocha e Wellington de Melo para entrevistar Everardo e o resultado foi uma pequena mostra de lucidez e de seriedade na arte do fazer literário.

 

Cícero Belmar: Quem concorre, quer o prêmio. Você esperava receber o Portugal Telecom?

Quem inscreveu o livro para o prêmio no Portugal Telecom foi a editora da Confraria do Vento. Tomei conhecimento quando o livro estava entre os semifinalistas. Quando chegou a finalista, recebi uma mensagem do escritor Ivo Barroso, dizendo que tinha votado no Entre moscas e, na sua opinião, ele merecia o prêmio. Partindo de um leitor como ele, a observação me deixou em estado de alerta. Depois, o júri era composto por pessoas de reputada seriedade e saber literário, e sua montagem tinha um formato que, a meu ver, deveria afastar certas influências que sempre ocorrem em concursos dessa natureza. Esse aspecto me deixou otimista. Por outro lado, não participo muito de eventos e havia pesos considerados pesados, editados por grandes editoras. De toda maneira, foi uma grande surpresa, não só para mim, mas para a própria editora. Foi muito engraçado o grito de Victor, um dos sócios da Confraria, no instante em que anunciaram a classificação do Entre moscas. Um grito que chamou a atenção da plateia e que queria dizer mais ou menos assim: somos tão pequenos e conseguimos o impossível. Foi muito simpático.

 

Wellington de Melo: É habitual que após os prêmios, os autores passem a ser convidados para eventos literários. Que repercussões você vê nisso no ofício diário do escritor?

Acho que o autor não é ator e no centro de tudo deve estar o livro e não a pessoa que o escreve. E o importante para que o livro exista e circule é preciso que tenha leitores. Quando lancei o Entre moscas - e você participou do evento - resolvemos que seria numa escola da Bomba do Hemetério, fugindo aos esquemas tradicionais. Havia cerca de 300 jovens, entre eles alguns colocaram questões pertinentes sobre o ofício de escrever. Muitos deles viam pela primeira vez o autor de um livro. Para um jovem que gosta da leitura um evento assim pode marcar sua vida de leitor, ou ajudar a torná-lo até mesmo escritor. Penso o quanto foi importante para mim o contacto com escritores como Audálio Alves, que nos recebia – e éramos quase meninos - em seu escritório de advogado para conversar sobre poesia.

Ou seja, um evento tem de ser avaliado, porque o autor tem uma responsabilidade social. Sinto-me motivado quando certas manifestações têm uma importância que justificam deixar por algum tempo a leitura ou a escrita. A primeira entrevista que dei depois do prêmio foi para a revista Giz, do Sindicato dos Professores de São Paulo. Sempre me coloco à disposição para participar de eventos assim, que sirvam para motivar leituras e discussões em torno do livro, que sirvam para mobilizar as pessoas, que é como trabalho que você faz com tanta seriedade e criatividade.

Quanto aos eventos meramente festivos, penso como García Lorca, quando dizia que toda festa, todo elogio era uma flor no túmulo do poeta.

 

Cristiano Ramos: Ao comentar Entre Moscas, você me disse que "em tempos como o nosso, é fundamental ser claro". O que seria essa clareza em literatura, e por que nossos dias a exigem?

Na ocasião da entrega do prêmio o entrevistador observou que a escrita do Entre moscas era cruel e erudita. Acho que essa crueza vem do fato de que trato de coisas que passam desapercebidas ou que são camufladas para que o “convívio social” entre as pessoas possa ser preservado por razões as mais diversas. O primeiro conto do livro, O exercício do asco, responde um pouco a essa questão: um dos personagens encontra um antigo colega de colégio durante uma caminhada numa das praças do Recife. Em seguida, vão ao apartamento de luxo de um deles, o que havia enriquecido às custas de benesses obtidas durante a ditadura militar. Pouco a pouco, circunstâncias e objetos passam a revelar a identidade do antigo artilheiro de um time de colégio.

É isso o que chamo ver claro dentro do escuro. Nesse sentido, o livro de contos segue mais ou menos o rastro de meu último livro de poemas, o Poeiras na réstia. Porque somente na escuridão a fresta por onde passa a lâmina de luz pode nos dar a perceber as partículas microscópicas que dançam no ar, inclusive as que contaminam os humanos.

 

Sidney Rocha: O que há de verdade com a literatura contemporânea brasileira?

Sua pergunta me instiga a recorrer ao conceito de contemporâneo. Esse conceito foi objeto de um seminário de Giorgio Agamben, no qual ele diz, entres outras coisas, que contemporâneo é aquele que fixa o olhar sobre seu tempo para enxergar não as luzes, mas a escuridão. E aí, volto à pergunta de Cristiano: ver claro no escuro é o desafio de todos nós escritores. É algo diferente daquilo que está na moda e passa, porque a moda necessita da luz, dos grandes holofotes. E também solicita um tempo quase efêmero, que é da passagem pelos espelhos. Machado de Assis é um escritor contemporâneo, que começa a ser lido mundo afora, em pleno século XXI. Outros, como Humberto de Campos (uma de minhas leituras de adolescente de interior) foi um dos escritores mais festejados do país e ninguém mais o conhece. Somente o tempo pode dizer quem é bom escritor.

 

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Foto: Sennor Ramos, Nantes/França - 2007 

 

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Editores:

 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cida Pedrosa