principal  |   colunistas   |   Lara

Crítica impressionaista e jornalismo gonzo
por Lara

 

Li umas coisas de Álvaro Lins e Hunther Thompson, e fiquei deslumbrado. Então fui na Internet procurar mais informações sobre essa família estilística. E descobri que atualmente, no Brasil, há muitos jornalistas que escrevem com estilo gonzo, e muita gente fazendo crítica literária “impressionista”. Bela descoberta. Quer dizer, eu já sabia, mas não estava conseguindo um tempo para dedicar especificamente a esta “pesquisa”. Então, no feriadão de Tiradentes, fui várias vezes numa lan house e acessei outras coisas de outros autores dessa família estilística. Bela redescoberta.

Tou aqui imaginando como seriam os leitores de jornais diários nas décadas de 40 e 50, um tempo em que quase todos estes jornais possuíam um caderno, suplemento ou seção dedicados especificamente à literatura de um modo geral, ou seja, um tempo em que a ponte entre o “crítico literário” e o leitor médio existia, mesmo sendo uma ponte frágil. Quem destruiu essa frágil ponte foi, sem dúvida, a hegemonia ostensiva da crítica acadêmico-cientificista, com o seu jargão excessivamente especializado, fechada numa torre-de-marfim elitista, e embasada no tripé formalismo-esteticismo-tecnicismo (onde o fluxo “melódico” na sintaxe e na concatenação é encarado como um dogma inquestionável, ou mesmo onde a mensagem é submetida a um jogo de esconde-esconde, principalmente na poesia, como se tudo isso fosse o supra-sumo do efeito estético, e medida principal para todos os fenômenos literários ou quase-literários). Quero dizer: a abordagem cultural-existencial-social, feita com uma linguagem relativamente acessível ao leitor médio, foi relegada a último plano a partir desse “termidor” (isso no campo específico da literatura). Não estou querendo dizer que a sistematização de conhecimentos literários em linguagem técnica especializada não tenha a sua importância. Tem, e é uma importância grande. Porém, por maior que seja, não justifica a hegemonia ostensiva do estilo clássico-acadêmico (paradigma tipográfico) em todas as áreas e campos e espaços literários, principalmente quando são usados termos técnicos não-dicionarizados, exclusivos do mundo acadêmico-cientificista, e sem tradução em rodapés ou no fim dos capítulos, sem falar nos trechos em latim, alemão, grego, etc.

O que está implícito, subentendido, é: você não pode nem deve escrever qualquer coisa que se assemelhe à crítica literária se você não domina o jargão cientificista e tecnocrata, exclusivo do gueto doutoral fechado em si mesmo (“os espaços estão fechados; não insista”). Mas outra coisa ficou clara com a rápida passagem da crítica impressionista entre nós, tupiniquins: é possível, sim, fazer comentários sobre literatura ou sobre qualquer outro tipo de conhecimento sem usar os termos exclusivamente técnicos da torre-de-marfim acadêmico-formalista. O Álvaro Lins e o Fritjof Capra provaram isso (“mataram a cobra e mostraram o pau”). Se o contexto agora é outro, os leitores médios ainda estão aí, não deixaram de existir. O que falta é espaço e apoio para aqueles que se propõem a fazer uma crítica em estilo mais simples, e tentar reconstruir a frágil ponte destruída, mesmo que usando, eventualmente, termos não-popularizados, porém dicionarizados. No caso específico dos neologismos não-dicionarizados, eles podem ficar para uso exclusivo da academia e seu banco-de-dados. Esse banco tem a sua importância, como já disse.

Enfim: é mais que urgente e mais que necessário refazer a ponte literária com o “leitor médio”. Quem serão os novos heróis que irão refazê-la? Onde eles estão?

Após 68, parece óbvio, mas não é tão óbvio assim não. Depende do contexto, do local, da hora, das relações de poder, etc, etc (aí varia). Uma coisa é certa: não sou eu quem vai fazer essa sistematização, mas sim os jovens mestrandos e doutorandos dos departamentos de Letras. O que o tio Lara pode fazer é apenas indicar algumas idéias e intuições. A sistematização, propriamente dita, vai ficar para quem se dispuser a fazê-la.

Quanto ao jornalismo gonzo, a primeira conseqüência é a seguinte: a tão badalada objetividade jornalística acaba desmascarada como um impraticável dogmazinho das influências cientificistas pan-racionais, como um esquemazinho sub-reptício para desviar do que é mais desvelador da realidade ampla, mormente no que se refere às relações de poder, ao cotidiano sócio-econômico, aos mecanismos de dominação, à desreferencialização do real, à expansão da consciência, etc. A grande vantagem do jornalismo gonzo é escrever numa linguagem compreensível para o leitor “comum”, passando, através dessa linguagem, meandros da realidade concreta, dos mecanismos de poder, dos esquemas de dominação (um “coloquialismo” desvelador de realidades, no plural, e ampliador de percepções). Após 68, seria óbvio, mas não é tão óbvio assim não. A realidade cubana, por exemplo, pra quem não mora por lá, ou não pode, por vários motivos, viajar até lá, sempre foi e ainda é um grande mistério quase-intocável. Foi preciso que um escritor “gonzo” como o Pedro Juan Gutiérrez revelasse as entranhas dessa sociedade para que tivéssemos uma idéia mais aproximada do realmente existente naquele país do Caribe. (O que os doutores não fizeram, um escritor gonzo fez). Talvez seja por essas e outras que as biografias e documentários têm atraído tanta gente na atualidade: parece haver, atualmente, um enorme desejo coletivo de “flagrar” realidades concretas, já que elas estão sempre sendo bem escondidas pelos poderes estabelecidos, seja o maoísmo chinês, seja o leninismo cubano, seja a mídia tupiniquim, seja o sistema de castas hindu, seja o que diabo for.

Outro problema com a herança formalista-esteticista: os excessos autofágicos da metaliteratura, que, no frigir dos cocos, desemboca sempre em alguma variante de arte-pela-arte. E nós já sabemos quais as conseqüências nefastas dessa postura. Já vimos esse filme antes (inclusive na suas variantes “pós-modernas”). Também não estou fazendo demonização total da metaliteratura. Ela tem o seu valor: limitado, mas tem. E também não defendo uma hegemonia ostensiva do campo “alternativo”, pois estou consciente de que o mais frutífero é o jogo dialético entre os diferentes campos, e não a supremacia de um sobre os outros, seja ele qual for. (Eu também escrevi alguns troços de inspiração metaliterária).

Sabemos que, antes de mais nada, por trás de tudo, está sempre o lado político-ideológico-econômico, escondido ou enrustido ou desviado. Ou seja: as motivações político-ideológico-econômicas são sempre escondidas ou evitadas através de esqueminhas formalistas, esteticistas, cientificistas, tecnicistas, etc (velha falácia da pseudo-neutralidade pan-racional “científica”). Um esquema chôcho a ser superado através de uma abordagem múltipla, policultural, transdisciplinar: porém através de uma linguagem minimamente compreensível para o leitor médio. Esse é o grande desafio aos pósteros.

Essa nova postura pode, inclusive, atuar como fornecedora de subsídios culturais, existenciais, sociais, etc, para ciências humanas supostamente modificadas nos seus pressupostos epistêmicos, uma tarefa a ser exercida não apenas por escritores e poetas, auxiliando a renovação das Humanidades, mas por artistas em geral, desde que dispostos a colaborar com o difícil trabalho de socializar idéias para o leitor médio, e expandir a consciência e a visão crítica do maior número possível de pessoas, e não apenas dos guetos acadêmicos fechados em si mesmos.

Tenho dito.

Tou com a Gôta. Tou com a Mulesta.

Sai de perto.

(maio 2008)

Coluna Buraco de Minhoca

LARA
 poeta, cronista, contista e recitador

  Voltar à página inicial

EFEITOS COLATERAIS DE CONVICÇÕES ALTERNATIVAS

ELEIÇÕES MUNICIPAIS 2012

Fim do suporte, sub-arte, pseudo-literatura, etc

CAPACAÇA E OS ANGICOS

SANGUE DAS LINGUAGENS, CARNIÇA DAS GRAMÁTICAS

A OBRA E O HOMEM

O ESMOLÉU E O JIM JONES MARXISTA-LENINISTA

BREGA

A INVENCÍVEL BURGUESIA TUPINIQUIM

O FIM DOS HOSPÍCIOS

ELEIÇÕES NA UFPE 2011

MACONHA

ABORTO*

A jabulane, o cérebro de canário e os leviatãs tupiniquins

Contra o desarmamento

Zé Celso

Minha chapa para as eleições gerais de 2010

Dialogando com as profissionais do sexo

Fetiche do pó

A Galiléia de Ronaldo

Revanchismos e vinganças

Marina, o PV e Caetano

Histórias sobram. Narradores faltam.

A reforma fiscal do lulismo

Nem o mel e nem a cabaça (II)

Novamente a vida

Desde que abraão comeu agar

Barateamento de livros

Psicodelia e transcendência

Crises cíclicas do capitalismo

A balela do acordo ortográfico

Dois antípodas em pé de igualdade

Crítica impressionaista e jornalismo gonzo

Estereotipia contracultural

Pós pós

Minha chapa para as eleições municipais de 2008

Somos criaturas dominadas pelo mal

Não fui feito pra ser pai

Puro sangue indo-europeu

Projeção cultural

O direito de criticar tudo e a lucidez para aceitar ser criticado

O peido do bode libera pouco metano

O movimento grevista na ufpe

Pra não dizerem que não falei de literatura

O domador de abismos surfando no caos

Meu cumpade Chico Espinhara

A mídia, seus âncoras e comentaristas

Anorexia e correlatos

Cognição das pedras

Inevitáveis aspectos negativos em reencarnações de avatares

Balangandãs, Balacubacos e Parangolés

Minha chapa para as eleições gerais de 2006

Pós-Morte

Xamãs e Canibais ( I )

Paulo Figueiredo

Vísceras na mesa

Etapismo não é reformismo

Ralé desesperada

Potestades & Leviatãs

Maria-vai-com-as-outras


Flash player required!






Banner

Banner




quem somosfale conoscoportfoliolinksclipagemhotsites

Editores:

 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cida Pedrosa