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Nem o mel e nem a cabaça (II)
por Lara

 

A política do tudo ou nada, muito freqüentemente, tem levado mais ao nada do que ao tudo. Até mesmo os grandes generais da história, vez ou outra, fizeram os seus recuos táticos. Portanto, minha gente, negociar é preciso, sempre que possível. Quando não é possível, por um motivo ou por outro, só então parte-se para o confronto direto e frontal. Negar-se à negociação, por excesso de radicalismo ou capricho pessoal, resulta em descartar, a priori, qualquer possibilidade de pequenos ganhos na negociação (quando a relação de forças é desfavorável). Ora, direis, “pequenos ganhos” são “esmolas”. E eu vos direi: sim, são. Pois a questão central é a seguinte: quando não temos força acumulada o bastante para “impor” um ganho maior, nada nos resta senão negociar os tais “pequenos ganhos”. Estas “esmolas” são, na maioria dos casos, necessárias circunstancialmente para os pobres em geral. A classe média (mesmo a baixa) não precisa dessas pequenas concessões dos poderes estabelecidos. Mas os pobres precisam, para evitar uma piora no quadro geral das coisas. É evidente que, quando o acúmulo de forças estiver favorável, os oprimidos poderão barganhar ganhos maiores, através da própria negociação ou de alguma forma de pressão. É óbvio também que alguma transformação social mais profunda não está descartada, desde que possível. Quer dizer, é preciso combinar a luta por pequenos ganhos com a luta maior por transformações mais profundas e mais amplas. Claro que existe o risco de uma parte do povo viciar-se em esmolas, ou afundar no conformismo; mas em tudo que fazemos, corremos riscos, não há como evitá-los.

Bom, vamos à parte prática. Quando o assunto é assistência (de um modo geral), os mais extremistas tendem a querer erradicá-la por completo, o que é um erro crasso, pois os mais desfavorecidos precisam dela contextualmente, como já disse. O melhor caminho seria negociar algum esquema assistencial, possível, que não levasse a entidade prestadora dessa assistência à inviabilidade financeira, ou seja, que se negociasse limites para essas atividades assistenciais (enxugá-las até um certo ponto). Aqui no Centro de Artes (CAC) da UFPE, onde trabalho como assistente administrativo, tivemos um exemplo prático que ilustrou bem essa questão no geral: a diretoria do Centro, após negociações, concordou em abrir três vagas para técnico-administrativos no Conselho Departamental do CAC. Para os extremistas, já que temos quinze Departamentos no CAC, teríamos que radicalizar e exigir 1/3 das vagas. A maioria dos funcionários do CAC, com lucidez, a meu ver, aceitou o possível para aquele contexto, ou seja: três vagas (de técnicos para o Conselho: dois titulares e um suplente). Já os “extremistas” queriam dez ou nada (cinco titulares e cinco suplentes). Mas esta era a primeira vez na história da UFPE que um Centro disponibilizava vagas para técnicos no seu Conselho Departamental. Há um pioneirismo aí, mesmo com um pequeno número de vagas para funcionários. Portanto: o mais lúcido era mesmo segurar a “esmola” e aproveitar outras brechas no futuro. (Num outro momento, veremos se é possível avançar e negociar ou pressionar por uma quantidade maior).

No caso do reitorado de Amaro e do governo Lula, perguntemos: O que é possível negociar? Até onde é possível avançar? Onde é preciso pressionar?

Quero deixar claro, antes de mais nada, que não sou dos que acreditam que é possível “puxar” o governo Lula pra esquerda em curto ou médio prazo (até simpatizo mais com a Heloísa Helena do que com o Luís Inácio; bem mais). No entanto, essa constatação não deve impedir-nos de negociar os pequenos ganhos para os desfavorecidos em geral, e pressionar, de um modo geral, tendo em vista ganhos maiores, ou mudanças mais profundas, sempre que possível (segurar as esmolas e aproveitar as brechas). Aqui no reitorado de Amaro, teremos a Estatuinte (que vai implementar mudanças no Estatuto da UFPE). Vamos ou não vamos negociar a participação de técnicos nessa Comissão? Qual a melhor forma de pressionar Amaro pra que ele, desde já, garanta a participação de funcionários na Estatuinte? Qual o percentual possível que podemos conseguir através de negociações e pressões? Vou ser sincero: eu negociaria um percentual de 40-30-30 (ou até 45-30-25, dependendo da correlação de forças): para a Estatuinte e para todos os órgãos decisórios da UFPE. Agora, se Amaro radicalizar, e insistir no velho 70-15-15, aí vai ter guerra. Que espécie de guerra, eu não sei, mas vai ter. Por falar nisso, vamos pressionar o Sindicato dos Técnicos (SINTUFEPE) pra que ele cuide dessa questão com mais assiduidade e urgência.

Porém a “base” da UFPE anda muito quieta e conformada. Sequer aparece nas assembléias. E aí vamos pressionar a base também? É claro. Vamos cobrar a sua parte na responsabilidade. Por que não? No caso do governo Lula, é preciso mapear detalhadamente onde é possível obter pequenos avanços, e onde não é possível, e como partir pras lutas maiores onde é preciso fazê-lo, mesmo que pra isso precisemos estar na “oposição” ao governo. Se não cuidarmos agora, quando o “tsuname” chegar, a gente vai estar frágil e desprevenido, e iremos cobrar das lideranças o que nós não fizemos quando era preciso fazer. E as futuras gerações, mergulhadas na desgraça, irão condenar a nossa covardia e passividade. Pois as lideranças, sozinhas, sem o apoio da “base”, não têm força bastante para enfrentar os monstros do Poder Estabelecido.

Bom, as eleições gerais estão cada vez mais próximas. Como sempre, vou continuar votando, no 1o turno, preferencialmente em alguma ala moderada e/ou heterodoxado PSOL. Mas poderia votar em Dilma no segundo turno, dependendo de como se comportarem as contradições da centro-direita petista (o famigerado “bloco hegemônico”). Por exemplo: fundações públicas de direito privado. O governo Lula e seus aliados já estão com os projetos prontos. Aqui, em Pernambuco, já foi aprovado pela Assembléia Legislativa. O Congresso Federal deverá colocar em discussão, ainda neste 2º semestre de 2009, provavelmente em regime de urgência. Sabemos, nós que temos um pouco de percepção crítica, que um projeto desses significa, sorrateiramente, pro futuro, uma privatização ou uma semi-privatização de alguns hospitais públicos, federais ou estaduais (este pode ser um bom motivo pra que eu não vote em Dudu, no 2o turno, uma vez que ele, Dudu, já articulou a aprovação de um projeto desse tipo no nível estadual: vou votar em Edílson pra governador). Tou querendo dizer o seguinte: também existe a possibilidade de um voto nulo (no segundo turno), dependendo, como já disse, de como se comportarem as “esquizofrenias” políticas da centro-direita petista (ala hegemônica). Não sei dizer, detalhadamente, como é que fica a ala esquerda do PT em meio a tantas contradições. Será que já foi completamente cooptada pelo famigerado “campo hegemônico”? Este bloco é o tal do Construindo um Novo Brasil (CNB, ex-Unidade na Luta, a ala majoritária dentro do PT): é uma piada de mau gosto ou é uma declaração de guerra mesmo?

De qualquer forma, eu preferiria um Raul Pont ou um Válter Pomar ou um Marcos Sokol (para o 2o turno, no caso das eleições gerais do Brasil); pois, como já dizia a sabedoria popular, “quem não tem Tarzan, caça com Tantan”. Quero dizer: pra quem acredita numa estratégia etapista de transformação social para o Brasil, a ala esquerda do PT ainda tem uma contribuição circunstancial a exercer. Ou não?

(agosto 2009)

Coluna Buraco de Minhoca

LARA
 poeta, cronista, contista e recitador

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Editores:

 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cícero Belmar