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João Silvério Trevisan

 por Raimundo de Moraes

 

João Silvério Trevisan marcou muito a minha vida na década de 1980, quando lançou o seu “Devassos no Paraíso”, uma mistura de livro-reportagem e painel histórico sobre a homossexualidade no Brasil, da época que éramos colônia-quintal do império português até o Brasil dos dias atuais. Depois li “Em nome do desejo” (adaptado para o teatro por Antonio Cadengue) e a partir daí percebi que eu tinha encontrado um autor que despertou em mim um compromisso de continuar a ler sua obra, deixar-me levar por esses encantamentos que surgem de repente na vida gente. Prêmio Jabuti três vezes, João no entanto, por escolha própria, está à margem dos galardões, pompa e marketing pessoal. Conversar com ele é compartilhar de vários enredos e personagens, histórias de um país, de uma vida de lutas e algumas (ou muitas?) angústias criativas.

Como disse o antiquíssimo Fedro, escrever não tem fim. E no meio dessa eternidade que se renova a cada história contada, aqui uma pausa para ler as opiniões do escritor. Essa breve entrevista com João Silvério Trevisan.

 

João, você viaja muito realizando oficinas e palestras. Qual sua opinião sobre a produção literária atual? Apesar de tantas dificuldades que os escritores enfrentam no Brasil, as pessoas continuam fascinadas com o ofício de escrever?

Apesar da minha grande curiosidade, não tenho tempo de acompanhar com rigor a produção literária brasileira, mesmo porque mal tenho tido tempo de ler meus autores de coração. Acho que as pessoas continuam escrevendo literatura porque isso faz parte da sua necessidade expressiva. O que é muito importante. Mas ser escritor profissional no Brasil tem sido uma questão que envolve cada vez mais grifes editoriais, bons relacionamentos, compadrismo e ação entre amigos. É lamentável que o excesso de eventos literários seja diretamente proporcional ao afrouxamento de um debate crítico sobre os rumos da produção literária. Tem escritor que participa de tantos festivais literários que eu me pergunto se, para além do marketing pessoal, ele tem tempo de exercer sua profissão. Parece que estamos vivendo um boom de novos escritores, mas com certeza há um déficit de consciência literária. Pouca gente se pergunta por que, em pleno século 21, se escreve cada vez mais como no século 19. Às vezes com uma pitada de vanguardismo pop, mas sempre tendo Machado de Assis ou Tolstoi como referência máxima. Se a literatura resultar menos do glamour da mídia e mais do compromisso interior então ela tem que estar automaticamente comprometida com o seu tempo. A prática passadista revela conformismo e medo de correr riscos. Mas é também uma estratégia mercadológica, sem dúvida.

 

De que forma uma oficina literária pode ajudar um escritor iniciante?

Acho um privilégio escritores iniciantes poderem treinar-se em oficinas de criação literária. Mas essas oficinas burilam talentos, não os criam.

  

Nos seus livros, é bem nítido o cuidadoso trabalho de pesquisa que você realiza antes e durante a elaboração dos enredos. Qual livro lhe deu mais trabalho nesse sentido?

Sem dúvida alguma, foi ANA EM VENEZA. Durante os quatro anos de escritura, eu fiz uma pesquisa brutal, não apenas através de livros mas também de filmes, fotografias, músicas e material iconográfico, muitas vezes in loco. Eu me sentia como se carregasse um elefante nos ombros. Vivia assombrado pelo medo de não conseguir terminar o romance, tal a dimensão da empreitada. Haja Lexotan... Mas não era só uma questão de pesquisas para elaborar o enredo. O mais custoso na produção literária é, através de uma história externa, estabelecer consonância com a história interna e seus fantasmas, em busca da superação de si mesmo. Não há nenhum segredo nem truque nem modismo capaz de dar densidade à expressão literária. A única via legítima para atingir a transfiguração poética é esse mergulho no mistério pessoal.

  

É verdade que você está pensando em escrever sua biografia?

É verdade que eu gostaria de me aposentar das tarefas de sobrevivência – que não sei quando nem como será possível. Só depois disso, poderei pensar melhor no assunto. Acho que, sim, tenho muita coisa pra contar, e que eu gostaria que se soubesse, da minha vida. Participei de muitos momentos de guinada histórica, uns poucos como protagonista, a maioria como coadjuvante, mas sempre como testemunha privilegiada, pois meu olhar era o das margens. O olhar das margens raramente consta nos livros de história ou nas crônicas da época. Sua legitimidade vem do fato de não ter o rabo preso com razões impostas. É um olhar perpassado por dúvidas, perguntas e respostas incertas. Não conta a História, discute-a. O olhar das margens pode ser particularmente revelador, quer dizer, profético.

  

E sobre a oficina que você vai realizar na Bienal Internacional do Livro de Pernambuco? Podia dar mais detalhes?

Num momento em que o mercado celebra os vários tons de cinza, convém mais uma vez tirar as máscaras. O Marquês de Sade nunca foi e nunca será best seller por si mesmo. Simone de Beauvoir já analisou como ele “precisa” ser odiado: por ser o profeta das maiores imperfeições humanas. É disso que me interessa falar. Das máscaras que se vendem como frutos do extremo, inclusive na alta cultura. Por que seria tão feia a pornografia e tão perfumado o erotismo? Esse evento que vou coordenar na IX Bienal de Pernambuco funcionará em parte como curso, em parte como oficina, com o objetivo de discutir por que não se permite à pornografia e à poesia compartilharem o mesmo espaço. Até que ponto elementos estranhos à criação, sejam eles o moralismo ou o mercado, interferem para distanciar a pornografia da poesia. Em resumo: por que não poderia haver uma “pornografia poética”?

  

Na década de 1990 Danuza Leão disse que bicha brasileira só pensa na mãe e em ir dar pinta em Nova York. É um rótulo sumário para um assunto tão cheio de variantes. Você acha que o Brasil avançou nos direitos da população LGBTT?

“Rótulos sumários” continuam vigorando a todo vapor, em inúmeras áreas e momentos da vida brasileira. A diferença é que agora as pessoas exercitam o preconceito mais camuflado – com exceção, é claro, daqueles que usam o rótulo para afirmar sua virilidade ou validar suas posições religiosas, de olho no resultado eleitoral. Virilidades periclitantes sempre haverá e líderes religiosos oportunistas também. De resto, homossexuais terem seus direitos reconhecidos não é uma questão só de homossexuais e para homossexuais, assim como o racismo não interessa apenas aos negros. Se o Brasil quiser ser uma democracia de fato, conforme alardeia, então trata-se de um dever democrático abrir espaço de cidadania para todos os seus filhos e filhas, indistintamente. Se as pessoas não se importam com os direitos homossexuais, então elas não estão levando a sério o futuro da democracia brasileira.

 

 

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Editores:

 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cícero Belmar