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por João Paulo Parisio Três amigas compartilhavam um apartamento no vigésimo terceiro andar de um edifício na orla. Era uma residência ao mesmo tempo sofisticada e rústica, em que se tinha dado preferência a cores sóbrias e materiais naturais. Na sala de estar reconciliavam-se o fausto e o aconchego: os sofás de um marrom puro, as poltronas de madeira com assento de couro, a estante negra, decorada com objetos polidos, nenhum dos quais era vermelho nem amarelo, embora pudessem incluir-se alguns em tons de verde e azul. Havia no entanto um grande cinzeiro de vidro âmbar, multifacetado, uma flor poliédrica da qual a luz sibilina extraía ricos e delicados reflexos, seu néctar. O conjunto da mesinha de centro sobre um tapete felpudo e encaracolado sugeria o presépio de um recanto selvagem, algo como um lago profundo num planalto em meio à campina. Ainda mais por flutuarem na superfície preta e lisa cisnes majestosos. Eram negros também, exceto por um, branco como uma escultura de leite, o único a exibir uma cabeça erguida que parecia mirar o horizonte. Os sofás faziam as vezes de montes, a estante de escarpa, o abajur num ângulo, talvez, do sol de um crepúsculo incessante, o assoalho de terras castanhas nuas e férteis, já preparadas para o cultivo, como indicavam os sulcos paralelos entre os tacos envernizados. Todas essas imagens são na verdade roubadas à mente de Maria, a mais assídua freqüentadora do local. Era ali que cortava, lixava e pintava as unhas, fazia as sobrancelhas e entregava-se a longos devaneios. Entre eles, é digno de menção também aquele em que imaginava um avô explicando ao neto abismado que aquele tapete era feito de pele de urso da neve ou camelo da montanha. Maria costumava descer à praia em seu biquíni vermelho, o corpo luzidio de bronzeador e suor, e voltava para casa crivada de olhares, olhares de homens, mulheres e crianças. E às vezes, ao sair apaziguada do banho, enrolar-se numa toalha e com outra improvisar um turbante, olhava-se no espelho embaçado e se dizia, incrédula: Meu Deus, meu Deus, eu tenho tanta vida!, e palpava o rosto, sentindo-lhe a juventude, e seus olhos espantados se diluíam no espelho através das lágrimas. Tinha tanta vitalidade quanto qualquer outra jovem de vinte e três anos. Via, impotente, o seu oceano de possibilidades ser entornado como a água de um copo. Seria privada de décadas, e nem sequer sabia quem a contaminara no furor da adolescência. A tristeza que lhe sobrevinha então já não era desarvoradora, mas prostrante. Passava horas deitada no sofá, não raro em posição fetal, numa letargia improcedente para um corpo tão fresco, para cabelos de trigo tão recendentes, esparramando-se pelo tapete numa cascata fulva. O vento intransigente que entrava pela varanda agitava-os em danças lúbricas, levantava-lhe o vestido até o alto das coxas, os vestidos leves que usava em casa, dentre os quais o predileto era aquele cuja estampa vermelha e branca lhe lembrava copas de árvore contra o céu, a despeito das cores incorrespondentes. Mas os olhos não reagiam, o olhar não vinha à tona. Foi por esses caminhos que Maria desenvolveu um curioso dispositivo que lhe permitia evadir-se da sua própria história: a fabulação, ou a deriva fabulosa. Além disso, não sepultara a esperança, uma surda esperança que às vezes ouvia embevecida, como quem bota uma caixinha de música para tocar, de ainda casar-se e ter filhos, ser avó, morrer com rugas e cabelos brancos, o sexo seco e engelhado, e um rico repertório de lembranças, lembranças com todos os matizes da vida. Não era com total ceticismo que via no telejornal as notícias sobre os avanços espantosos da medicina. Nenhuma das pinturas da casa era abstrata ou moderna, nem rigorosamente realista, todas com algo de penumbroso ou esfumado: um ramalhete caído numa superfície – aí sim, incluíam-se rosas amarelas e vermelhas –, uma choupana às margens de um rio entre coqueiros, uma mulher meditativa num longo vestido azul de um século recente, sentada a uma mesinha redonda num alpendre de palácio ou hotel luxuoso às margens de um rio largo, onde a lua se refletia, bem como nos objetos de cristal e em seu rosto de alabastro. Ademais, era uma casa silenciosa e quieta, com algum ar de convento, belvedere suspenso acima da barbárie da civilização, no limiar da vastidão do oceano, muito embora não estivesse completamente livre de acidentes. Havia o vento, o vento ininterrupto do mar a cruzar a varanda – onde três cadeiras de ferro ficavam expostas às intempéries, o branco cedendo lugar à ferrugem e a estampa de ramagens e passarinhos se apagando nos estofos –, a contar tormentas, a incitar amotinações, a agitar as cortinas creme ao longo da porta corrediça. Ali na sala, Maria costumava também cultivar o sono, enviesada no sofá, com as pernas cruzadas por cima do encosto e a cabeça pendurada como a de uma criança. Assim ela olhava muito os cisnes invertidos, enquanto dava curso a elucubrações risíveis. Tinha mesmo o costume de manipulá-los, a despeito das advertências de Salete, enquanto acariciava o cabelo com a mão livre. Certa noite, por desatenção, deixou um deles na beirada da mesinha de centro. Pela manhã foi encontrado sobre o tapete, o longo pescoço partido, fraturado como uma coluna. Qual cisne? O cisne branco, sim, e o vento estava quieto quando Inês, principal idealizadora da decoração do apartamento, recolheu seus despojos e derrubou lágrimas sobre eles. Inês usava cabelos chanel, as pontas se curvando na direção do rosto frágil, delineando-o, seu negror contrastando com a brancura da pele acetinada e o vermelho febril dos lábios carnudos apesar da magreza cada vez mais contundente. Eram lisos e úmidos, suculentos como frutas. Seus olhos negros, redondos e grandes lembravam os de um passarinho em sua doce e pura indagação. Suscitava nos homens uma combinação de volúpia e ternura. Na flor da juventude usara os cabelos até a cintura e seu primeiro namorado, que era forte e tinha mãos grandes como sua Harley-Davidson, dizia temer esmagar-lhe o rosto, quebrando os ossinhos, quando o segurava com desejo. Fora ele quem lhe dera os cisnes ao retornar de uma viagem à Argentina – de motocicleta, evidentemente –, dizendo que o branco era ela e por isso tinha que ser único. Fora ele quem lhe transmitira o vírus. Mas Inês, que não era mesquinha ou petulante, muito pelo contrário, recolheu-se ao silêncio e nem sequer com o olhar recriminou Maria, embora ela, que não achou palavras com que se desculpar, tivesse preferido isso. Inês era uma alma hemofílica, e como por um pudor excessivo ocultasse os ferimentos, lentificava ainda mais a cicatrização. Tinha o dom para o perdão ao outro, mas nela própria a inquisição se perpetuara. Sem lastimar-se ou exaltar-se, Inês em tristeza era reticências. Não era uma mansa de espírito, seu espírito se revoltava como um oceano, e quem atentasse nos seus olhos perceberia que ela apenas atirava por sobre a ressaca uma noite escura. Nada nela era mais suspeito e preocupante que essa quietude pretensamente advinda de serenidade. Significava que mais uma vez trancafiara a alma no porão a pão e água até que aceitasse condições, parasse de sangrar com o tempo. Não queria ser um estorvo para ninguém. Antes procuraria dissimular fastios, representar entusiasmos, obrigando as outras duas a afetarem normalidade. Apenas mordiscaria pães de centeio com geléia e alegaria atraso, procuraria sorrir com a técnica das ginastas na execução dos movimentos mais difíceis. Mas às vezes, surpreendendo-se exposta à superfície, baixaria os olhos. Salete se deu conta de que precisaria atuar como mediadora hábil e enérgica. Providencialmente, era uma mulher de ação: quem tomava a iniciativa para os consertos, administrava as finanças, fazia a feira e comparecia às reuniões de condomínio. Os cabelos longos que ficavam oleosos se não os lavasse todo dia ela prendia num coque, e sua pele não era fresca como a das meninas, como chamava as outras duas, e de um tom mais amarelado: nem a brancura ártica de Inês nem o bronze equatorial de Maria. Seus traços não eram tão delicados nem tão bem definidos, e sua boca não era carnuda, cor de jambo nem amêndoa, mas uma rosa esmorecida pelos anos. Entretanto, Salete não era de divagar. Pela sua própria natureza, não precisava despender nenhuma energia para evitar o despeito, embora às vezes sentisse ciúme. Era uma prática, e seu amor pelas meninas inflexível, pétreo. Usava saias longas até o meio das panturrilhas fortes, que só trocava pela camisola na hora de dormir, quando lia poesia detidamente, como uma madre superiora que após distribuir ordens rígidas às freiras o dia inteiro e apresentar às noviças a aridez da vida monasterial, à noite, em seu claustro, à luz de uma grossa vela, debruça-se comovida sobre os salmos. Era com essa mesma devoção que Salete lia seus livros de poesia, os cabelos torcidos na nuca e caindo por cima do seio esquerdo. Não tendo espelhos no quarto, escovava-os na própria cama, fixando as paredes, com a cabeça muitas vezes imersa em coisas diurnas, legumes e queijos e contas a pagar. Quanto ao legado que seu marido lhe deixara, sentia-se grata por pelo menos tê-lo feito apenas depois que tiveram as três filhas. Elas, aliás, sempre prometiam vir mas nunca tinham tempo. A mais velha já estava casada, a do meio noiva, a mais nova descobrindo as coisas do amor. Com a acuidade que sua lucidez lhe propiciava, percebeu de pronto que, no que dependesse das meninas, estavam perdidas; seria preciso salvá-las delas mesmas. O equilíbrio triangular estava seriamente ameaçado de implosão muda. Meditava e cismava, ora um pouco divertida: como agiria no caso do cisne? Era um dos mais difíceis que já lhe caíra nas mãos. Maria era dispersa, indisciplinada e se apaixonava a intervalos, Inês era compenetrada, sensível ao toque, e desconfiava-se que não tivera nenhum homem além do primeiro, cujo nome ainda balbuciava em seus sonhos. Salete sabia o quanto os frágeis podem ser dúcteis, mas Inês ao menos era feita de uma matéria que demorava a reassumir sua conformação original. Levava tempo para que reencontrasse o caminho da alegria e se surpreendesse em primavera. Esperava-se longamente até que um belo dia seus olhos negros se abrissem luminosos e sua alma rediviva transbordasse deles, até ouvir-se outra vez o som cristalino de seu sorriso fresco como o orvalho amanhecido. E durante as convalescenças Inês era lírica e fantasmagórica como uma menina enferma fugitiva que dança ao luar em seu camisolão branco, rodopiando, rodopiando. Era uma fase delicada, pois tinha-se sempre o medo de que se ferisse e tombasse como um passarinho alvejado em pleno canto. Revelava, entretanto, uma ferocidade inaudita quando percebia o receio das amigas e não admitia que a sombra de tristezas passadas e futuras se projetasse na claridade presente. Salete decidiu que as reconciliaria na primeira oportunidade, mas naquele mesmo dia Inês já não participou da hora mais alegre das três, o almoço, quando tomadas banho sentavam umas perto das outras, a matriarca à cabeceira, na sombra fresca da casa em plena hora escaldante, a brisa balançando as cortinas creme. E as três comiam com fervor, sim, pois Salete era boa cozinheira de forno e fogão, e Maria especializada em sobremesas, quitutes plásticos e guloseimas finas. Elas comiam e falavam tanto, e riam. E com que naturalidade e esquecimento de si, ao fim, como se fosse uma extensão da refeição, as três se serviam de inúmeras pílulas, pondo um pouco mais de suco nos copos longos e facetados de cristal, do tipo que em outras casas é reservado para ocasiões raras. Nunca quebraram nenhum. Depois erguiam os olhos para o relógio de parede avoesco com o clássico rendilhado branco no vidro que resguarda o pêndulo, pensando nos seus afazeres, mas repousavam ainda um pouco, tomando cafezinho e sorvete e conversando amenidades. Encontraram-na no banheiro com os pulsos cortados e os cacos do cisne espalhados ao redor, numa poça de sangue. Cortara-se com um que ficara em forma de triângulo alongado, aproximadamente isósceles, recurvo, não-euclidiano. Após três dias de internação e o desengano do médico, pediu para morrer em casa. Restavam-lhe apenas a pele branca, agora mais branca, quase translúcida e um pouco verde, os lábios ainda vermelhos, agora mais febris, e restavam-lhe os cabelos, que apenas cresceram além do que ela permitiria por achar que já não tinha idade, e os olhos negros, cada vez maiores e mais brilhantes, ardentes e morosos. Sua beleza era um oximoro. Mesmo Salete fora posta em xeque. A restauração do equilíbrio estava além do alcance de seus movimentos sólidos. Para Maria a poeira que recobrira o lago dos cisnes correspondia às folhas outonais que prenunciam o inverno nos países temperados. O silêncio do lar tornara-se lúgubre. O cheiro de morte não era pestilento, era penetrante e talvez almiscarado. Ao lado da frágil estrutura ofegante de pele e ossos velava sempre uma das outras duas. No seu quarto anacrônico uma penteadeira escura evocava as amantíssimas esposas do século XIX, que antes de dormir sentavam-se diante do espelho em suas camisolas claras, com um perfume ameno, soltavam e escovavam os cabelos, sentindo na nuca os olhos do consorte. Como a luz elétrica tornara-se para Inês um incômodo, apenas uma vela de sete dias era mantida acesa, segundo solicitara. A janela permanecia entreaberta, e entrava um fio de vento, gélido, que apavorava a pequena chama, a agitar-se e a lançar sombras doidas. Salete lia poesias para Inês numa cadeira ao lado da cama, num sussurro nítido, imprimindo inconscientemente à leitura daqueles versos de García Lorca, na maioria, um ritmo de adágio. Inês, o tronco um pouco erguido pelo travesseiro, parecia sorvê-los como Tirésias ao sangue dos sacrifícios, debruçar-se com a alma inteira sobre cada um deles, meneando a cabeça em sins lentos. Maria, à porta, escutava também, com as mãos em concha cobrindo a boca. Sua sombra trêmula se projetava no corredor vazio. Da sala vinha o assobio monótono do vento, o leve rumorejar das cortinas creme. Podia-se dizer que Inês pendia do corpo por um fio, como uma gota na beirada da folha, e quase podia-se dizer que a totalidade dela se concentrara nos olhos. Eram duas escotilhas abertas que davam para o imponderável. Se poços de vácuo, buracos negros ou portais estelares, era melhor não saber. Brilhavam como nunca, qual um lago muito profundo que faísca ao sol de meio-dia. Maria então procurava entreter a insônia com filmes através da madrugada, mas eles excitavam morbidamente sua imaginação e obrigavam-na a recorrer a expedientes da infância para deter o pavor. Temia uma porta que se abrira, entrar por ela sem querer, por sonambulismo, por feitiço. Em algum lugar naquela casa havia sereias clandestinas que, cantando de outro mundo – um canto que chegava muito enfraquecido mas suficientemente audível para encher de temor e atração o coração dos vivos –, tinham passado para o lado de cá através dos olhos de Inês. Sim, e Maria tinha medo de surpreendê-las amontoadas na despensa. Salete, sendo de constituição mais robusta, resistia com determinação, não sofria a vertigem de ir-se, de desfazer-se no vazio voraz dos olhos de Inês. Certamente era ela quem percorria a casa apagando luzes, fechando torneiras, verificando portas e janelas. Na noite definitiva, em que com um assobio agudo e o grito esganiçado das sereias tragadas as escotilhas se fecharam, Maria, que como não é de se estranhar ganhara olheiras e um ar abatido, recuara insensivelmente para a sala escura enquanto ouvia Salete recitar, e estendera-se no sofá como não fizera por todo esse tempo. Tinha a agradável lembrança de na infância ter dormido em noites de festa embalada pelo burburinho que ia se tornando distante, e as articulações da voz de Salete, nas quais não discernia as palavras, surtiram um efeito similar. Mas o sono em que mergulhou era raso e agitadiço, volta e meia devolvia-a ao limiar da vigília, pouco acima e pouco abaixo do qual alternava-se antes de afundar novamente, como quando em menina surpreendia os ruídos da sala no exato instante em que se transmutavam em componentes de sonho. Dado momento, percebia que a voz de Salete tinha cessado e via na varanda uma silhueta desnuda e raquítica de mulher, os cabelos esvoaçantes. Não saberia dizer mais tarde se gritara para fora ou para dentro, mas que a figura voltava levemente o rosto antes de precipitar-se na escuridão. Era uma noite de ressaca, e os vagalhões se atiravam direto contra a muralha do edifício – o mar avançara nos últimos anos –. O vento era um urro que parecia envolver o canto só ouvido por Ulisses, Maria se encolhia no ângulo do sofá e tudo o que mais desejava eram os cem olhos de Argos, para não ter costas. Quando enfim se armava de coragem para tanto, dirigia-se ao quarto de Inês e na semi-obscuridade em que a chama arquejante esgrimia desamparada deparava com Salete ressonando, a cabeça tombada no espaldar, o livro ainda preso entre os dedos a despeito da mão inerte sobre o colo. Como não ousasse transpor a soleira, a própria Salete obstruía-lhe a visão de parte da cama, e não se podia dizer se as volutas cambiantes das cobertas ocultavam Inês ou não. Maria fazia então mais uma vez a penosa travessia do corredor. Quando Salete a despertou, viu em seu semblante que Inês passara. Esvaziou-se num longo suspiro; ela e o mundo estavam de volta sem ter partido, mas é que às vezes soçobram mesmo os barcos atracados. A tristeza afinal se amotinou e rompeu através das comportas, arrastando-a. Sob seu peso e pressão, Maria sucumbiu e veio dar a uma praia virgem, onde ondas tranqüilas se partiam, e onde o silêncio imperava, nem alegre nem triste: vazio. Mas sua permanência nessa bolha de insipidez preventiva não se prolongou muito. Pouco depois, acordou um dia animada e resolvida a fazer uma faxina na casa, que foi na verdade uma reordenação e uma varredura. Mais além ainda, um simulacro de mudança, e um expurgo. Salete achou-a engraçada com a bandana vermelha que encontrara numa caixa no quarto dos fundos – uma das que Inês usava quando seus cabelos iam até a cintura e passeava na garupa da Harley-Davidson de seu primeiro e último namorado –, mas não disse nada.
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