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O peido do bode libera pouco metano
por Lara

 

Tenho dito e repetido: o nó górdio principal desse imbróglio da hecatombe ambiental são as relações de poder em torno das chaminés da indústria pesada, das queimadas, das hidrelétricas, dos automóveis, do peido do boi, etc, etc (esse problema do poder estabelecido enquanto calcanhar-de-aquiles das coletividades humanas). Um gravíssimo problema que, desde os sumérios, a coletividade humana não consegue resolver, ou nem mesmo tem a coragem de encarar. Um imbróglio eminentemente político, mas que também tem suas nuances psicológicas. A insuficiência do Protocolo de Kyoto que o diga. Se a força pudesse ser usada contra os dez maiores poluidores, já deveria ter sido usada; não é mesmo?

Mas quem é que vai usar a “força” contra China, EUA, Rússia, Austrália, Brasil, Índia, Japão, etc? Restaram somente as relações jurídicas e a desobediência civil, embora apenas leis não bastem, porque o jogo do poder a tudo dribla, na prática. “Se a cerca é alta, eu passo por baixo. Se é baixa, eu passo por cima.” Assim dizia o coronel Zezé, e essa frase é a cara do Brasil. Não é?

Alguns cientistas já estão afirmando que as árvores são uma “faca de dois legumes”, ou seja, tanto podem contribuir para o esfriamento como para o aquecimento. Em certas áreas temperadas, por exemplo, elas mais aquecem que esfriam. Portanto, o planeta é muito complexo, e plantar árvores não funciona do mesmo jeito em todos os lugares. Plantar não é o mais importante para reduzir o aquecimento global. Repensar a forma como exercemos poderes, produzimos e consumimos é mais decisivo.

No lado mais especificamente psicológico, temos esse aspecto da quase total ausência de enfrentamento com a Sombra (em linguagem junguiana). E aqui, por incrível que pareça, você volta para a questão das relações de poder, uma vez que o mundo interior é multifacetado (possui uma multiplicidade de faces), e cada face está dotada de pulsão-de-poder. O ego é apenas uma dessas faces. O problema é que ele “degenerou” e assumiu o poder na estrutura mental humana. E ego humano é este nosso umbral terrível. Vocês sabem, eu não preciso ficar repetindo essas coisas. Não é mesmo?

Então fica um bando de babacazinhos plantando árvores, e se recusando a falar de mecanismos de poder e dominação. Por que não partem logo pra desobediência civil, e recusam-se a comer carne-de-boi ou usar derivados de petróleo ou consumir os produtos de todo tipo de indústria que polui? E passam a pressionar duramente os plantadores de soja, os criadores de gado, as monoculturas e as poluições em geral; e recusam a manipulação das mídias burguesa ou maoísta.

Quem vai modificar as relações de poder internacionais? Ou no norte do Brasil? Ou no agreste e sertão? Ou na China? Ou nos EUA? E o sistema de castas na Índia? Na prática, eu disse, na prática.

Claro que estamos diante de um imbróglio que talvez não tenha solução, ou seja, a probabilidade de extinção da espécie humana está colocada, entre outras probabilidades. É uma possibilidade que não pode ser descartada a priori. Muitas indústrias continuarão emitindo seus gases (seus “peidos”); os fazendeiros continuarão promovendo suas queimadas; a indústria da seca continuará assassinando rios; certas “refinarias” poluindo praias... e nós continuaremos sendo os espertinhos ou os babaquinhas que plantam árvores mas se recusam a discutir exercícios de poder, estilos de produção, combate ao ego, covardia popular, etc, etc.

Sei que estou sendo repetitivo, mas às vezes é preciso repetir mesmo. Senão o entorpecimento ou a espertezazinha podem tornarem-se tão grandes, que de repente a gente nem consegue sentir o círculo de fogo cada vez mais próximo à nossa cintura. É bom não esquecer que os EUA são o nosso principal parceiro comercial, e que temos muitos negócios com a China.

Não descarto possibilidades de superação futura desse imbróglio todo, uma vez que a condição humana é bipolar, já disse. Porém o nosso tempo está ficando cada vez mais sombrio, e a probabilidade das coletividades não conseguirem desatar esse nó também está colocada, já que a trajetória da humanidade, desde os sumérios, tem mostrado uma hegemonia do Mal entre os homens, relativamente superada em raríssimos contextos, e essa hegemonia é exercida principalmente através da manipulação de poderes estabelecidos. Mas a pergunta fatal é: quem ou o que está por trás do ego e dos “podres poderes”?

Bom, isso é assunto pra outra coluna. Aguardem.

(agosto 2007)

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LARA
  poeta, cronista, contista e recitador

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Editores:

 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cícero Belmar