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Meia fio 40

por Lucia Moura

 

Dou os últimos retoques na maquiagem, verifico se as malas estão prontas, passo os olhos pelo quarto, ligo a televisão. A mulher do tempo aparece: frente fria chega à região Sul. Em Santa Catarina os termômetros devem atingir a marca dos dez graus. Ventos de setenta quilômetros por hora são esperados influindo de maneira considerável na sensação térmica.

São oito horas. O ônibus sai às onze. O comércio abre às nove. Vou tentar comprar uma meia fio 40 para mamãe. Ela insiste em dizer que não sente frio, mas os ventos não estão para brincadeira. Se tiver sorte encontro alguma loja aberta nas proximidades. Ela está tomando café da manhã na tranquilidade dos noventa e cinco anos - a calma é a maior das virtudes - sempre repete.

Passo rápida pela recepção do hotel, saio pra rua. Na primeira lufada de vento, visto o casacão que havia jogado nas costas. Uma lanchonete entregue ao nada, uma gerente imensa, loira. No balcão, umas coxinhas cansadas e uns enroladinhos de salsicha.

Dobro a esquina. Aparece uma avenida.

Tudo deserto. Ah! Uma igreja. Não tem cruz, é templo. Ao lado, uma casa comercial. Na vitrine, uma peça de lingerie. Que sorte. Estou em cima da hora. Esbaforida, pergunto à vendedora se tem meia fio 40. Senhora, esta é uma loja especial. É da igreja, mas... Sim, filha, especial por quê? Olho as prateleiras, mostruários, manequins.

Boca aberta, parei estatelada ao ver os produtos: calcinhas fio dental, chicotes, fantasias de fadinha, enfermeira, todas estilizadas. Latinhas de pomadas, argolas, camisinhas de sabores e cores diversas, velas, tridentes, luvas, correntes e algemas. Um manequim negro trajando calça de couro, traseiro de fora.

No alto, um cartaz com letras grandes: PROMOÇÃO. E mais embaixo a frase: O amor, o erotismo e o sexo foram criados por Deus – e uma seta indicando uma caixa com centenas de pênis: ruivos, negros, loiros, castanhos. Longos, curtos, grossos, finos, todas as variações possíveis.

Estou de volta ao Recife. Logo mais eles chegam. Dou uma verificada na mesa, a massa está pronta para ir ao fogo. Ouço o som agudo do interfone. São eles. Abro a porta antes que a campainha toque. Entrem, entrem! Quanta saudade! Vamos sentar e dar início aos trabalhos. Gargalhamos.

A primeira garrafa de vinho enche as taças erguidas para o brinde. Outra rodada. Mais uma garrafa, mais outra. O que você trouxe de viagem dessa vez? Corro para o quarto. Orgulhosa, trago uma caixa. Abro exibindo, como se fosse um troféu, um long-dong 22cm - Gente, esse é Horácio.

 

LUCIA MOURA é bibliotecária e contista.

Este conto faz parte do livro Mosaico

 

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Meia fio 40

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Editores:

 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cícero Belmar