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Fetiche do pó
por Lara

 

O título desta crônica era uma das três opções para intitular um antigo poema meu, cujo corpo demorei a finalizar: as outras duas opções eram “Cunho terreno” e “Premonição”. Finalmente decidi-me por esta última, após cortar algumas passagens que, a meu ver, estavam mal costuradas e um tanto deslocadas do enfoque geral do poema. Queria eu, com o referido trecho posteriormente cortado, enfatizar a importância e a urgência da doação de órgãos, criticando o apego à carne morta de familiares falecidos, um apego tão comum e tão difícil de superar entre o tão festivo povo tupiniquim.

Bom, após os últimos ajustes e cortes no corpo do referido poema, ele ficou assim:

PREMONIÇÃO

Morrerás ainda jovem
(sem grilos:
são muitos os que morrem cedo,
tanto bons quanto maus).
Ficarás com os olhos arregalados
e fixos,
a boca aberta
sugerindo profundezas abissais.
Beatas cantarão ladainhas
no teu velório.
No último segundo de vida
(uma eternidade)
verás claramente
todos os teus erros
e dívidas.
E também mentalmente verás,
pela última vez,
o roxo das flores dos jambeiros
no chão
das úmidas e frias manhãs
num final de inverno
sombrio.

Ficou assim então o poeminha após as últimas modificações. Quanto à crítica à dificuldade para a doação de órgãos no Brasil, especificamente, decidi fazê-la nesta crônica.

A primeira coisa a enfatizar é a velha e incurável dicotomia entre vida e morte. Talvez seja por isso que a Tanatologia avançou tão pouco. Existe algo mais natural e corriqueiro que a morte? Mas o problema é que o ego humano não aceita ser apenas uma “fagulha do nada”, nem consegue ver a importância do fenômeno da morte para a diversidade genética e a seleção natural. E então empurra o problema com a barriga e joga a “sujeira” pra debaixo dos tapetes da limitação perceptiva. Sem falar no apego, também egóico e genético, aos restos mortais de familiares (e aí cegamente não vêem que aquela carne podre, após a morte, não passa de um punhado de pó e nada? não vêem que a ânsia obsessiva de imortalidade e de separar-se do Todo é uma mácula para a “teia cósmica”?). E tudo isso enquanto milhões de pessoas, que precisam urgentemente de um transplante, sofrem indefinidamente à espera de um rim, ou um fígado, ou um coração, etc, etc. Vou parodiar o Francesco: “IRMÃ MORTE”.

Quando eu morrer, por favor, façam uma cremação rápida, e joguem as cinzas em qualquer foco virgem da Mata Atlântica. E qualquer órgão meu que, por acaso, servir para qualquer transplante, podem retirá-lo e fazer uma doação também rápida, mesmo que eu desencarne através de suicídio (não estou planejando isso; mas, se for realmente necessário, eu faço: os escorpiões também se suicidam, mas nem por isso a Teia Cósmica demoniza-os, uma vez que se “nutre” de bipolaridades e multipolaridades: vida e morte são uma coisa só; são duas faces de uma mesma moeda: nunca é demais repetir).

Sempre achei os cemitérios desnecessários, mas nem por isso estou pregando a cremação como uma lei intransigente. Quem quiser fazer seus jazigos de ouro e diamante, que faça, fique à vontade. “Quem é de gosto, arregala o peito” - já dizia minha avó Dona Velha Gico (rogo a “Deus” que tenha recebido a sua alma com misericórdia). Faz uns anos que eu não visito o jazigo dela, mas ela sabe que o meu coração é bom, e não vai levar a sério uma besteira dessas.

Após a morte, a carne já não mais importa (será pó, lama, nada). A “alma” sim: esta sobrevive, e não só prestará contas de seus erros (mesmo com toda a misericórdia da “teia”), mas também precisará evoluir espiritualmente, tendo em vista as próximas reencarnações. Farei um jazigo bem bonito para os meus pais, embora continue convicto de que o melhor seria uma cremação. O que eu gostaria mesmo era de bater um papo com a alma dos dois, após a morte. Aí sim. Pra fazer algumas perguntinhas sobre o “pós-morte”. Mas, depois do desencarne, confesso que a carne dos dois já não irá interessar-me (se eu não morrer antes).

Apesar da doação de órgãos ter involuído para um enorme tabu no Brasil, alimento a esperança de que, pelo menos a médio prazo, esse horrível tabu seja atenuado até certo ponto, e no futuro não faltem órgãos para os transplantes das urgências familiares do meu Brasilzinho da Gôta Serena.

PRA MIM CHEGA!

FUI.

Eu, Hein?

(junho 2010)

Coluna Buraco de Minhoca

LARA
  poeta, cronista, contista e recitador

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Editores:

 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cícero Belmar