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Etapismo não é reformismo
por Lara

 

Quando a relação de forças concreta é desfavorável, por "n" motivos, nada nos resta senão negociar pequenos avanços circunstanciais com os diversos atores sociais, objetivando costurar um "bloco hegemônico" contextual, acumular novas forças e tentar, no futuro, maiores avanços até onde for possível em um novo contexto; e assim sucessivamente. Esta é, portanto, uma estratégia etapista, ou seja, é preciso combinar a luta por pequenos ganhos com a luta maior (paulatina) por transformações mais profundas e mais amplas num futuro possível. Claro que existe o risco, numa determinada etapa, de uma parte do povo viciar-se em "esmolas", ou afundar no comodismo; mas em tudo que fazemos, corremos riscos, não há como evitá-los. Inclusive, nessa trajetória, retrocessos não podem ser descartados a priori. Tudo dependerá de como se comportará a correlação de forças concreta em cada momento.

O radicalismo excessivo, dogmático, tem rejeitado unilateralmente qualquer referência estratégica ao etapismo. É a política do tudo ou nada, que geralmente leva mais ao nada do que ao tudo, além de isolar o radicalismo imediatista e a ortodoxia ideológica (não conseguem aglutinar, crescer). E aí os pequenos ganhos circunstanciais vão pra cucuia (a classe média não precisa dessas "esmolas", mas o povo precisa, para evitar uma piora no quadro geral das coisas em cada contexto). Então pergunto: quem está nessa postura por ingenuidade e quem está nessa postura por esperteza? Gostaria muito de saber, de ter certeza, caso a caso.

Atualmente, no Brasil, não vejo condições de articular uma frente classista em torno de um programa "mínimo" quase-socialista, como está propondo o PSTU, até porque isso já não é um programa mínimo, mas um esquema de perspectiva socialista propriamente dito. Quero dizer: essa frente, esse bloco, deveria ser articulado em torno de um esquema democrático-popular (um pouco mais para a esquerda), mas não exatamente algo já quase-socialista. A meu ver, hoje, a melhor referência para esse tipo de programa mínimo seria o Welfare State Escandinavo (como referência apenas, e não como fórmula pronta a ser transferida para o Brasil). Quero dizer: precisamos avançar para alguma espécie de Welfare State Tupiniquim, enquanto etapa. Quanto tempo "isso" duraria, eu não sei, não tenho bola de cristal. O caminho se faz caminhando. Não sou adivinho. Sei apenas que não será fácil chegar até aí, ou seja, vai ter que haver também pressões e "lutas", além de negociações.

Existem alguns fatores que fazem com que a relação de forças seja desfavorável, ou dificulte negociações com diferente agentes sociais, e que geralmente não são abordados pela esquerda brasileira, ou são insuficientemente abordados. Vou citar três:

1) As limitações epistêmicas da ortodoxia marxista, uma vez que o marxismo constitue-se numa visão de mundo calcada no cientificismo do século XIX, o que implica em insuficiência epistemológica para a abordagem de questões como o ambientalismo, o feminismo, a espiritualidade, determinados aspectos da existência e da cultura, etc. Essa limitação/insuficiência dificulta o diálogo e a negociação com setores do mundo alternativo/contracultural que poderiam ser atraídos para a junção de forças dentro de uma estratégia etapista de transformação social. A meu ver, no século XXI, deveríamos elaborar uma nova proposta de socialismo, que assimilasse os acertos do marxismo, mas, ao mesmo tempo encontrasse maneiras de "neutralizar" as falhas e limitações da ortodoxia marxista.

2) Os defeitos de boa parte do povo, principalmente no que se refere à teia de clientelismo, assistencialismo e compadrio; teia na qual a maioria do povo brasileiro está atolada até o pescoço (conformismo, covardia e cumplicidade sub-reptícia em troca de pequenas vantagens para cada um e para a família de cada um). Este fato gravíssimo não é abordado pela esquerda (nem pela sociologia acadêmica). Os motivos para evitar essa abordagem são vários: medo de perder votos, prostituição intelectual, insuficiência perceptiva, etc. Bom, o fato é o seguinte: esse fenômeno precisa ser encarado e investigado quando fazemos avaliação de conjuntura ou pesquisa social. Eu acredito que o crescimento de Lula nas pesquisas de opinião deve-se principalmente ao fato de que o campo majoritário petista tem exercido essa "teia" com bastante esperteza, ou seja, boa parte do povo continua cooptado, por um motivo ou por outro, por opção sub-reptícia ou comodismo ou cegueira (cada caso é um caso).

3) A enorme dificuldade para a maioria da classe média aliar-se aos setores de esquerda dos movimentos sociais. E aqui o excesso de radicalismo (doença infantil do esquerdismo) mais uma vez dificulta os acordos e alianças pontuais/contextuais com sub-setores da pequeno-burguesia progressista e das alas esquerdas de partidos que, hoje, fazem oposição ao governo lulista, como PPS, PDT, PV, etc, mas que não possuem um corte ideológico claramente à esquerda, embora possam ser "aglutinados" numa proposta democrático-popular de novo tipo, etapista. Incluo aqui também personalidades e sub-setores da ala esquerda do PT que, eventualmente, possam ser "ganhos" para essa concepção. Tudo isso, inclusive, também faz com que os "esforços" para que a ala esquerda do PT cresça em influência dentro deste partido seja um fator a mais dentro de toda essa luta para conseguir avanços graduais nessa estratégia etapista, uma vez que parece estar cada vez mais claro que o campo majoritário petista já optou pela estagnação em torno de um esquema de centro-direita disfarçado de centro-esquerda, caudatário do monetarismo neo-liberal capitaneado pela agiotagem internacional.

E aqui entra a questão de com quem negociar, de com quem fazer alianças, contextuais ou não. Questão difícil, complexa, a meu ver. Uma frente classista formada exclusivamente pelo PSOL, PCB e PSTU, a meu ver, não teria condições de aglutinar o bastante para ampliar e formar um "novo bloco hegemônico" que incluísse diversos atores sociais de diferentes orientações ideológicas e culturais, o que seria necessário para a formação de um campo político amplo o bastante para costurar um bloco capaz de atrair uma razoável porcentagem do povo brasileiro, que fosse "forte" e "amplo" o bastante para conseguir "impor" um esquema democrático-popular semelhante ao Welfare State Escandinavo nas suas formulações sócio-econômico-ideológicas, enquanto etapa. Aqui também é preciso ter muito cuidado ao "mapear" os setores que poderiam estar realmente comprometidos com esse referido esquema.

A questão do objetivo maior, ou seja, o socialismo propriamente dito, evidentemente, ficaria em suspenso, circunstancialmente, para que fosse possível a costura em torno de uma proposta do tipo democrático-popular, verdadeiramente de centro-esquerda, "semelhante" ao Welfare State Escandinavo (sem a monarquia, é óbvio). A partir daí, dentro dessa etapa, as diferentes concepções estratégicas para atingir o socialismo (propriamente dito) passarão a disputar a hegemonia com os diferentes atores e movimentos sociais; e então, na prática, veremos quem é mesmo etapista e quem é mesmo reformista, ou seja, quem tem intenção de avançar, no futuro, e quem tem intenção de estagnar em alguma espécie de reformismo limitado (veja bem: etapismo não é reformismo).

Eu, pessoalmente, estou convicto de que se acontecesse, agora, uma ditadura trotskista ou luxemburguista no Brasil, esse trambolho rapidamente degeneraria para algo semelhante ao maoísmo chinês, uma vez que, com certeza, a cooptação, a corrupção, o egoísmo, a pulsão de poder excessiva, etc, endêmicos no meio social brasileiro, seriam "canalizados" para a burocracia ditatorial/totalitária que certamente se instalaria inevitavelmente. Portanto, o possível, nessa circunstância, seria passarmos por uma etapa verdadeiramente democrático-popular para que, gradualmente, trabalhássemos aspectos políticos, jurídicos, culturais, éticos, espirituais, existenciais, etc, fortalecendo-nos, para futuramente tentarmos avanços mais substanciais.

(maio 2006)

 

Coluna Buraco de Minhoca

LARA
  poeta, cronista, contista e recitador

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Editores:

 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cida Pedrosa