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Histórias sobram. Narradores faltam.
por Lara

 

São muitas as histórias interessantes que não foram escritas.

Muito incentivei os meus amigos poetas a escreverem prosa, principalmente contos. Em vão. Sabemos o quanto é difícil combinar as duas coisas (são raros os que conseguem). Quem escreve poesia, tem dificuldade para escrever prosa, e vice-versa. Mas tem também a preguiça mental e outros poréns e senões. Escrever é tarefa árdua, nunca é demais repetir.

Se um não se sente seguro, e não acredita em si mesmo, o outro padece de uma estranha “narcolepsia” psíquica: não tem “fogo” para escrever (é o meu caso). Um terceiro tem planos de adaptar-se aos ditames do cânone de plantão, seja clássico, regionalista ou pós-moderno (há vantagens “imediatas” para os adaptados). Um quarto confunde boemia com arte (se todos os boêmios fossem artistas ou pensadores, a espécie não iria se extinguir). Outro é covarde, tem medo de se expor. Tem também aqueles que sonham em ficar famosos após escreverem vinte ou trinta poemas, e a partir daí deitarem na rede dos direitos autorais e dos “jabaculês” (e haja sonho). Os exemplos são muitos.

Mas, obviamente, não se trata de dar nome aos bois, embora seja grande a falta que fazem as narrativas mais desveladoras da realidade concreta, principalmente aquelas em linguagem coloquial bem trabalhada. A realidade continua proibida de aparecer nas telas. São muitos os bloqueios, autocensuras, inseguranças, consequências, injunções, efeitos colaterais, etc. Desvelar e expor o real é uma missão difícil e inglória. A importância desse desvelamento e dessa exposição de “vísceras”, sejam concretas ou psicológicas, evidencia-se. Hoje é grande o interesse por biografias, documentários, gêneros confessionais, autobiografias, diários, etc (embora o mundo acadêmico ainda torça o nariz para esses campos literários, e os poderes estabelecidos continuem fazendo os seus “sérios” esforços para impedir que a percepção crítica ultrapasse determinadas fronteiras, inclusive quando priorizam “específicas” pós-modernidades acríticas e despolitizadas).

Essa minha insistência para que sejam os poetas do meu círculo a escreverem essa literatura “neo-naturalista” é uma insistência com um bom argumento: o fato de que são eles os que têm mais experiências pessoais, mais vivências reais (imaginem as loucuras que esses caras viveram, e tudo o que eles têm para contar e “revelar”: basta mudar os nomes). Eu não tenho muito o que contar. A maior parte da minha vida é apenas rede, livro e punheta. Restou-me a imaginação, que é caótica, delirante, preguiçosa (o contato com o mundo real foi pouco). Daí que são eles, os referidos poetas, os “escolhidos” prioritariamente para essa missão espinhosa. Até porque as possibilidades financeiras da prosa são maiores, e ninguém é de ferro.

Não acredito em talento para escrever. Qualquer um pode, através de um bom esforço pessoal, colocar no papel uma literatura “mediana”, com boas revelações dos mecanismos de dominação, relações de poder, modos de produzir, verdades sexuais, detalhes egóticos, falhas pessoais, situações psicológicas, etc, etc. Essa troca de idéias e experiências seria fundamental para o “povão” em geral, mormente, exercitar sua expansão da consciência e da visão crítica. Vale tudo: “fofocas”, confissões, retratos, fingimentos, infiltrações, segredos, duplicidades, etc, etc. Tudo pode ser material para uma literatura desveladora e reveladora, repassada através de um estilo cru e/ou coloquial, compreensível para o leitor médio, embora sejam muitas as dificuldades e impedimentos e “punições” e covardias.

Acreditem: essa missão não é minha, mas deles, os poetas do meu círculo, cujas trajetórias são cheias de vivências reais, e de convívio íntimo com o povo e as “vanguardas”: aqueles e aquelas que verdadeiramente curtiram a vida.

TENHO DITO, E REPETIDO.

(novembro 2009)

Coluna Buraco de Minhoca

LARA
  poeta, cronista, contista e recitador

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Editores:

 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cida Pedrosa