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Novamente a vida
por Lara

 

Vocês não imaginam o tamanho do prazer que eu senti ao ler o livro “A literatura em perigo”, de Tveztan Todorov. Ele é um lingüista búlgaro, radicado na França desde 1963. Está atualmente com 70 anos. Produziu vastíssima obra na área de pesquisa linguística e teoria literária. Aderiu inicialmente à visão formalista e estruturalista na literatura, mas hoje é um crítico lúcido das limitações desse tipo de abordagem.

O referido livro expõe a trajetória pessoal do autor e os principais argumentos usados por Tveztan nessa virada metodológica que ele assume atualmente: “os estruturalistas e formalistas ainda são maioria hoje”. Essa abordagem corresponderia a “uma concepção estreita da literatura, que a desliga do mundo no qual ela vive, e impôs-se no ensino, na crítica e mesmo em muitos escritores. O leitor, por sua vez, procura nos livros o que possa dar sentido à sua existência. E é ele quem tem razão.”

Veja bem, raríssimo leitor: quem está afirmando isso é um pós-doutor, e não um poetinha autodidata. SACA?

Vamos em frente.

Os dois prefaciadores também expõem suas visões da questão: “as teorias literárias estão embriagadas consigo próprias” (Jorge Coli), ou seja: a própria literatura foi substituída por uma engenhosidade analítica autofágica, através de um pensamento astucioso, auto-suficiente e absoluto. O outro prefaciador (Caio Meira) afirma: “a imanência estruturalista, quando se pretende exclusiva, afasta a obra literária de toda relação possível com o mundo, o real, a vida” (grifos meus), ou seja: o texto como algo à parte do mundo. E ainda: “É preciso restabelecer o equilíbrio entre as contribuições do formalismo-estuturalismo e as conexões do texto literário com o mundo real e com a vida contemporânea, e que isso tenha reflexo na formação de professores e alunos de literatura” (negritos meus). Agora é o próprio Tveztan: “Em nenhum caso o estudo dos meios de análise pode substituir o sentido da obra, que é o seu fim.. As inovações analíticas trazidas pela abordagem estrutural são bem-vindas, mas com a condição de manter sua função de instrumento, em lugar de se tornarem seu objetivo próprio.”

Reconheçamos, raríssimo leitor: É BRONCA. E É BRONCA PESADA.

E então o livro segue, com o autor narrando detalhes de sua trajetória pessoal como professor, lingüista e crítico literário (no início ele foi estruturalista-formalista), e combinando esses detalhes com a argumentação em defesa da sua atual “virada metodológica”, objetivando combater as referidas limitações da abordagem formalista-tecnicista na literatura (que prioriza apenas o estilo, a composição, a forma, a técnica, a estética, a gramática); ou ainda: “questionar o projeto existencial que consiste em colocar a vida à serviço do belo (pois este caracteriza-se pelo fato de não conduzir a nada que esteja para além de si mesmo), e fazer com que os textos literários ajudem a descobrir dimensões incógnitas do mundo, usando ferramentas pluridisciplinares e os mais variados métodos”. Em outras palavras: “libertar a literatura do espartilho asfixiante em que está presa”. Lembrei-me agora de uma frase do Adler: “Os melhores psicólogos são os pecadores arrependidos” (itálico meu).

Bom, simpatias e coincidências minhas à parte, é melhor mesmo que eu priorize as palavras do próprio Tveztan, afinal é dele que estamos falando, e é ele o pós-doutor (eu sou apenas o poetinha autodidata e semi-louco). Vamos em frente outra vez. Vou continuar citando, sem grilos.

Na página 27, ele defende que os estudos literários conduzam “à reflexão sobre a condição humana, sobre o indivíduo e a sociedade, o amor e o ódio, a alegria e o desespero”, pois “na escola não aprendemos acerca do que falam as obras, mas sim do que falam os críticos”. Na página 32, ele diz que há uma hegemonia de “espíritos maniqueístas”, e que “não somos obrigados a escolher entre a velha escola e o modernismo radical”, mas podemos manter o que há de bom no passado e no mundo contemporâneo. E mais: “as obras existem sempre dentro e em diálogo com um contexto”. Ou: “A abordagem interna (estudo das relações dos elementos da obra entre si) deve completar a abordagem externa (estudo do contexto histórico, ideológico, estético). O objetivo último, porém, deve permanecer a compreensão do sentido das obras, das forças sociais, políticas, étnicas e psíquicas.”

É guerra. O negócio é sério.

Continuemos: “A concepção redutora de literatura não se manifesta apenas nas salas de aula ou nos cursos universitários; ela também está representada de forma abundante entre jornalistas que resenham livros, e mesmo entre os próprios escritores. A tese segundo a qual a literatura não mantém ligação significativa com o mundo, e que, por conseguinte, sua apreciação não deve levar em conta o que ela nos diz sobre o mundo, não é nem uma invenção dos professores de Letras nem uma contribuição original dos estruturalistas. Essa tese tem uma história longa e complexa”. O próprio Baudelaire recusava-se a considerar a poesia como um caminho para o conhecimento do mundo. E dizia: “A poesia não tem senão a si mesma. Os modos de demonstração da Verdade são outros e estão em outro lugar. As canções não têm nada a fazer com a Verdade.”

Essa concepção autofágica de literatura implicaria em alguma variante de “arte pela arte”. Quer dizer: obedeceria apenas às suas próprias leis, fugindo de toda e qualquer relação entre a obra e a vida. E isto seria “uma concepção absurdamente reduzida do fenômeno literário”. Ao contrário disso, Tveztan enfatiza e reforça uma posição bem diferente: “As verdades desagradáveis têm mais chances de ganhar voz numa obra literária do que numa obra filosófica ou científica”. E: “A questão terminológica não me parece ser de suma importância, assim como a contribuição específica do discurso literário relativamente ao discurso abstrato”. Então: “O que devemos fazer para desdobrar o sentido de uma obra e revelar o pensamento do artista? Todos os métodos são bons, desde que continuem a ser meios, em vez de se tornarem fins em si mesmos. Todas as perspectivas ou abordagens são complementares. O escritor é aquele que observa e compreende. O papel do crítico é o de converter o sentido e o pensamento para a linguagem comum de seu tempo. Devemos entender a literatura em sentido amplo. Os textos hoje tidos como não-literários têm muito a nos ensinar. Assim, os estudos literários encontrariam o seu lugar no coração das Humanidades, e o ensino literário não serviria mais unicamente à reprodução dos professores de Letras.”

São palavras “terríveis”, estas que acabo de reproduzir, raríssimo leitor. Mas a vida também tem os seus aspectos terríveis; e, ao invés de fugir, devemos desvelar, encarar, decifrar, transcender, gerenciar. Não é mesmo?

(junho 2009)

Coluna Buraco de Minhoca

LARA
  poeta, cronista, contista e recitador

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Editores:

 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cícero Belmar