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Xamãs e Canibais ( I )
por Lara

 

Ninguém vai acreditar, mas eu tenho um amigo burguês. Chama-se Magão, e mora em São Miguel dos Campos (AL). Sua família vem de uma parte da aristocracia agrestina alagoana que negociava, a granel, com rapadura, mel e cana-de-cabeça. Fui seu colega de turma no Curso de Agronomia da UFRPE, o qual abandonei para tornar-me "artista sem lenço e sem documento", lá pelos idos de 1986. Ele enricou vendendo defensivos naturais (controle biológico à base de fungos) para médios proprietários semi-esclarecidos da zona da mata de Alagoas e adjacências. É um cara de bom coração, o dinheiro realmente não faz a cabeça dele.

Eu sempre desejei visitar o lugar onde os caetés mataram e comeram o bispo Sardinha. E esse meu amigo burguês tem uma casa de praia (entre várias) justamente em Barra de São Miguel. Fui.

O plano era passar três dias de férias nessa mítica cidadezinha do interior alagoano (de 24 a 27/06/06), e realizar o velho sonho de sentir as energias do estrambólico local. No sábado, às 07:30, comecei refestelando-me com a geladeira burguesa do meu amigo alagoano, tomei umas quatro ou cinco doses de uísque (do bom) e fui.

Eu estava abstêmio há bastante tempo, mas dessa vez eu trouxe um finório (do bom), guardado especialmente para essa ocasião. O inesperado é que havia algo estranho e pesado no ar daquele sábado. Na verdade essa sensação de peso começou na sexta à noite, após anotar uns comentários kafkianos sobre um poetinha lá de Olinda. Tive pesadelos à noite e não dormi bem. Mesmo assim fui. Escondi o fininho no celular e fui, mesmo com todo aquele clima sombrio.

Em meados do século XVI (não lembro o ano), o bispo Sardinha, em meio a uma viagem para Salvador, viu-se na condição de náufrago quando o navio em que viajava bateu em arrecifes e começou a afundar. O bispo então saltou do navio, agarrado a uma imagem de Santa Ana (posteriormente foi construída uma pequena igreja no local, a qual foi consagrada à Sant'Ana). Quando o religioso chegou à praia, foi então alvejado pelos caetés que já acompanhavam o desenrolar do "causo", a partir de um "observatório" localizado numa das várias serras que rodeiam o local. Desceram, subiram com o corpo e fizeram o festim antropofágico numa parte mediana de uma daquelas serras (não decorei o nome antigo do local).

Saí de casa sem fumar, pois queria passar por essa experiência canabinólica lá em cima na dita serra. Começou a cair uma chuva fina, e eu estava com uma certa apreensão quando iniciei a caminhada, pensando nos tutanos do bispo, fervorosamente devorados pelos caetés, quando uma intuição me disse para não ficar assim tão unilateralmente simpático aos índios e tão unilateralmente zombeteiro com o "pólo negativo de Ladabaoth". Afinal, toda e qualquer criatura humana tem qualidades e também defeitos. Ninguém escapa quando o assunto é o veículo humano. Nem Ladabaoth escapa (tou repetindo, eu sei, eu sei).

Levei uma hora e meia para chegar ao local (o pé da serra). Resolvi descansar um pouco, antes de iniciar a subida. Quando descansava, apareceram uns adolescentes da periferia da Barra; todos marronzinhos; pareciam pequenos cafuzos descendentes dos vários ramos tupis. Perguntei a um deles sobre a história do Bispo. Ele pouco ou nada sabia. Aliás, também perguntei a algumas pessoas durante o caminho, mas ninguém sabia maiores informações sobre o "causo" (a lojinha de informações turísticas estava fechada: o funcionário havia sofrido um acidente em Maceió recentemente). Apontaram-me o local da igreja abandonada, e foi só o que souberam me informar.

Subi, e rapidamente alcancei a igrejinha em ruínas. Temendo a presença de imprevistos intrusos, subi mais um pouco para fumar o meu fino em paz. A vista lá de cima é simplesmente fan-tás-ti-ca. Várias lagoas entrecruzadas são avistadas lá de cima, tendo ao fundo um mar limpíssimo, onde águas verdes alternam-se e misturam-se com águas azuis, em meio a pequenos rios que desaguam no local. Um dos lugares mais belos do planeta, sem sombra de dúvida. Fumei o finório calmamente, sentindo o efeito chegar aos poucos, enquanto admirava, extasiado, a infinita beleza do lugar. Quem realmente pegou o filé do litoral alagoano e pernambucano foram os caetés. Eles realmente lambuzaram-se com o melhor do melhor, sem poluição de espécie alguma ou de quantidade alguma. Que inveja!

Na metade do fino, eu já estava de cabeça feita; dei mais dois tragos pequenos e dispensei a bagana, pois uma outra intuição sombria pediu-me para sair limpo daquele local. Maus pressentimentos. Um casal de carcarás, junto com alguns urubus, circulavam a serra e me observavam de perto. Interpretei aquilo como um sinal de mau agouro, e resolvi descer logo. Na descida, tive a nítida sensação de que alguns espíritos malignos me rodeavam ("talvez seja apenas alucinação provocada pela maconha" - pensei). Mas não era, quer dizer, ao ir descendo tive a certeza de que aquelas entidades estavam mesmo querendo aprontar alguma "boa" comigo. Quem seriam? Espíritos desencarnados de padres fanáticos e tirânicos querendo exercer vinganças sobre o meu gnosticismo zombeteiro? Ou guerreiros tupinambás de outrora desconfiados da minha pele branca? Fiz uma oração pra Xangô, e desci.

Próximo ao fim da serra, senti que o fumo tinha mesmo batido além de certo limite. Fiquei doido demais. Não sei se devido ao longo tempo sem fumar, ou talvez o "material" tivesse alguma especificidade genética fuderosa... o fato é que fiquei muito "bandeira" (sem falar na tatuagem no braço, anéis coloridos, pulseiras, colares e outra pequena tatuagem no meio da testa)... e desconfio seriamente que todo mundo tava percebendo aquela minha situação psíquica "degringolada" (inclusive esqueci o colírio).

Logo ao finalizar a descida, saquei os olhares desconfiados do povo em geral. Acho que eles estavam pensando: "Quem é esse coroa maluco? Que bobeira!" Percebi também, rapidamente (e o fumo aguça essas percepções), que os resquícios de "caretice interiorana" ainda eram fortes naquele pessoal. E pra complicar ainda mais, estávamos na baixa estação, e os turistas "maluquinhos" não estavam dando o ar de sua graça. Quer dizer, eu estava isolado mesmo. Comecei a ficar nervoso, mas o pior ainda estava para acontecer: os "home" cismaram comigo. Um camburão me cercou (nessa hora tive a nítida impressão de ouvir gargalhadas do Bispo). Pediram os documentos. (Será que eles estavam pensando que eu sou traficante?). Mostrei os documentos (tudo em cima). Um jovem samango, de farda bem engomada, disse, com um olhar meio cínico: "Olha só, o doido é funcionário público e escritor" - ele olhava o crachá do trabalho e a carteirinha da União Brasileira de Escritores (Seção Pernambuco).

Comecei a "torar aquele aço". Um outro mais velho disse: "Acho melhor a gente não aprontar com esse coroa. Afinal, o doido é branco e, apesar de doido, pode ter parentes burgueses, ou até militares, ou mesmo alguns deputados da esquerda pra agitar em cima da gente". O mais jovem disse: "Mas ele tem cento e vinte reais na carteira. Bem que a gente poderia fazer um rapa com ele" - eu estava também com o celular e o relógio. Minha sorte foi ter deixado a baga na serra. Deram uma geral e não encontraram nada de drogas ou qualquer coisa que me incriminasse. E o mais velho deles (beirava os 55 anos) falou outra vez: "Deixem esse doido em paz. Não quero nenhuma possibilidade de complicação futura pra cima de mim."

Escapei dessa, "fedendo", e saí caminhando, com uma enorme tremedeira nas pernas, à procura dos barzinhos à beira-mar. Perguntei a algumas figuras, ao ir caminhando, mas tudo que obtive foram indicações evasivas (parece que todo mundo tava com medo de mim). Continuei procurando os "barzinhos à beira-mar". Não os encontrei. Entrei numa ruazinha estreita, na esperança de encontrar alguma saída para os "barzinhos". Aí já era a periferia outra vez. No final da rua, cruzei com alguns papudinhos, e uns maconheirinhos muito jovens (quase adolescentes). Um deles olhou pra mim e rapidamente percebeu a "irmandade canabinólica". Perguntou: "Tem uma baga aí, tio?" Não tinha, é claro (que pena; se tivesse, faria uma "média" com eles).

Perguntei pra eles se sabiam onde poderia encontrar um barzinho à beira-mar. Eles me deram uma indicação. Mas, por essa indicação, eu teria que atravessar um riacho pra depois chegar ao referido ponto. Até aí, tudo bem, só que, na travessia do riacho, pisei numa pedra, desequilibrei-me e caí na água; molhei tudo, inclusive o dinheiro (eu estava de bermuda e chinelas havaianas). Mesmo assim, atravessei o riacho e segui em frente. Passei por umas mansões da burguesia alagoana (que extraordinárias mansões: piscinas, altos luxos: mulheres as mais belas e formosas; e altos cachorros grandes latiam ensurdecedoramente pra mim com suas cabeças acima dos muros; pareciam leões). Fiquei com medo. Fiz, mentalmente, mais uma oração: dessa vez pra San Ernesto de la Higuera; pedi proteção e pensei nos pobres conformados e baba-ovos das altas esferas alagoanas (das piores do país). Segui em frente.

Acho que as orações surtiram efeito. O primeiro barzinho que encontrei ficava às margens de um local paradisíaco (mais um): outras pequenas lagoas margeavam-no; e mais pequenos riachos; algumas falésias também espalhavam-se por aquela área; lindo, lindo. Botei o dinheiro molhado pra secar em cima de uma mesa, pedi uma cerveja com casquinhos de siri, e relaxei (eu mereço, minha Mãe, eu sei que mereço). O garçom me olhou de soslaio, mas, ao ver o dinheiro, relaxou também (claro que eu não contei a estória toda pra ele).

Tomei umas três ou quatro cervejas ali. Ao sair, o dono do bar indicou-me, direitinho, o caminho de volta para a casa-de-praia do meu amigo burguês (Condomínio Estrela-do-Mar), e eu voltei tranqüilo depois de alguns mergulhos nas águas salgadas da Barra de São Miguel. Na trajetória de volta, ainda notei alguns olhares desconfiados pra cima de mim. Acho que aqueles ricaços e aqueles populares "caretas" pensavam: "O que é que esse pobretão maluco tá fazendo aqui? Doido, aqui, nesse tempo, só se for alguém de classe média, e olhe lá!" (Lembrei-me da praia de Pipa, no RGN, e Porto de Galinhas, em PE, com seus climas ostensivamente pequeno-burgueses; mas isso é outro papo, e agora não é hora de ficar destilando ódio de classes ou qualquer outro ódio.).

E o meu amigo Magão, apesar de burguês, tem um coração bom, e eu encontrei a geladeira daquele condomínio recheada de uísque (escocês) e comidas da melhor qualidade. Enchi a cara com aquela bebida divina (o tira-gosto era queijo-do-reino), e fiquei escrevendo a coluna anterior (do mês de junho) até mais de meia-noite. Depois dormi como um anjinho (eu mereço, minha Mãe, eu sei que mereço; pelo menos de vez em quando).

(agosto 2006)

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LARA
  poeta, cronista, contista e recitador

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Editores:

 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cícero Belmar