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Crises cíclicas do capitalismo
por Lara

 

Em algumas crônicas de minha autoria, deixei clara a minha posição pessoal em relação à herança marxista: neutralizar os erros e assimilar os acertos, trazendo estes para uma nova proposta de socialismo. No caso do Brasil, através de uma estratégia etapista, onde, gradualmente, pequenos avanços possam levar, paulatinamente, até etapas mais avançadas, que se aproximariam de algo semelhante a um “welfare state tupiniquim”. A partir daí, numa nova etapa, tentaríamos aproximarmo-nos, até o possível, de alguma forma de socialismo ou democracia “direta” (isso tudo sem descartar, a priori, recuos ou estagnações na trajetória, e sem tentar definir exatamente quanto tempo duraria cada etapa, uma vez que isso seria mesmo humanamente imprevisível, ao depender de vários fatores na realidade concreta).

Ao assumir esta posição ideológica, atraí o ódio tanto de neo-liberais e centristas à direita, que sonham em enterrar definitivamente o arsenal teórico marxista, quanto o ódio da ortodoxia marxista em geral, que sonha em implantar, de uma hora pra outra, alguma variante de ditadura do “proletariado”, quanto também dos anarquistas radicalóides e ultra-sonhadores, que pensam poder implantar, de uma hora pra outra, um paraíso autogestionário generalizado num país de “carma” coletivo tão “pesado”, como é este nosso Brasilzinho dos recordes de concentração de renda e terra (entre outras “coisitas” más). Aí então deixei claro que essa estratégia etapista seria certamente melhor encampada pela ala “moderada” do PSOL, e não pelo petismo, uma vez que este já estaria incuravelmente cooptado pelo centrismo à direitacom discurso e fachada à centro-esquerda (pra disfarçar o centro-direitismo na prática, obviamente). Aí o ódio transbordou em todos os três extremos referidos acima.

Bom, o fato concreto é que o capitalismo está entrando numa dessas suas crises cíclicas, e esta parece bastante grave. E aí os fantasmas de Keynes e Marx começam novamente a rondar o mundo, depois de terem sido definitivamente “enterrados” pela ilustríssima casta economicista liberalóide, com a sua pose absolutamente neutra nos seus pressupostos ultra-científicos, embora a tal “mão invisível” comece a parecer cada vez mais com uma escancarada superstição cognitiva; e a luta de classes, que também foi devidamente enterrada por esses ilustres senhores, e pelos novos místicos absolutamente pacíficos de plantão, agora recomece a ferver em países vizinhos, num círculo de fogo “neo-stalinzinho”. Vamos em frente.

Os nobres senhores Olof Palme e Miguel Bakunin (que previu, num opúsculo de 1876, a degeneração burocrática e totalitária da herança marxista) também receberam a última pá-de-cal dos donos da verdade do marxismo ortodoxo e do “velho” capitalismo selvagem, recauchutado e piorado após o Consenso de Washington. Portanto, vejam bem, senhoras e senhores: estamos diante de uma situação complexíssima, agora, nesta nossa atualidade pós-tudo. No caso específico do nosso ilustre Brasil, não me parece viável a travessia de uma “ditadura trotskista” ou de uma “auto-gestão generalizada” pra logo depois de amanhã. Parece-me que, aqui, especificamente nas searas tupinambás, os avanços terão mesmo que acontecerem a conta-gotas, se é que acontecerão, não por escolha do meu umbigo egótico, mas porque as relações de forças concretas na realidade tupiniquim indicam uma lucidez nesta referida direção etapista, paulatina. TOU REPETINDO. TOU RE-PE-TIN-DO. EU SEI!!!

Mas voltemos ao senhor Karl Marx.

Este senhor, pelo que eu sei, tinha lá suas falhas humanas e suas limitações epistêmicas, mas acertou em relação a uma série de aspectos da Economia Política, principalmente no que se refere ao detalhamento econômico da exploração do homem pelo homem, e de certas mazelas específicas do capitalismo selvagem em geral, velho ou “novo”. O problema é que a maioria dos herdeiros “científicos” deste senhor não querem admitir a possibilidade de que possa existir, mesmo que circunstancialmente, um capitalismo menos selvagem, ou seja, alguma sub-espécie de “welfare state” onde as ditas mazelas sejam relativamente atenuadas ou dirimidas até certo ponto (uma vez que a condição humana é bipolar, essa oscilações podem acontecer). Os países nórdicos, mormente a Noruega, são uma prova indiscutível de que isso é possível, embora tenham lá também as suas “mazelas”. E então estes referidos herdeiros - num país como este nosso Brasilzinho tenebroso, onde mudanças sócio-econômicas profundas são dificílimas, talvez impossíveis, inclusive por conta de defeitos ancestrais do nosso povo, além da cooptação generalizada entre a “ex-esquerda” - então esse referidos herdeiros, ao invés de voltarem seus olhos, circunstancialmente, para um cara como o Olof Palme, ou algo parecido, afiam seus enormes caninos e passam a, ensandecidamente, ver possibilidades de implantação de uma ditadura do proletariado tupiniquim, ressuscitando fantasmas totalitários à Stalin, Mao, Fidel, Pol Pot, etc, etc.

Voltemos mais uma vez ao senhor Karl Marx: podemos dizer que a atual crise começou com uma “superprodução” de imóveis que os consumidores ianques não puderam comprar (e quem comprou não pôde saldar), além de uma excessiva emissão de títulos e papéis sem lastro, o que gerou estrambólicas bolhas financeiras que  espalharam suas conseqüências por todo o planeta, num destrambelhado efeito dominó. Ora, meus caros, se é assim, estamos diante de uma explicação “tipicamente” marxista para essas crises cíclicas do capitalismo. Por outro lado, se não fui eu quem jogou no lixo todo o arsenal teórico marxista, também não andei pregando ditadurazinhas “leninistas” ao primeiro sinal de crise nas nossas searas tupinambás, ao invés de tentar mapear o que é negativo e positivo em cada autor, e lucidamente enxergar o que é possível e o que não é possível, também em cada caso. Brasil é Brasil, Venezuela é Venezuela, e Noruega é Noruega. São diferentes: óbvio.

O mais incrível de tudo isso é que foram os neo-liberais, depois de décadas da ditadura financeira inquestionável dos ditames do FMI e Banco Mundial, e seus carcarás da “mão invisível” do livre mercado, que se apressaram a estatizar e “socorrer” bancos e empresas com o dinheiro público (os impostos regressivos que pagamos, enquanto a velha e nova burguesia brasileiras mamam nas tetas públicas e praticam as suas sorrateiras sonegações). Escrotíssimos: socializam prejuízos mas não socializam lucros, e é sempre o cofre público que remenda os efeitos colaterais de suas escrotices irresponsáveis e vampirescas, enquanto os pobres e assalariados amargam reduções nas suas ínfimas merrecas familiares, e ninguém fala em progressividade nos impostos diretos, nem seletividade nos indiretos. (Vocês viram o que aconteceu com os generosos subsídios e isenções dados pelo governo Lula aos grandes editores deste nosso país fudido? E aí? Os preços dos livros foram reduzidos?).

Os nossos nobres economistas e jornalistas e intelectualóides, em sua grande maioria, salvo raríssimas exceções, evitam falar em acertos marxistas, anarquistas ou democrático-populares à esquerda, quando o assunto é esta nova crise do capitalismo mundial, uma vez que cada um já escolheu o seu compartimento fechado em si mesmo. Estão todos cooptados? Bom, se estão, eu que devo cuidar de costurar a minha “colcha-de-retalhos” ideológico-econômica. Por que deveria esperar que um deles fizesse por mim?

Danem-se.

(outubro 2008)

Coluna Buraco de Minhoca

LARA
  poeta, cronista, contista e recitador

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Editores:

 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cícero Belmar