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por Lara Entre as percepções mais lúcidas que a maturidade me trouxe, duas delas são: 1) As mudanças pessoais e as transformações sociais são mais importantes que a vingança individual e familiar. 2) A transformação social, no Brasil, acontecerá por etapas, e retrocessos não podem ser descartados a priori. Apesar das simpatias que sinto pelo PSOL, as minhas quase cinco décadas de vida levaram-me para uma visão de mundo menos dicotômica. O poeta não é, a priori, melhor ou pior que o militar. O que existe é uma enorme relatividade perpassando tudo. Pode ser e pode não ser. Com mágoas e rancores à parte, é preciso perceber algumas verdades “básicas”, mas que as mentes mais dicotômicas e precipitadas têm dificuldade para reconhecer: a) Todos temos defeitos específicos. A burguesia, os militares e os políticos têm os seus. Mas o povo, a esquerda e os artistas também têm os seus. b) Guerra é guerra, tenho dito. “Bateu, levou” – como dizia o Plínio Marcos. Se eu entrar no campo de batalha com uma espada de um metro e meio, eu não vou querer que o meu inimigo jogue flores em mim, ora. c) Perdão é pra todos, ou não é perdão, salvo raríssimas exceções. Pra todos aqueles que pegaram em armas e mataram, da direita ou da esquerda. O melhor é esquecer tudo mesmo. Até porque os militares continuam fortes, e a insistência em puní-los pode trazer o risco de um novo derramamento de sangue num momento inoportuno. Quanto ao levantamento histórico, pode ser feito sem o objetivo de punições futuras. No caso específico daqueles que fizeram resistência DEMOCRÁTICA ao golpe, e foram assassinados ou sofreram sérios prejuízos pessoais, pode-se pensar em alguma forma de compensação. d) O presidencialismo é o regime escolhido pela maioria do povo brasileiro. E este regime, no modelo tupiniquim, deixa “brechas” para decretos e, por tabela, para algumas decisões por fora do judiciário (disso eu discordo, embora admita essa possibilidade em alguns casos raros). e) Uma dosagem de “censura”, no sentido de selecionar conteúdo, é natural, faz parte. Liberdade total é sofisma (sob a condição humana). Problemas acontecem quando essa dosagem de “censura” ultrapassa determinados limites e durações, ou é exercida especificamente sobre determinadas áreas fundamentais para a evolução social e cultural. Eu não fecharia emissoras, nem “censuraria” programas. Criaria outras transmissoras, outras redes, para ganhar os corações e mentes. Mas é verdade que a mídia de nosso país padece de excessos horríveis. Esses caras (os midiáticos), na sua ampla maioria, defendem posições do capitalismo na maior cara-de-pau, como se estivessem sendo os mais neutros e científicos possíveis, seja do capitalismo neo-liberal ou de centro-direita ou algum “selvagem” qualquer. É um cinismo impressionante. E há mesmo alguns “monopólios” no campo da comunicação, principalmente de certos grupos e famílias poderosos. O Brasil é um dos poucos países do mundo que ainda não fizeram reforma agrária, e o latifúndio improdutivo campeia aqui, sem falar nos que são produtivos mas implantam relações trabalhistas de “semi-escravidão”, degradam o meio ambiente e sonegam impostos. No caso da Igreja Católica, e dos fundamentalistas bíblicos em geral, tá na hora desse pessoal tornar-se menos medievalesco. Os tempos são outros, e o povo não é tão imbecil assim quanto eles pensam. Em 1981, pouco tempo após iniciar a minha militância de esquerda, tentaram matar-me: jogando um caminhão em mim, na alta madrugada. Mas, no nível de loucura e radicalismo excessivo em que eu estava naquele momento, eu também poderia ter matado alguém. Enfim: nem tanto ao mar e nem tanto à terra. Bom, há outros detalhes e “lingüiças”, mas não vou abordá-los aqui. Se querem mudar o nome de alguns lugares, que mudem. Ou não mudem. Não faz muita diferença. Há coisas mais importantes com que se preocupar. E eu já falei demais. Pra mim chega. FUI!!! (fevereiro 2010) Coluna Buraco de Minhoca LARA poeta, cronista, contista e recitador
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