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Ao centro da terra

por Alexandre Furtado

 

Antes de terminar, olhou ao redor - outra Sorveteria, de fato. Certificou-se de que não havia alguém próximo. Acendeu o cigarro, a baforada combinava com a falta rumo, era sábado, tudo meio deserto no centro, e a Visconde de Goiana engolia seus passos devagar, um após o outro. 

Pela calçada, e através da janela, o programa da televisão substituía o barulho da louça. Mais adiante, uma música no volume máximo. Eunice desconhecia os novos moradores, gente estranha, pesava os anos, quando ganhava bom dia dos vizinhos, comprava pão na Santa Cruz. Amassou a ponta do cigarro na calçada com a sandália e à mente : o que resta? Ficou pensando se os outros sentiam a mesma coisa. Talvez não. O mundo é, e pronto. A fachada antiga tinha um porcelanato cinza, ridículo, e os peões desapareceram, nem santinho, nem uma flor, mas o edifício desengonçado no lugar das duas casas.

Dalina e Belmira viviam ali, todos os dias conversavam. Um jasmineiro na casa de Dona Lucia. Então, virou na São Borja e olhou para trás, como se dobra o corredor à vontade e percebe que é outra casa. O sol maltratou a cabeça, menos sombras. Teve a sensação que ia derreter a qualquer momento. Lixo no chão, paredes pichadas, aqui e acolá, um antigo morador, muito velho e pedintes, coletores de lata. Resolveu voltar. O caminho de volta pelas Ninfas, aos pedaços também. Quando avistou a avenida, outro susto. Cadê? Pensou.

As paradas tinham um sentido diverso. A mão e o taxi passou, outro, e nada. Alguém avisou de longe, eles não param mais na avenida, melhor a senhora pegar na parada do Mustangue. Andou até lá, consumada, finalmente conseguiu. Disse ao motorista o nome da rua e aquietou-se. Enquanto o carro passava, observou o mundo ao redor. O que existiu, pensou, tá dentro de mim, somente. E sem controle.

Tudo isso reforça minha impotência. Ninguém segura nada, disse para si, quase audível. O motorista balançou a cabeça, como se concordasse.

Eunice imaginava demorar mais, os anos não permitiram, foi estudar, casou-se, teve filhos, mas a saudade a trazia para um lugar que era somente dentro, nada restou, as escolas, as amizades, os gestos. Uma impressão de que a mentira vivia ao lado das horas, de uma espera inútil, pois tudo muda. Há uma loucura nisso tudo, e não se pode impedir, dessa vez não pronunciou, guardou e ninguém ouviu.

O carro atravessou a Dom Bosco, passou pela praça do Derby, seguiu até a ponte, tudo muito mudado, muito. As asas, a vida própria, de novo pensou, espantada. Desceu, pagou o taxi e entrou no Edifício. A única coisa que sobrou da casa de seus pais foi o jambeiro na frente. Trocada por dois, um alugado, e o outro de sua irmã, que vivia com a família. De cima, o rio, barrento, o Recife, ou parte dele.

- E aí, Eunice, como foi o passeio?

- Cansativo!

Entrou e nada mais falou. Celina a achou estranha. Mas não insistiu. No quarto, tirou a roupa e foi ao banheiro, a água levou o choro. Enxugou o corpo, o rosto, mas não o caroço, ainda tenro, sem idade. Pedia cuidados. Envolveu-o na membrana de novo.

Depois, um abraço demorado na irmã, que a olhou nos olhos e perguntou:

- Se eu morrer amanhã ...

- Não vai, Eunice, e se isso acontecer, viverá, enquanto eu me lembrar de você, tiver você em mim. Mas não morra, já basta os que foram, dentro e fora.

Eunice parou. Foi até a varanda, olhou a cidade novamente. Teve medo de dizer que não conseguiria partir. Tinha medo de partir.

- Quero que faça algo, Celina.

- Pois não ...

- Quando eu partir, por favor, enterre isso junto ao jambeiro.

E abriu a blusa, depois o tórax. Mostrou a irmã a semente. Celina quase desmaia.

- Guarde isso! Guarde, você é louca?

- Prometa, Celina!

Então, prometeu.

- Sim, ponha debaixo do jambeiro, lá onde papai plantou a casa, a casa, que fica debaixo desse edifício alto. Quero ficar sempre junto.

- Por qual razão?

- Mamãe morreu aqui...

- Mas, sua família?

- A gente não escolhe nome, nem hora de ir, mas deve saber o lugar onde vai plantar a semente. E eu quero a minha aqui, pode ser? Os filhos e o marido irão escolher seus lugares. Posso?

- Pode sim.

Então, Eunice tirou-a do peito e com cuidado a colocou nas mãos da irmã, que a guardou com amor. Depois, falou do passeio pela manhã, quando procurava um lugar para colocá-la na cidade, mas as ruas estavam mortas, não havia lembrança boa, tudo parecia coisa abandonada. Eunice deitou-se na rede, sonhou com as raízes de sua vida, quis que sua semente ficasse lá com elas. Antes de sair, Celina perguntou:

- Aonde quer chegar?

- Irmã, o centro da terra é onde a semente ficará, é para lá que vou.

- Debaixo do jambeiro?

- Não. Aonde eu posso correr sem medo, sem asfalto, concreto. É para lá que minha semente retornará, para o começo.

Celina disse:

- Você poderá sempre brincar nas minhas lembranças, fique certa, não morrerá assim.

- Então, se posso, acho que vou, sim, minha irmã.

Em segundos, Eunice fechou os olhos. Celina chorou, mas faria o que prometera, afinal a semente estava viva, e o jambeiro, também.

ALEXANDRE FURTADO
escritor e professor

 

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Editores:

 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cida Pedrosa