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Olho morto amarelo

por Bruno Liberal

 

É magnificamente estranho como um sonho se processa em nossa mente. Espantoso como confunde a si mesma com sua criação. Seria muito incômodo pensar nos sonhos como algo externo, vindo de não sei onde para trovejar justamente na cabeça pequena de apenas um ser humano. A beleza do sonho estranho está justamente em sua originalidade de perspectiva enquanto eu indivíduo. Quase todas as noites eu tenho esse mesmo sonho. Pode muito bem ser pressentimento, uma visão. No entanto tenho a mais absoluta certeza que isso é apenas uma falta de imaginação grotesca do meu cérebro.

POSSIBILIDADE UM

O caminho de terra está cercado por imensas árvores que não consigo distinguir. Sinto-me realizado, correndo livremente. Começo a perceber nas árvores um aspecto, que a princípio achei interessante, mas depois pavoroso. Elas possuem olhos. Grandes olhos de árvores. Amarelos. Olhos que acompanham meus passos.

Curioso, as árvores também são todas iguais, criteriosamente iguais. Começo a ficar assustado e tento correr mais rápido. Não consigo sair do lugar e aqueles olhos...

Acordo subitamente. Tudo escuro. Levanto, passo a mão no interruptor para ligá-lo, mas a luz não acende. Sento na cama e procuro um cigarro. Não acho. Tinha fumado o último antes de dormir. O sonho me deixou nervoso. Permaneço na cama por alguns minutos, tomando fôlego na coragem para acordar. Começo a achar estranho tanta escuridão.

Levanto tateando a parede e chego até a janela.

Abro de uma vez para sentir a claridade.

O que sinto é o sol queimando minha face, mas tudo continua escuro. Apenas sinto na pele. Não vejo.

Um desespero fulminante toma minha mente e começo a gritar. Estou cego. Onde estão meus olhos?

Tropeço desesperado tentando encontrar a porta do banheiro. Lavo os olhos na esperança da camada escura remover-se pela água, mas nada acontece.

Como isso pode acontecer? Ontem mesmo estava enxergando. Lembro de tudo que vi. Lembro do fusca verde que estava estacionado na porta do prédio, lembro das árvores com olhos... Estou cego.

Saio do apartamento em direção ao elevador.

“Estou cego”. Não consigo chorar no desespero.

“O senhor quer ajuda?”. Diz uma voz feminina. Uma voz aveludada, macia.

Tateando o espaço, toco seu rosto e percorro cada detalhe. Paro nas orelhas. Ela ri dizendo que faz cosquinha.

“Estou cego”, digo.

“Papai é médico”, e puxa meu braço até o elevador.

“Estamos subindo?”

“Não, descendo. Papai fica lá embaixo”

Ela abre uma porta e grita para o pai. Ouço tudo.

“O que está acontecendo Clara?”, pergunta a voz grave.

“Ele disse que ficou cego”

“Deixe-me examiná-lo”.

Uma longa pausa. Ele abre meus olhos, pega algumas coisas. Não me pergunta nada. Eu fico calado.

Ele examina.

“O senhor sempre foi cego”, diz com propriedade.

Clara segura minha mão com força e diz baixinho: “Tudo vai se resolver, eu cuido de você”

Estremeço com aquelas palavras, perco completamente o medo.

Devo estar seguro.

Ela cruza seus dedos finos nos meus, agarra minha outra mão e começa a girar como numa ciranda de roda.

Canta uma música antiga.

Ela me suga como um furacão.

POSSIBILIDADE DOIS

Ele adormece rapidamente, sem notar que a janela do quarto está aberta. Nunca dormia de janela aberta por que tinha medo do que pudesse vir a noite. Tinha medo do mistério da escuridão.

Teve um sonho fantástico, vadiava por entre árvores gigantes e ria como um louco do cheiro que sentia. Um cheiro de Coca-cola quando abre e solta aquele gasinho na ponta do nariz. E o mais engraçado era que as árvores eram todas iguais, perfeitamente iguais. Estava feliz até perceber que as árvores possuíam milhares de olhos pequenos e amarelos que o perseguiam. Ficou com medo. Muito medo.

Acorda.

Aperta os olhos para tentar enxergar. Tudo escuro.

Acha que ainda é noite. Mas sente um calor terrível. Calor de meio-dia.

Mecanicamente vai ao interruptor e tenta acender a luz. Nada. Torna a ligar. Repete várias vezes a ação e nada. Deve estar quebrada, pensa.

Vai até a cozinha e repete o gesto. Nada de luz. Porra, deve estar faltando energia. É geral.

Começa a ficar nervoso.

Vai ao banheiro e nada.

Começa a lavar seu rosto, na esperança de aparecer alguma claridade. Pode estar com as pálpebras coladas. Enfia o dedo no olho direito para ver se está aberto. Não dói. Parece um olho morto. Pensa: amarelo.

Vai à janela. Está aberta. Sente o sol queimando a pele.

Nota que seus olhos estão abertos e insensíveis, como se estivessem mortos. O desespero o toma com vontade. Começa a gritar. Chora um choro sem lágrimas. Pensa: olho morto amarelo.

Está cego.

Senta um pouco na cama para ver se passa. Pode ser um sonho. Mas não é.

Fica algumas horas sentado na cama com os braços enlaçados e os joelhos dobrados, como uma criança quando chora. Tenta se acalmar e decidir o que fazer. Sente calor. Muito calor. Pensa: olho morto amarelo sem alma.

Abre a porta do apartamento e sai.

Sabe o caminho até o elevador. Conta cinco passos.

Aperta o último botão do lado direito.

Dá bom dia a alguém.

Está calmo agora. Terrivelmente calmo.

Quando chega na calçada grita.

        “Estou cego”

        Alguém pergunta: “Quer ajuda?”

        É uma mulher.

        “Preciso de ajuda, estou cego. Fiquei cego hoje”.

        “Assim do nada?”

        “Acordei e estava cego”.

        “Entendo. Para onde o senhor quer ir?”

        “Não sei, para onde você iria se acordasse cego?”

        “Cega. Sou mulher”.

        “Eu sei”

        “Iria para casa da minha mãe”.

        “Não tenho mãe”

        “Morreu?”

        “Não, sumiu”.

        “E seu pai?”

        “Ele não ia acreditar”.

        “Então vai para o hospital, talvez eles possam ajudar”

        Ela chama um Taxi e os dois vão calados até o hospital. Ela paga a corrida.

        “Antes de entrar posso te pedir uma coisa?”

        “Claro”.

        “Fica comigo?”

        Ela não responde. Pega sua mão e o conduz até o hospital. Explica tudo à moça da recepção. Ele espera ser atendido.

        Ele pensa que a mão dela é muito macia. Um pouco suada.

        Ela diz que seu pai é médico.

        Ele pergunta: “Como é seu nome?”

        “Clara”

        Ele fica parado, sentado na cadeira em frente a Clara. Com olhos abertos. Encarando ela sem perceber.

        Ela pergunta: “O que aconteceu com seus olhos? Estão amarelos”.

“Não sei”.

“Estranho! Parece um olho morto”

“Parece um sonho”.

 

Conto publicado no livro
“Olho morto amarelo” (Cepe, 2013)

 

 

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Editores:

 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cida Pedrosa