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A Galiléia de Ronaldo
por Lara

 

Li o romance “Galiléia”, do escritor cearense Ronaldo Correia de Brito (vencedor do último Prêmio São Paulo de Literatura). Confesso que não esperava tamanha ousadia. Antes de ler alguma sinopse na WEB, pensei: “Esse cara não tem coragem para ultrapassar determinados limites do cânone ocidental ou do velho regionalismo. E certamente é mais um desses pessimistazinhos que bandeiam-se capciosamente para a direita. Mesmo assim, vou ler. Pode ter alguma coisa interessante”.

O Prêmio São Paulo é atualmente o maior do Brasil (R$ 200.000,00): e o autor concorreu com escritores de peso, como José Saramago e Moacir Scliar. Além do que o romance consumiu oito anos de muito trabalho.

Não agüentei a curiosidade e fui ler alguns comentários na WEB. Todos enfatizavam uma mudança na abordagem da temática sertaneja, uma fuga da “estereotipia” regional, um outro sertão, quase “pós-moderno”, prenhe de influências cosmopolitas e globalizadas, bem diferente do sertão “pasteurizado” de regionalistas anacrônicos (um sertão que obviamente não existe mais). Comprei o livro e li em três dias.

O narrador (Adonias), após completar cinco anos, não mais retorna ao sertão cearense dos Inhamuns, e sua mãe passa a residir definitivamente no Recife, onde casa-se, sem jamais voltar às terras de sua infância. Todos os membros da família desejam fugir do sertão desertificado (os lajedos queimam as solas dos pés). Poucos ficaram. Adonias descreve uma viagem de volta à ultradecadente fazenda Galiléia, do seu avô Raimundo Caetano, após décadas sem aparecer por lá, junto com dois primos (Ismael e Davi). O avô está gravemente enfermo, à beira da morte. Suas carnes apodrecem irremediavelmente. Adonias é médico e sente culpa por não ter chegado antes da situação do avô deteriorar-se irreversivelmente. É um médico estressado, pessimista (gosta de citar Cioran), neurótico, viciado em ansiolíticos, bissexual enrustido, e que está sempre reclamando do preço das sessões do seu psicanalista (seus parentes machos consideram-no um frouxo). Ismael, caboclo de índia kanela, bastardo, tem o corpo cheio de tatuagens, e é discriminado pelo resto da família. Sobrevive como plantador e traficante de maconha no Maranhão, depois de morar na Noruega, e de lá ser expulso por agressão à esposa. É ele o dono da caminhoneta importada que os três primos dirigem, alternando-se no volante. Davi, loiro, é paparicado pelos parentes, mas é um pianista quase sempre desempregado, e sobrevive como michê entre Paris, Nova Iorque e São Paulo (ele esconde da família esse fato).

A família Rego Castro esteve sempre metida em intrigas, disputas pessoais, mentiras, perversões, incestos, assassinatos, corrupção, taras, bastardos, guerrinhas intestinas, etc. O narrador insinua possíveis dívidas cármicas (erros do passado) como explicação para a decadência atual na terra dos avós, apesar de ele mesmo admitir que possui uma cabeça “lógica demais”. E também insinua semelhanças com histórias bíblicas, além da maioria dos personagens possuírem nomes bíblicos (há referências a maldições familiares do Antigo Testamento). Mas o cristianismo de sua parentela é um “catolicismo pagão”. Adotados e bastardos não são registrados como filhos. Seu tio Natan, macho valentão, pai de Ismael e Davi, odeia o filho bastardo (mas não sabe que Davi é michê). Um outro tio, Domísio, mata a esposa num acesso de ciúme paranóico. Depois enlouquece e fica isolado num quarto de uma das casas da fazenda. Tobias abandona e amaldiçoa a família por discordar de uma partilha de rebanhos. Raquel, a esposa do avô Raimundo, enfurecida com os casos extra-conjugais do marido, separa-se fisicamente dele, e passam a dormir em camas separadas. Enfim, são muitos os “podres” da família. Em torno de alguns, campeia um indisfarçável voto de silêncio entre seus membros.

Durante a viagem, os três primos presenciam inúmeros detalhes das mudanças atuais nos sertões. Ismael gosta de bandas inglesas. Davi, de música clássica. Adonias diz que o repertório popular interiorano é constituído, em sua quase totalidade, por uma “música horrível”. Numa certa altura, param para almoçar num barzinho de beira de estrada, com forró estilizado ao vivo: o vocalista usa uma roupa preta brilhante (colada no corpo), cabelos pintados e fixados com gel, argolas na orelha esquerda e piercing no nariz. (Os três primos conversam com alguns jovens, que lhes confessam ter uma certa vergonha de usar roupas de couro). O lixo não-degradável e os esgotos correm a céu aberto. A prostituição infantil aborda-os por todos os lados. Duas mulheres tangem o gado numa motocicleta. Os garotos da lan house sonham possuir os celulares mais caros. Adonias refere-se à herança regionalista como “talibã sertanejo”, “passado mítico irrecuperável”, “particularidade sem importância”. E reclama das mulheres que, segundo ele, permitiram que o avô e outros patriarcas exercessem um controle tirânico nas terras dos Inhamuns. Somente o tio Salomão insiste nessa história de folclore e heráldica sertanejos (mas possui computador e impressora no seu quarto). Ele é um autodidata solitário que coleciona livros e reportagens sobre regionalismo, mas ninguém da família leva-o a sério, e todos o vêem como um lunático inofensivo.

O estilo de Ronaldo é “contemporâneo”, porém sóbrio, bem costurado sem ser “gongórico”, alternando passagens coloquiais e “clássicas”, incluindo eventualmente alguns termos chulos (peido, punheta, porra, foda, merda). São raríssimas as pequenas derrapagens na costura sintática, o que confirma-o como um dos melhores escritores da atualidade brasileira, tanto no estilo quanto no conteúdo. Há momentos de realismo fantástico, como aquele em que o protagonista conversa com a alma de sua tia Donana, ou um outro onde acontece a “ressurreição” de Ismael, mas evidencia-se um esforço do narrador para desvelar a realidade concreta em geral.

O livro encerra-se com a viagem de volta, após o falecimento do avô. Adonias é levado para o aeroporto de Fortaleza pelo motorista do seu primo Elias (outro filho de Natan). Elias é atualmente um empresário bem-sucedido (possui um helicóptero). Porém no caminho, ao pararem numa das cidadezinhas do interior cearense, durante os festejos da festa profana-e-religiosa de São Gonçalo, são cercados por uma “gangue” de motocicletas, em meio a uma multidão caótica de devotos. Os dois saem do carro. Na confusão, o motorista e Adonias perdem-se um do outro. Alguém rouba o celular de Adonias. E o escritor encerra o romance com o protagonista perdendo o horário do vôo para Recife, sem conseguir avistar o motorista e sem entender o que está acontecendo. Perdido em meio a uma estrambólica manifestação “folclórica” e religiosa, o protagonista parece estar sendo vítima de uma “vingança” do inconsciente coletivo sertanejo e de uma realidade campestre que ele já não mais reconhece, nem entende, nem respeita. Nessa altura, o escritor nada mais diz a respeito do destino final de Adonias, e “descaradamente” encerra o livro, como se quisesse, deliberadamente, que os leitores especulem, por si mesmos, qual o final mais provável para o romance. O futuro a “Deus” pertence?

(abril 2010)

Coluna Buraco de Minhoca

LARA
é poeta, cronista, contista e recitador

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Editores:

 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cícero Belmar