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Somos criaturas dominadas pelo mal
por Lara

 

Impedir que a percepção e as transformações subjetivas e sócio-econômicas ultrapassem determinados limites. Este é o principal sintoma do domínio do Mal entre os humanos. E pode vestir qualquer carapuça: atéia, cristã, esotérica, psicodélica, etc. E a grande maioria das pessoas evita esse tipo de abordagem sobre esse tipo de questão. Portanto, estou tocando no intocável (mais uma vez correndo certos riscos).

Dizia o insigne Huberto Rohden que, a partir de Teodósio, o domínio “luciférico” mudou de tática: ao invés da eliminação física, passou a utilizar o fingimento de abraçar alguma nova crença, deturpá-la por dentro e usá-la como álibi para exercer alguma espécie de poder extremamente injusto, excludente, vampiresco (bela tática: deu certo). A seita “Crânios e Ossos” que o diga. Ou a “Opus Dei”.

Mas tudo isso aconteceu não só em relação ao cristianismo, como também com outras “áreas”: marxismo, islamismo, misticismo, liberalismo, etc. E assim continua: permitindo caridades e esmolas, mas não permitindo qualquer transformação coletiva além de determinado limite.

Podemos dizer, em termos de junção da liberdade individual com distribuição de renda, que o máximo que a humanidade atingiu foi o Welfare State Nórdico, o que é pouco, se você levar em conta a permanência da monarquia (vampiros) e das multinacionais escandinavas fazendo exploração do Homem pelo Homem em diversos países (vampiragem também).

Agora, quando você vai investigar um “fenômeno” desses, inevitavelmente vai esbarrar nas fronteiras da superstição, é inevitável. Aqui então é preciso que o cabra seja capaz de suportar uma forte tensão entre ciência e religiosidade, fazendo, ao mesmo tempo, a autotranscendência das duas, sob pena de, ao contrário, desembocar no extremo unilateral pan-racionalista ou no extremo nefelibata do sexo dos anjos. Sem falar na possibilidade (alta) de que a cognição humana não possa mesmo penetrar vários aspectos desse “campo energético desviante” que, se não tem a capacidade de criar a partir do Nada, por outro lado tem uma enorme capacidade de desviar e “cristalizar” o desvio.

É manipulando poderes estabelecidos que esse “troço” solidifica e engessa situações injustas, vampirescas, castradoras. Outro aspecto fundamental: quem ultrapassar limites, perceptivos ou sociais, torna-se, mesmo involuntariamente, inimigo dessa “energia dominante”. E as conseqüências podem ser de vários tipos: psicológicas, econômicas, existenciais, políticas, somáticas, etc.

Instintiva e intuitivamente, o povo sabe do que se trata: “algo” invencível, um problema sem solução no nível coletivo. Algumas facetas desse fenômeno são o conformismo, a omissão e a apatia tupiniquins, engessados e imutáveis diante das injustiças e vampiragens e corrupções e limitações e criminalidades e impunidades que assolam este nosso país fudido. Não foi à toa que um cara como o Saulo de Tarso, em certos momentos, ficava completamente desnorteado e apavorado, e chegava à conclusão de que estava lutando contra “potestades do ar”.

Reduzir uma discussão dessas às relações de produção, ou ao sexo, ou ao poder, ou à mente, ou ao coração, ou seja lá ao que for, será uma maneira limitada e reducionista de investigar o problema. É preciso abordar a maior quantidade de aspectos possível. O que não pode ser feito numa crônica de três laudas, óbvio; mas eu vou, como sempre, tentar ser o mais sintético possível. Afinal, já usei, até aqui, quase uma lauda e meia.

Voltando pro sério: todo esse domínio, paradoxalmente, não consegue evitar pequenas brechas para a evolução individual ou de pequenos grupos, o que traz um tênue fio de esperança, principalmente para avanços psicológicos e “espirituais” no nível pessoal, mas nem tanto para maiores mudanças sociais, econômicas, políticas, ambientais. A essa altura, é inarredável a pergunta: onde fica “Deus” nessa história toda? Bom, primeiro você tem que me dizer de qual concepção de “Deus” você está falando, já que são muitas, as mais variadas. Eu sempre penso numa Teia Cósmica que não coincide exatamente com os “Deuses” das diferentes religiões institucionalizadas. Mas vamos lá: perguntemos por que esse domínio existe e onde fica a “Mente Cósmica” no meio disso tudo.

Levantemos quatro possibilidades: 1) “Deus” não quer intervir; 2) não pode modificar; 3) respeita o livre arbítrio; 4) usa essa realidade para purgar almas, para exercícios de justas punições cósmicas e/ou cármicas. Vamos admitir que qualquer uma das quatro pode ser a verdadeira. Afinal, segundo Jung , o Id e o Superego são duas potências igualmente poderosas. Se quisermos ir além do raciocínio junguiano, mais uma vez aproximar-nos-emos da superstição, inclusive quando começamos a querer abarcar toda a mente de “Deus” com o cientificismo hominídeo (cognição humana egótica e auto-suficiente).

Voltemos pro sério outra vez: obviamente não estou falando de um bode preto, chifrudo e rabudo, mas de um determinado “campo energético”, com uma imensurável capacidade cognitiva e desviante. Essa caricaturazinha do bode preto, na verdade, tem sido usada por certos poderes seculares para driblar ou evitar, justamente, a investigação sobre o realmente existente. Quero dizer: uma das principais táticas desse “campo” é fingir-se “anjo de luz”. E finge bem. Tanto é que muita gente acredita. Nunca deixa de haver quem acredite.

Na Mente Cósmica, o positivo e o negativo existem sem causar maiores transtornos no geral. Na especificidade humana é que determinados aspectos do pólo “negativo” podem ser fatais, como é o caso da vontade-de-poder. Dentro da Mente Cósmica, esse impulso, em estado bruto, não provoca maiores nocividades no geral; é “neutro” em si mesmo. Seu fluxo e refluxo, dentro da Totalidade Sideral, existe de maneira “harmônica”. No caso específico do Homem é que ele, o impulso, chegou a um ponto de extremos e excessos mal-administrados, bastante nocivos. Outro aspecto supercomplicado é a pulsão egóica (o que faz com que cada um se julgue dono da verdade, e se veja como um “eu-corpo” separado do Todo, sem falar na ânsia obsessiva de querer ser tão “grande” quanto o Todo).

Vejamos outras facetas que são muito difíceis de serem investigadas: a) quando esse “desvio” começou e porque começou; b) se é um “pedaço” do Homem ou uma extensão do Mal; c) como esse desvio acontece e consolida-se. E sempre haverá nuances não abordadas ou insuficientemente abordadas. Mas uma coisa é certa: a uma determinada altura da trajetória humana, “isso” aconteceu e consolidou-se (cristalizou-se). EU vejo esse início nas primeiras cidades-estado sumérias, embora tal fenômeno pareça ter uma gestação pré-cósmica. Nesse caso, característica consolidada não pode ser modificada? Trata-se de ego humano ou de uma extensão do Mal? Ou os dois? É cognoscível e modificável? Está aberto para acordos e negociações?

A tese do conformismo popular parece dizer, indiretamente, que estamos diante de um problema sem solução. Ultimamente, as pessoas têm-me deixado a impressão de que estão aceitando passivamente a possibilidade futura de extinção da espécie humana. No entanto, é preciso não odiar os “normais”. Afinal, pode haver algo mais forte manipulando-os “por trás” (no Brasil, as evidências do referido domínio têm sido maiores que em outros lugares, uma vez que temos sido recordistas de concentração de renda no planeta). “Tá dominado. Tá tudo dominado.”

Cristo perdoou a inconsciência. Pressupomos então que a omissão também deva ser perdoada como estratégia de sobrevivência, mesmo que essa nossa vidinha não passe de um mero vegetar diário, uma semi-vida?

Outra enorme espinha na garganta é o sentimento de impotência. Horrível. Fodinha. Você sentir claramente que nada pode fazer contra várias facetas desse “nó-de-porco”. Mais sorumbático impossível. E a velha sensação sombria de que você não passa de um mero subproduto da guerrinha “energética” que acontece na “ionosfera”. Como se não bastasse todos os potenciais humanos impedidos de emergir e evoluir (tem horas que sou tentado a pensar que tudo isso tem a ver com o “pecado” contra o “Espírito Santo”). É foda!

Os tempos nunca estiveram tão sombrios como agora, com toda essa loucura de aquecimento global, capitalismo pós-industrial e “leninismos” degenerados. E meio mundo de quixotinhos ingênuos exigindo que sejamos otimistas e esperançosos. Até que não sou tão pessimista assim, pois sei das bipolaridades inerentes à condição humana. Mas a realidade concreta ao redor não deixa muitas margens para esperançazinhas acríticas. Não é mesmo?

Vou repetir: não estou pregando autodestruição individual. ÓBVIO. Eu não disse: “Já que o mundo está uma merda, eu vou me tornar uma merda também”. É outra coisa, certo? Trata-se, no máximo, de negativismo especificamente enquanto ferramenta de percepção. “Pessimismo da inteligência e otimismo da ação”, como dizia o Gramsci. É um mero exercício mental, embora tenha seus riscos (grandes). Mesmo ainda que pessimismos, quase sempre, sejam usados como desculpa sorrateira para vinculações com os “podres poderes”.

Outro lance extremamente difícil é expandir a consciência e a visão crítica até o ponto de uma percepção mais ampla sobre o referido domínio, sobre os diferentes mecanismos que impedem as transformações mentais e sócio-econômicas. É preciso não apenas lutar ideologicamente, mas também colocar o ego como subordinado, e não como comandante. Inverter a polaridade: uma dosagem menor de ego permanecerá, porém subordinada, sob as ordens do “Eu Superior”. Não é fácil, mas essa é a luta. Eu mesmo continuo mais enrolado que bobina de poeta.

“Os filhos do céu são ingênuos para as coisas da Terra”.

“Seja simples como os pombos, mas também esperto como as serpentes”. Ou seja: os filhos do céu precisam deixar de ser ingênuos. Precisam aprender a combinar evolução espiritual, visão crítica e luta política. Tenho dito.

Bom, tá na hora de parar de encher o saco dos meus leitores inexistentes.

Tchauzinho.

Eu, hein?

Calma, garotos.

Fui.

(janeiro 2008)

Coluna Buraco de Minhoca

LARA
  poeta, cronista, contista e recitador

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Editores:

 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cida Pedrosa