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por Cícero Belmar De poeta e jornalista todo mundo tem um pouco? Ainda bem que Marcelo Pereira só existe um: o cara é um dos jornalistas mais respeitados deste Estado e, para quem o conhece, um grande poeta. As duas referências incidem na mesma criatura com igual impacto. É verdade que a profissão (ocupa o cargo de editor do Caderno C do Jornal do Commercio há 12 anos) ofusca a outra característica. Mas, não se enganem. Marcelo tem estilo próprio na poesia. É um texto enxuto, seco como um martíni e lírico ao mesmo tempo. Em 2006 ele brindou os leitores com o livro “Tatuagem”, de haicais e poemas livres. Tem 119 páginas de poesia da melhor qualidade. Foi lançado pelas Edições Bagaço. Atualmente, Marcelo Pereira escreve alguns inéditos, mas os leitores terão que esperar um pouco para conhecer a nova coletânea: Seus projetos literários correm mansos, sem pressa. No tempo que a poesia lhe determina. Enquanto isso, deixemos que Marcelo fale por si: Você é poeta de verso livre e só escreve de vez em quando. Isso significa que é avesso à disciplina? De certa forma sim. Sou profissionalmente disciplinado, mas não sou escritor profissional. Talvez daí não ter uma disciplina para escrever. Por outro lado, eu prefiro a liberdade do verso do que o rigor da forma. A rima forçada, o malabarismo estilístico, as afobações. A rima pela rima não quer dizer nada para mim, às vezes até me incomoda. Nasci em 1964, comecei a escrever na década de 1980. Já havia o modernismo, o concretismo, o pós-modernismo... Preferi seguir a partir daí... Gosto muito de “Tatuagem”, são vários os poemas que me deixaram impactado. Você pensa no leitor quando escreve certos poemas? Claro que sim, embora tenha muito poucos leitores. Eu gosto de propor jogos, alguns enigmas para o leitor decifrar, dar sugestões para ele viajar para além do texto. Por mais que aparente ser superficial, há camadas sob alguns poemas. Houve alguma mudança significativa no poeta Marcelo Pereira de Tatuagem (2006) para hoje? Fiquei mais preguiçoso. E exigente comigo mesmo. Talvez por isso tenha escrito menos. O que é ruim para mim. Talvez ótimo para os leitores. Não tenho mais a ânsia da juventude - os poemas de Tatuagem são uma seleção de textos escritos durante 25 anos. De vez em quando escrevo uns poemas, mas não gosto. Deixo de lado, retomo uns. Outros não. Aí vou ler outros poetas e me dou por satisfeito. Às vezes, depois de ler um poema de outra pessoa, eu termino escrevendo. Seus poemas são concisos, extremamente enxutos. A poetisa Lucila Nogueira, no prefácio de seu livro, disse que “as palavras são poucas e escritas na pele”. Você retrabalha demais até chegar à forma final? Está na epígrafe de Tatuagem. É um texto de Ricardo Píglia. Diz que um homem tatuado é um homem de poucas palavras. Traz inscrito na pele tudo que tem a dizer sobre si mesmo. Eu li muito haicai e muita produção poética dos anos 80-90, publicadas pela Ed Brasiliense e pelo editor Pedro Paulo Sena Madureira. Bem como de alguns autores do início do modernismo. Li muito João Cabral, Manoel Bandeira, Paulo Leminiski, Ferreira Gullar, Armando Freitas Filho, Hilda Hilst, etc. Convivi muito com Manoel Constantino, meu grande amigo. Aprendi com eles que o importante é concentrar o que tem a dizer e não ficar de blablablá. Procuro escrever com intensidade e ir lapidando as arestas, até mesmo em poemas mais narrativos. Ouvi dizer que você considera sua poesia ligada à tradição do haicaísmo. Poderia explicar por quê? Por influência de minhas leituras de Paulo Leminiski. Pela revelação que o haicai traz. Pela sugestão que não prescinde de explicação. Queria ser um haicaista de verdade. Não apenas escrever os haicais, mas também fazer as ilustrações, fazer diários poéticos, ir mais além. Por que um poeta que faz poemas com a qualidade dos seus publica tão pouco? Por vagabundagem. Por frustração. Às vezes acho que não tenho muita coisa a dizer. Ou se tenho, não tenho para quem dizê-las. Tenho pensado nisto de vez em quando. Como não sei do futuro e ainda tem parte do material de Tatuagem inédito, vou dando tempo ao tempo. Penso em cada vez mais escrever prosa. Essa é a verdade. Tem planos para escrever poemas ou ficção, no momento? Estou mais para ficção. Por enquanto são rascunhos. Talvez desenvolva alguns contos e quem sabe a partir dele uma narrativa, não necessariamente um romance. Há muitas coisas que o poeta Marcelo Pereira queira dizer em seus versos ou isso é absolutamente imprevisível? Muita coisa já foi dita em verso. E fico surpreso como tem aparecido bons poetas. Eu já falei de muitos temas nos meus poemas. Há muita coisa que poderia dizer. De coisas prosaicas a ontológicas.. Só não queria escrever leseira. O dia a dia enlouquecido de um jornalista do batente, que passa 12 horas dentro de uma redação, tem algum efeito especial sobre o poeta? O que eu mais sinto falta é de janela para olhar, de um horário no fim de tarde tranquilo para escrever. Era o meu melhor momento quando escrevi muitos poemas de Tatuagem. A rotina de jornalista é para um poeta insuportável Como jornalista da área de cultura, bem informado e crítico, quais os piores versos que conhece? E quais os poetas que você menos gosta, no Brasil? Eu recebo muita porcaria, não apenas poesia. Romances, contos, crônicas, de tudo um pouco. Como diria um colunista social: é impossível citar nomes. Não gosto de poemas de autoajuda, de coisa melosa, verborrágica, histérica, cheia de rima ou sem lógica. Estão gastando papel demais e muito espaço na internet também. Embora na internet e em algumas poucas revistas e suplementos encontre-se coisas muito boas Dizem que o Recife tem um poeta em cada esquina. Ou pelo menos um pretendente a. Você se mantém em dia com a poesia escrita pelas atuais gerações do Recife? Que tem muito poeta no Recife, ninguém duvida. Há uma renovação muito grande. Leio o que me cai nas mãos. Há coisas boas, com certeza. Outras, nem tanto, mas não acompanho muito de perto toda a movimentação. Eu gosto mais de ler poesia do que de ouvi-la em recitais. No meio da zoada eu às vezes não compreendo o que querem dizer. Você compara a sua geração com a atual e cai na tentação de achar que aquela tinha mais conteúdo poético? Não tenho elementos para isso. Creio que hoje há um resgate da movimentação poética que tinha naquela época do movimento dos escritores independentes e há uma aproximação entre as duas gerações. Perdemos muitos bons poetas ao longo do tempo. Cabe a nova geração ocupar essa lacuna e mostrar o sangue que corre em suas veias.
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