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Puro sangue indo-europeu
por Lara

 

O velho tema da alternância de contrários continua dando pano pra muita manga. Constatei isso mais uma vez com a recente eleição do Sarkozy na França. O que ficou claro com essa votação é que a maioria do povo francês não quer misturar o seu sangue franco com o sangue de imigrantes terceiro-mundistas, e também concorda com a destruição do Welfare State Germânico. “Quem te viu e quem TV”.

Para onde foi a França das vanguardas iconoclastas e dos avanços ideológicos?

A França de Daniel Guerin e André Breton parece agora apenas um mero detalhe do passado numa fotografia desbotada. Como não ficar estupefato diante de uma oscilação tão drástica e acachapante? É pra derreter cunhão de mamute. Sem falar que tem havido um crescimento da extrema-direita em toda a Europa. Na Áustria, os fascistóides chegaram a 19% numa dessas eleições parlamentares. Na Alemanha, inúmeros direitos trabalhistas adquiridos nos “áureos” tempos do Estado-de-Bem-Estar-Social estão sendo extinguidos ou seriamente esquartejados. Qualquer sujeito de pele marrom que cruzar com qualquer grupelho de skinheads em algum beco escuro da “Grande Germânia” estará definitivamente ferrado.

Se um cara não quer misturar seu sangue com o de outras “raças”, tem esse direito, ora. Afinal, mestiçagem não está sendo imposta por decreto. Agora, em nome dessa falsa pureza sanguínea, começar a re-implantar graves distorções sócio-econômicas, do tipo daquelas dos primórdios do capitalismo, aí já é quase como se estivessem antevendo e subestimando a emersão de novas guerrinhas civis (ou freqüentes arrastões à moda tupiniquim, ou algo pior).

Sabemos que sangue puro europeu é uma quimera. A Biologia provou que “raça” é um troço que não existe. No “cadinho” indo-europeu, o que tínhamos era uma série de tribos com diferentes características étnicas e “raciais”, o que pressupõe que não havia sangue puro ali naquele cadinho. Se existe algum sangue puro neste planeta, o único lugar onde o encontraríamos seria nos pretos nativos da África que não tiveram misturas na sua árvore genealógica (mesmo assim, ainda temos aí, também, uma série de diferentes tribos).

A “costura” da União Européia foi feita com as suas lideranças pressupondo sorrateiramente que um esquema de destruição do Welfare State e implantação de alguma variante de neo-liberalismo seria “empurrado” a partir de cima. E realmente está sendo empurrado. Mas quando parcelas da população perceberam o esqueminha, o que se viu foi uma série de derrotas em plebiscitos de alguns países, e grandes passeatas e greves e “arrastões” em outros. Mas o esquema “neo-liberal” continua sendo implantado, é vero, mormente devido ao sentimento de pureza étnico-racial de boa parte do povo europeu, mas também devido ao fato de que com o aprofundamento de tal esquema, o desemprego aumenta, e os trabalhos “sujos”, insalubres ou simplesmente mal-remunerados, tradicionalmente ocupados por terceiro-mundistas, começam a ser procurados por aqueles que, “repentinamente”, viram-se jogados na vala comum dos recém-desempregados. E aí a cor da pele ou o tipo sanguíneo passam a ser mera desculpa para o exercício de poder sobre os mais fracos.

A destruição do Welfare State Europeu continua a passos largos, principalmente na França e Alemanha, onde inúmeros direitos trabalhistas estão sendo extintos, ou seriamente reduzidos, e parte dos serviços públicos estão sendo privatizados. Resta alguma resistência nos países nórdicos (mas quem nos garante que os longos caninos afiados do capitalismo pós-industrial não serão cravados também no pescoço dos escandinavos?). Na África, o “vampirismo” econômico também está espalhado em quase todos os lugares. Em vários países do terceiro-mundo onde nunca houve Estado-de-Bem-Estar-Social, como é o caso do Brasil, o lance do momento é impedir que o Welfare State venha a acontecer, o que está sendo realizado pelo lulismo, de forma sutil, paulatina e quase imperceptível para as parcelas da população tradicionalmente apegadas a esmolas e pequenas vantagens advindas da cumplicidade sorrateira com os poderes estabelecidos de cada contexto, ou apenas insuficientemente politizadas “à esquerda”. O próximo passo é a privatização dos hospitais de clínicas (que serão transformados em fundações de direito privado), e a redução do que resta da educação pública e gratuita no terceiro grau, e de parte da previdência social, e o “retalhamento” da CLT e da Constituição de 88 (que já vem acontecendo), entre outros detalhes das tão badaladas reformas, que nada mais são que um plano sorrateiro de implementação dos ditames da ortodoxia monetarista à Consenso de Washington, tão ao gosto da agiotagem internacional (o discurso é de centro-esquerda, mas a prática é “neo-liberal”: está acontecendo algo semelhante com a Argentina e o Chile). É um esquema parecido que faz com que países como a China e a Índia tenham um crescimento econômico onde, paradoxalmente, a desigualdade social e o degringolo ecológico aumentam. É uma esquizofrenia ideológica que, cada vez mais, vai deixando claro suas verdadeiras intenções: de um lado, concede migalhas ínfimas; do outro, vai empurrando à conta-gotas um esqueminha neo-liberal ou semelhante (mas chegará um momento em que essa “vaselina esquizofrênica” terá as suas vísceras expostas no dia-a-dia da realidade concreta). Sem falar que a maioria desses governos vêm a questão ambiental como um entrave ao “progresso” e ao “desenvolvimento” (as indústrias e suas chaminés que o digam), ou os riscos de que países como a Venezuela, a Bolívia e o Equador desemboquem em alguma variante de capitalismo-de-estado nos velhos moldes leninistas ou assemelhados. E sem falar também nas possibilidades de maquiagens estatísticas (ultimamente temos visto uma guerrinha “calculista” entre o IBGE e o IPEA: um dizendo que a desigualdade social tem diminuído, e o outro insistindo que não é bem assim, que os cálculos do IBGE não incluem determinadas variantes, como os juros e os lucros). Pra nós, pobres mortais fudidos que não entendemos patavina nenhuma da alta matemática do economês, só nos resta ficar de olhos bem grudados na realidade concreta: ali onde a porca torce o rabo e o cu da cutia começa a assobiar. Tenho dito.

Senhoras e senhores, diferentes tipos de barbárie estão batendo nas nossas portas. Quando o cheiro de merda e sangue tornarem-se insuportáveis... por favor, lembrem-se que este louco aqui sempre alertou para as desgraças que se avizinham.

OH, YES!!!

(novembro 2007)

Coluna Buraco de Minhoca

LARA
  poeta, cronista, contista e recitador

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Editores:

 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cida Pedrosa