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Ésio Rafael

 

a verdadeira literatura dos nordestinos,
que já falam metrificado, cantando,
como de resto, dramáticos por natureza

 

Eu e Sennor Ramos nos dirigimos, no mês de março, para a casa do poeta e estudioso da poesia popular Ésio Rafael com o intuito de gravar a entrevista que o jornalista e escritor Homero Fonseca, o poeta e cineasta Wilson Freire e o poeta e crítico literário Astier Basílio, realizariam com Ésio. Fugindo ao padrão da INTERPOÉTICA (entrevistas por e-mail) aceitamos fazer uma entrevista diferente onde os entrevistadores e o entrevistado participariam de uma roda de conversa que seria gravada, posteriormente editada e revisada pelo entrevistado. Foi uma farra. Iniciamos a entrevista com a presença dos acima nominados e lá pelas tantas contamos com a presença do poeta Jorge Filó, da especialista em cultura popular Maria Alice Amorim e do poeta Pedro Américo de Farias. A entrevista se transformou em um bate-papo para lá de interessante, perguntas para lá de competentes e respostas para lá de esclarecedoras. Na verdade respostas que são o testemunho de um poeta que viveu os últimos 30 anos metido nas veredas da cultura popular. Homem que desfrutou da amizade dos melhores cantadores e poetas, que conviveu na sua casa com os grandes Louro do Pajeú, Jô Patriota e Manoel Filó, que até hoje é uma das grandes referências nordestinas no estudo e divulgação desta arte. Ésio é um cabra muito bom de conversa e freqüentar a sua casa é uma experiência ímpar. Por lá sempre tem um poeta de passagem ou de pernoite. Uma mistura de poesia de tradição e de blues, de óculos escuros e macaxeira com charque. Melhor que isso só o charuto cubano que fumamos juntos no dia da entrevista. Presente do Jorge Filó. A Poesia agradece.

Cida Pedrosa

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HOMERO: Ésio, poderia falar da sua trajetória como pesquisador da poesia popular nordestina? Como começou tudo?

Inicialmente com Manuel Galego, meu pai. Ele gostava muito da poesia popular, especialmente a do poder da palavra, do poeta repentista. A partir daí, me deparei teoricamente com nomes como Antonio Marinho, Lourival Batista... Ainda pequeno viajando com ele em algumas incursões pelas cidades que ele trabalhava, desbravando as estradas de barro do interior do Estado. Escutava as conversas dele com seus colegas. Fui gostando porque ele foi primeiro quem me apresentou o verso de viola, ao declamar os violeiros famosos da época. Depois, veio o meu tio José Venâncio, irmão de Alzira, minha mãe, que entoava canções de meu futuro interesse, além de improvisar sextilhas, a linguagem poética, e de comunicação dos nossos violeiros. Ele assistia as cantorias, acompanhado de seu pai. Nomes como o de Ivanildo Vila Nova, ainda criança, com seu pai, José Faustino, um repentista intelectualizado, para o seu tempo. Ele realmente era o mais informado dos violeiros, como Ivanildo Vila Nova também seguiu as pegadas do pai. Ivanildo é um divisor de águas, foi ele quem dignificou mesmo a cantoria, o cachê, disciplinou o horário...

HOMERO: E a primeira vez que você viu ao vivo um desafio, quem foi e qual impressão lhe deixou?

Eu comecei muito antes, porque uma coisa é muito ligada à outra, por exemplo, a literatura de cordel, que é um termo, particularmente inadequado, porque o nome é folheto de feira mesmo. Eu via as pessoas lendo, cantando aqueles romances antes do violeiro e aquilo me chamava a atenção antes do próprio repentista, mas eu já gostava desse tipo de expressão, desse tipo de comunicação de massa, justo que, o folheto se constituía em um componente da feira do matuto. Em Sertânia, tomando como referência minha cidade, depois da feira o matuto ia embora pra casa no final da tarde, e na rua, parava em um boteco para beber um vinho, ou uma dose de cachaça, queimada com "jurubeba", escanchado em um animal seu confidente. Conduzindo um folheto pra ler em casa junto à família, no jantar, sob a luz de um candeeiro. Muita gente foi alfabetizada porque o pai lia os folhetos de feira. Então indiretamente eu já gostava desta expressão, oral, e escrita, depois é que comecei a ver um violeiro aqui, outro acolá, mas sem ter a noção do que seria. Como eu sou do Moxotó que é considerado a porta do Pajeú, assim como Arcoverde é considerada a porta do Sertão. Aí mais uma vez com meu pai falando em Antonio Marinho, comecei a ver os poetas que estavam iniciando que não tinham fama nenhuma, esse pessoal foi quem começou a despertar minha atenção. Raimundo Patriota, o Branquinho, que é o filho de Lourival Batista, me iniciou nessa vida de conhecer os violeiros, a cozinha dos violeiros, os bastidores dos violeiros, as fofocas dos violeiros. E aí, o grande prazer de ter viajado pra São José do Egito, e lá ter conhecido Lourival Batista que foi logo um choque, porque você conhecer uma fera dessas, hospedado na sua própria casa. Comecei a me apaixonar porque quando ele dizia um verso, uma sextilha, que na época eu não sabia o que significava, uma sete linhas, um decassílabo, aquilo ali me deixava completamente eufórico com vontade de gritar, de pular, porque eu sabia que tinha um conteúdo, que tinha uma coisa ali dentro daquelas pessoas que estavam ali cantando para o mundo inteiro. Mas eu comecei a ouvir em primeiro grau, as histórias fantásticas dos folhetos. Depois algum cantador avulso, cantando decorado, mas aquilo foi me fascinado e me despertando o interesse, até começar a dar uma estudada em cima do assunto, graças ao incentivo e a orientação do "Branquinho".

WILSON: Ésio, não sei quantos anos depois, você recebe o título de Cidadão de São José do Egito. Como é isso pra você, o significado?

Rapaz, isso depende de vários fatores. Receber um título de Cidadão Honorário de uma cidade deixa muito a desejar. Principalmente, os títulos de conotação política. O meu caso foi diferente. Tenho a Alma dos cantadores, como assim falou Rogaciano Leite. Dediquei-me ao estudo da cultura popular, principalmente, no que concerne o verso de improviso, o poder da palavra. Sem paternalismo, a verdadeira literatura dos nordestinos, que já falam metrificado, cantando, como de resto, dramáticos por natureza. Escrevi a vida inteira sobre esses poetas da palavra, na "bucha", ainda escrevo. Dez anos está fazendo que escrevo para o jornal: A Província, de Goiana, Zona da Mata Norte do Estado. Trouxe para cá os traços culturais da região sertaneja, todavia, sem aquela visão do sertão exótico. O Pajeú é fonte inesgotável. Vá lá pra ver, que quando ninguém é nada, é sobrinho de Augusto dos Anjos. Na noite em que recebi o título, na Câmara de Vereadores, fomos comemorar no meio da rua e o repente "comeu no cento". O que significa? Tudo. Em Recife, na revista Pirata, de circulação nacional, editada pela chamada, Geração 65 de Poetas Pernambucanos, tava lá, pela primeira vez na história, três textos de minha autoria, com perfis biográficos, e versos de três estrelas da cantoria: Lourival Batista, Jó Patriota e Ivanildo Vila Nova. Com um detalhe que justifica o registro: João Cabral, Maximiano Campos, Celina de Holanda, César Leal, Gilberto Freyre e Lucila Nogueira compuseram o conteúdo da edição da revista. Só pra citar o fato de terem aberto espaço para três poetas do povo. Então, sou cidadão de São José do Egito, com muita honra, e significa um ponto forte de minha existência. Sabe o que é você receber tamanha homenagem, lá dentro da fonte?...

HOMERO: Sobre essa transformação do Sertão hoje, como isso tá se refletindo na poesia popular? Por que a poesia popular em grande parte ela se refere ao Sertão mítico, que é esse Sertão antigo, o outro se torna mito, e hoje é esse o outro Sertão que a gente vê num filme, por exemplo, como O Céu de Suely e Árido Movie mostra esse outro Sertão. E na poesia popular?

Eis aí um assunto interminável desde quando os nossos homens de visão resolveram, implementar um ritmo brasileiro na nossa literatura, independente de região. No desdobramento da "Semana de Arte de 22", surgiram no nordeste, nomes como Jorge Amado, José Lins do Rego, José Américo, Graciliano, Rachael de Queiroz. Essas personalidades formaram um arcabouço que ainda hoje perdura no que concerne os nossos traços culturais. Os estudiosos subseqüentes vêem o sertão da maneira que ele se apresenta na atualidade. Logo, alguns desses trabalhos, hoje clássicos, estão obsoletos, o que é muito natural. A Bagaceira, Menino de Engenho, Fogo Morto, O Quinze são marcos referenciais, representam uma época. O Céu de Suely e Árido Movie, emplacam um sertão atual. Eu digo, que dentre o brilho da lâmina da enxada do sertanejo e da vegetação rasteira, há outro brilho, o dos fuzis AR-15, na região do polígono da maconha. São as estrelas emergentes conhecidas dos "Meninos do Sertão". O crack tá mudando a feição do sertanejo, e isso é por demais preocupante. Tem sertanejo dormindo com animais dentro de casa, dentro do banheiro de sua casa no sítio, porque o curral não é mais de confiança. O bandido aparece sorrateiramente de madrugada, e limpa o curral, na cara triste do dono. Sabe o que significa isso? O vaqueiro trocou o cavalo pela moto. Até aí tudo bem. Acontece que um vaqueiro não vai fazer a feira numa moto, encourado. Aí desaparece a indumentária, consequentemente, o registro musical, poético, e por aí vai... mexendo no lado cultural das pessoas. Evidentemente, que o fazer poético dentro desse contexto muda. Muda de assunto, e muda de feição. Porque as coisas são assim e tendem a mudar mesmo, não adianta. Esse negócio de identidade cultural, já perdeu o sentido, já dançou, esse negócio de conservar as raízes, isso é a maior besteira do mundo. As coisas mudam porque têm de mudar. Agora claro, assim como existem as transformações, existem os traumas, existem as perdas, por exemplo, num pé-de-parede, onde a dupla de repentista senta aqui agora e vai começar a cantar pra gente, é completamente diferente de cantar num congresso ou em um restaurante, porque ali eles são artistas, ali é um espetáculo, mas aqui não, primeiro ele tá sabendo que o cara que está escutando é um ouvinte de cantoria, "então cuidado!" Eles vêem isso e é melhor pra eles. Hoje em dia lá no Bar Paulo, que é um local que a gente vai, pra tirar um sarrozinho, porque a gente não vê mesmo coisa boa. Lá ainda aparecem umas duplas boas de repentistas. Os meninos lá ainda cantam direitinho, mas dentro do que está ocorrendo, atendendo ao mercado, como a geração Ivanildo Vila Nova, como os Nonatos. Mas sem preconceito, por exemplo, o cantador assiste o Jornal da Globo pra poder azeitar os seus versos. Então ele vai falar sobre Hugo Chaves, porque eles são bem informados, são inteligentes, têm um poder de captar, mas não mergulham pra tirar a lama do porão. Então hoje você vê um programa, assiste uma novela ou repórter na televisão e no mesmo dia vai cantar num congresso. Fica aquela coisa dominada, mesmo que indiretamente, e o violeiro está se tornando o repórter, ele tá dizendo aquilo que a mídia já sabe, estão sendo utilizados. Agora é normal, nada contra porque a vida é assim mesmo. Nunca mais você viu um verso que independente do seu nível de consciência intelectual ou qualquer coisa que o valha, vai ficar dentro de sua vida. Por exemplo, uma das coisas mais bonitas que eu acho que nós estamos perdendo é pegar o fato no ar. Um dia Manoel Xudu, que foi um dos mais completos dos repentistas, cantava com um companheiro em uma fazenda, passava das 17:00h, quando uma galinha com uma ninhada de pintos, cruzaram as suas pernas no terreiro da fazenda. O assunto era "tristeza". Xudu observou que no meio da ninhada estava um peruzinho "enjeitado". O poeta pegou o fato no ar e disse:

TRISTEZA É A DO PERUZINHO
BELISCANDO ESSA MANIVA
CORRENDO ATRÁS DA GALINHA
A SUA MÃE ADOTIVA
COMO QUEM ESTÁ DIZENDO
AH SE MAMÃE FOSSE VIVA

Como João Paraibano disse assim:

DAS COISAS QUE MAIS PRECISO
DEUS ME DEU TRÊS EU ACEITO
O CHÃO PARA OS MEUS PÉS
A VIOLA PRESA AO PEITO
E UM CASTELO DE SONHOS
PRA RUIR DEPOIS DE FEITO

ASTIER: Ésio, você que tem acompanhado o desenvolvimento da cantoria nessas últimas décadas, você sabe que cada geração contribui para a reformatação de um negócio que é complexo, que a cantoria sempre se reformata nos mesmos moldes desde os anos 50. Eu tô fazendo aqui uma categorização arbitrária, você tinha a figura do cantador de rádio, que tinha os feudos, os locais que ele demarcava e ali ele mandava, era o pé-de-parede quem dominava, mas tinha aquela localização do rádio e esse sistema foi substituído, essa elite, porque o pessoal do rádio era elite, sempre houve elite e margem nos cantadores e praticamente no começo dos anos 70 você tem um outro tipo de elite, uma outra reformatação que é o festival de violeiros, que já deu uma remodelação, já estabeleceu uma outra margem, que é cantador de congresso e o que não é de congresso. E hoje em dia a gente já está partindo pra uma terceira etapa, que é a geração pós-Nonatos, que são os festivais, shows em que as folhas não são sorteadas e os cantadores cantam decorados. Eu queria que você fizesse uma avaliação disso, porque é uma opinião minha e eu não tenho nada disso, como o cantador sempre canta para o público dele, ele tem uma visão que poucos artistas têm de atender ao público dele e que hoje em dia o espaço da canção, da musicalidade, até dos pés-de-parede, porque se você for para um pé-de-parede e não levar um cara que faça canção, o pé-de-parede míngua. O que você acha da evolução desses elementos musicais, que têm uma pobreza lastimável como elaboração musical? Eu não temo o festival decorado não, temo esse elemento musical cada vez mais entrando, cantadores fazendo discos de canções, as canções sendo modificadas. Como você avalia esse panorama todo nessa trajetória de evolução que a cantoria sempre teve?

Muito pertinente e muito procedente a pergunta. É o seguinte: vamos começar pelo contexto atual, em todos os sentidos, na música, principalmente sendo ou não verso de improviso, a música em si. Existe uma grande interferência brutal e criminosa da mídia, dos jabás da vida que está perturbando demais, começando logo pela música em si que depois penetra na questão da viola. Isso aí ta sendo um crime, talvez irreparável, a gente tem muita raiva de dizer assim: o cara hoje escuta uma música dizendo "eu soltei uma bomba no cabaré e foi rapariga pra todo lado", isso é uma loucura, é lamentável. Agora todo mundo escuta e compra é uma avalanche de dinheiro e de interesses que rolam nesse negócio todo. Evidentemente que uma avalanche dessa é um rolo compressor que sai atingindo e chegando às margens de outras manifestações artísticas e por que não o cantador repentista, quer queira quer não, apesar de hoje ainda ser conservador, isso é inegável. Até os Nonatos são conservadores, mas isso é um rolo compressor. Por exemplo, eu estou dando uma assistência ao projeto Brasil Alfabetizado como assessor pedagógico, estou viajando pelos sertões. Fui até Ipubi e Trindade, eu como sertanejo, não as conhecia, cheguei lá e vi acontecer do mesmo jeito que na praia de Serrambi, o "filhinho de papai" levanta a mala do carro arbitrariamente, coloca uma música num alto volume, agredindo todo mundo, tirando a sua liberdade, você tá num barzinho com uma pessoa bebendo e esses caras chegam com uma música imbecil, idiota, deprimente, ameaçadora e você não diz nada porque senão apanha ou pode até morrer. Isso vai daqui do litoral até Exu, Trindade, Ipubi. Considero isso uma coisa não pra gente ter raiva e sair querendo esgotar o mar com uma espoleta sem fundo, sabe por quê? Porque isso já se configura como um problema de saúde pública. Esse tipo de intervenção em relação à música está entrando nas outras áreas e os violeiros estão escrevendo porcaria mais do que as duplas sertanejas; você escuta uma canção de um violeiro é de fazer vergonha, violeiro nasceu pro improviso. Pelo menos é o que ocorre até agora. A ambição, a pressa em ganhar dinheiro, mexe as vezes com a qualidade profissional das pessoas. Não adianta você apenas protestar, mas eu quero saber é o que nós vamos fazer, porque eu sou da geração de 70, onde tínhamos uma ditadura braba, onde em geral não se podia nem conversar em grupo, o que estamos conversando aqui, nem dentro de casa e se fossem ali fora quatro pessoas os "home" já chegavam mandando dispersar, quando não chegavam agredindo, batendo, a gente sem liberdade nenhuma, mas, nós sabíamos quem era Sartre, Gabeira, Miguel Arraes de Alencar, Carlos Prestes, Dom Helder Câmara, você já sabia quem era Tom Jobim, Chico Buarque de Holanda. Éramos felizes e não sabíamos, porque apesar de toda a ditadura militar o que nós todos sofremos direta ou indiretamente, mas a gente gostava de uma boa música, porque a gente procurava uma boa música. Hoje você vê os caras pintadas. O que é feito dos Grêmios Estudantis? Lá se escutava uma boa música, lia-se um bom livro, batia-se um bom papo, discutia-se cinema, teatro, tudo você discutia. Isso com as botas de lado, e o som das esporas. Hoje a gente não vê isso, esses caras com esses aparatos na mão, sabe o que é que isso me faz lembrar? O Afonso Romano de Sant’Anna, que deu uma entrevista aqui em Recife a convite do Governo do Estado, especificamente a Secretaria de Educação, eu estava lá nesta palestra e ele disse um negócio interessante: "nós vivemos hoje dentro de uma parafernália tecnológica, de avanços tecnológicos, a gente entra no Louvre de dentro do banheiro, do quarto da casa da gente, então nós temos uma assistência tão incrível, mas eu nunca vi um povo tão desinformado, isso é a cultura da síntese!". A gente era metido a intelectual, metido a esquerda e isso foi muito bom, hoje você vê como foi bom, você pensava que não sabia de nada, mas tinha noção da sua região, das coisas da sua cidade, do seu Pais.

ASTIER: ...uma relação de subserviência muito grande com o saber já legitimado, eles acabam incorporando um sistema já sedimentado, a riqueza dele ele não valoriza, ele pisa em cima, vai fazer um sonetinho com aquelas palavras colhidas num dicionário, que é incorporar esses valores retóricos, esses valores elementares de poder da cultura escrita.

Existe uma coisa interessante entre as academias e os violeiros, que são considerados "pobrezinhos, que não sabem de nada e o que sabem foi Deus quem deu etc". Na verdade existe uma submissão por parte do poeta popular, ele tem raiva do acadêmico, porque sabe que ele é um poeta, que tem os sentimentos, que pode dizer coisas mesmo sem saber explicar dentro de uma linguagem chamada de erudita, que não sabe o que é, nem de onde vem. Aí em vez de lutarem, eles ficam reclamando: "eu não sei de nada, eu sou um analfabeto, você é que é um doutor..." Os acadêmicos, por sua vez, têm preconceitos, conversam as vezes sobre o que não sabem, e botam a maior banca. Alguns, claro. Os que pensam dessa maneira, não têm o talento, a sabedoria nem as imagens poéticas dos poetas populares, como no caso, dos repentistas, porque pensam que dominam a cultura popular falam com um "rei na barriga" como se estivessem acima, do bem e do mal. O buraco é mais embaixo, essa é que é a realidade. Existe um preconceito dos dois lados, um por submissão e o outro por arrogância.

ASTIER: Se você ver uma entrevista de Lourival há 40 anos, você vai pegar em alguma parte ele dizer que a cantoria está morrendo, e se você ver Câmara Cascudo nos anos 20 ele diz o Sertão não era como era antigamente, o caminhão o transformou, tá lá no prefácio de Vaqueiros e Cantadores. Qual a avaliação que você faz dessa sempre morte da cantoria e desse discurso dos próprios cantadores que a cada geração tem assimilado como morte, se é uma forma de valorizar e de continuar, visão meio mítica de que "vamos ver, vamos valorizar, vamos comprar, vamos nos chamar enquanto eu tô vivo que vai acabar", enquanto a gente sabe que tem cantador na faixa dos 20 anos, tem uma geração nova aí pronta. Qual a sua avaliação sobre a morte da cantoria cantada desde as mais intrínsecas gerações?

Pela mesma razão de todos convivermos com a morte, em qualquer instância, na condição de humanos. Manuel Bandeira morreu de velho pensando que ia morrer todo dia. Quando acontece uma avalanche, um bombardeio de avanços tecnológicos, aí se diz "o violeiro agora vai tomar no cu". Veja o seguinte, quando surgiu o rádio disseram que o violeiro ia dançar, pelo contrário, tem programas de rádio comandados por violeiros no Nordeste inteiro, quando surgiu a televisão disseram "agora o violeiro se lascou". Geraldo Amâncio em Fortaleza, Rogério Menezes em Caruaru, os Nonatos em João Pessoa...

CIDA: E a internet?

A internet é maravilhosa, eu tenho mesmo é preconceito, só sei passar um e-mail e receber outro, mas entendo ser ela maravilha. Eu assistia àqueles filmes de Flash Gordon, o cara tinha um aparelho, sei lá o que era, ele apertava assim e ia pro outro lado da parede, eu dizia: "isso é um filme de rapariga". Que mentira da porra! Que nada! O raio laser, passa pela parede, que para ele é uma cratera. Depois, um homem voar? Nas Olimpíadas, há mais de 15 anos o cara com um motorzinho desse tamanho nas costas desce nas arquibancadas na maior cara de pau. Se Dona Arcanja, minha avó soubesse disso, dizia logo: "Varei-te!". Não duvido de nada, as coisas acontecem assim. Mas existem coisas que se imortalizam por si, independente de época. Por exemplo, Manoel Filó. Vejamos alguns motes do cidadão poeta:

Uma gota de pranto molha o riso
quando o preso recebe a liberdade

Isso é um negócio que você empulha se for um "cantadorzinho da palha da cana", com todo respeito, porque existe isso mesmo. Outro mote ecológico maravilhoso de Manoel Filó:

Chora o cedro na gruta da floresta
escutando o machado a trabalhar

ASTIER: Isso é pro cantador encostar a viola e chorar.

HOMERO: Você falou a questão do acadêmico, mas você próprio se tornou um acadêmico. Conte essa sua experiência na universidade, o que você fez lá e que lição tirou?

Eu fui fazer uma pós, depois de velho, eu achei arretado esse curso de literatura brasileira, muito bom pelo seguinte: dei uma arrumada cronológica naquilo que eu só tinha noção. De fato, eu lia muito salteado, entendia das coisas por influência dos amigos, eu aprendi muito com meus amigos e vou continuar aprendendo até morrer. Cada amigo me ensina uma coisa, isso é maravilhoso. Foi excelente essa visão acadêmica, eu derrubei alguns preconceitos que tinha contra os acadêmicos, porque na realidade eles sabem, são sensíveis, são poetas. Gostei muito de ter feito a Especialização em Literatura Brasileira. Agora, peraí, consolidei outros preconceitos. Conheci gente amarga, "cú doce". Mas... Tudo bem.

HOMERO: Já deixou de virar preconceito, já virou conceito.

Rapaz, isso é tudo uma coisa só, a mesma coisa que você conhece no seu meio, no seu trabalho. Tem os caretas, tem os babacas, tem as pessoas que você gosta, tem o que você acredita, tem o injustiçado. Eu conheci Zuleide Duarte, ela é maravilhosa, adorei Zuleide, Professora que me identifiquei de cara com ela. Ela jogou gente boa na minha mão: - Mia Couto, Cesário Verde, um bocado de gente que eu só tinha uma noção superficial e agradeço demais à Zuleide. Mas foi muito bom esse curso que eu fiz e os acadêmicos são excepcionais porque inclusive grandes clássicos da literatura que você não tinha lido, que sabia, mas não tinha lido, você corre atrás pra ler porque é você lendo e crescendo mais ainda.

CIDA: Como você vê essa coisa da poesia popular hoje em Pernambuco, esse povo novo que tá fazendo um monte de coisa por aí?

Isso faz parte da safra também, tem hora que não chove, aí não aparece ninguém...

CIDA: E você conhece a safra nova?

Tem um pessoal bom, um pessoal esforçado nos seguintes termos: as pessoas inspiradas na poesia popular, por exemplo, navega em duas águas, faz-se poesia popular ainda com os sotaques puristas dos poetas de outras épocas, de outras realidades. Isso é sofrível porque temos hoje outros sotaques. Então corremos o risco de vivermos chamando o passado, preservando a cultura, para que ela não morra. Mas, nós não podemos esquecer-nos da criatividade baseada no presente. Uma coisa é preservar, outra, é tocar o barco pra frente. Cada época tem os seus instantes de mudanças em definitivo. A safra é boa, não há de se negar, mas, "Quem não Viaja, Fica". A vez agora é de Marinho, Greg, Júnior do Bode. Não basta só o talento, esse pessoal precisa ler, pesquisar. Não se é poeta só pelo fato de ter pessoas na família, poeta, ou porque conhece poetas. Não se é poeta porque declama poesia ou elabora um soneto. Então, a safra é boa, mas, é preciso mais fundamento, cumplicidade.

ALICE: Mas não vai acabar não...

Não! Não vai acabar porque a coisa é visceral, tem história. O nosso Estado, é de graça, a nossa cultura alimenta o nosso povo. Pernambuco é privilegiado. É referência em toda a Nação.

JORGE: Essa relação de Ésio com os repentistas surgiu logo no começo da história com a relação com São José do Egito, essa coisa de trazer pra cá os festivais, era justamente na época que tu tava trabalhando com Alberto da Cunha Melo, que era receptivo...

Tanto ele como Jaci Bezerra, que era o Presidente da Fundarpe e Alberto era o Diretor de Assuntos Culturais e era mais ligado em implementar um tipo de manifestação cultural como aconteceu em 86, porque o primeiro congresso de cantadores foi em 48, muita gente diz que foi organizado por Ariano Suassuna, e não foi organizado por Ariano, foi organizado por Rogaciano Leite. Ariano fez uma cantoria, em 47, ele fez uma grande cantoria e essa cantoria deu margem, quer dizer, abriu um leque para que o Rogaciano Leite se interessasse e fosse fazer o congresso em 48 no Teatro de Santa Isabel. Então 39 anos depois no Teatro de Santa Isabel, já na gestão de Miguel Arraes, o Alberto da Cunha Melo era diretor cultural, eu era assessor dele e tive o prazer de ser o organizador geral do congresso.

CIDA: Vocês entraram mesmo de joelhos na casa de Lourival Batista pedindo a bênção ou não?

Não, ali foi o seguinte: nós fomos para São José do Egito, eu, Alberto da Cunha Melo, Valdeck de Garanhuns e Alberto Oliveira. Quando nós chegamos em Sertânia, que é a minha terra, aí eu fiquei lá, pra ir pra São José no outro dia. Antes de passarmos por Sertânia, precisamente em Arcoverde, 17:40h, Alberto Cunha Melo fitou a lua, que se apresentava no formato de uma unha. Então, falou assim: "Êita poeta a lua está só com a bundinha de fora". Então, peguei na "deixa", e falei: A lua quenga safada / Que no cabaré do céu. O artista, Valdeck de Garanhuns, fechou o verso de improviso, respondendo: Se cobre toda de véu / Pra dá o cú intocada... Ao chegar em São José, o pessoal encontrou Lourival Batista, lendo, deitado em uma rede. Foi quando Alberto caiu de joelhos, e foi se arrastando, beijar a mão do mestre.

JORGE: Isso foi no mesmo ano que vocês estavam vindo de um festival em Patos na Paraíba?

Não, ali foi outra história, a gente foi mesmo levar uma placa em homenagem ao mestre que ainda hoje está afixada na parede de sua residência.

ALICE: não é uma pergunta, eu queria que você comentasse a sua opinião em relação àquela velha rixa, aquela briguinha que existe entre viola e cordel, na verdade os cordelistas normalmente, pela minha experiência, sempre admiram muito os violeiros, os cantadores, só que no mundo da viola a gente sabe que muitos violeiros consideram-se mais do que os cordelistas por conta da questão do improviso...

ASTIER: Eu queria dar um depoimento que existe realmente isto no cantador porque de todas as categorias de poetas, que trabalham com a poesia popular, ele é o único profissional do improviso, é o que vive do improviso. Eu tava uma vez em um festival em Patos, eu, Siba Veloso e Ivanildo Vila Nova, tava conversando e falando sobre Zé Galdino, que ele era cantador e era mestre de maracatu, eu vou dizer o que Ivanildo disse, sem colocar um centavo no que ele falou, ele dizendo que Zé Galdino e outros poetas trouxeram para o maracatu alguns elementos de fixação e de ordenamento pro maracatu, e a imagem que Ivanildo trouxe foi a seguinte "é como se fosse um jogador profissional jogando entre amadores", a idéia que ele tem é essa, os cantadores são os profissionais e os outros são amadores.

Antes de responder a pergunta de Alice, eu gostaria de citar só uma outra história aqui que a gente tava falando, faz parte do contexto até agora, eu cheguei pra Chico Pedrosa, que pra mim esse é que é o poeta, Chico Pedrosa é o poeta popular, não é caricatural porra nenhuma, cheguei pro Chico e falei:

- Chico, você viu o depoimento de Caetano veloso, para um jornal?
- Não, o que foi?
- Soubesse não, rapaz?
- Não! O que foi, Grapiúna?
- Caetano Veloso disse: - de perto ninguém é normal. Aí ele olhou pra mim e respondeu:
- Ôxe, Grapiúna, de longe também!

O fato que aconteceu na televisão, no programa de Roger, "Sopa Diária", a dupla Antônio Lisboa e Edmilson Ferreira começou a se apresentar e tava lá eu, eles, Maria Alice e Pedro Américo, na hora da entrevista o Lisboa alertava o cidadão que intermediava a exibição da dupla, para o fato de que eles nada tinham a ver com cordel. Dizendo que queria deixar bem claro para o telespectador que "cantoria de viola não tem nada a ver com cordel, aqui é de improviso"... Eu fui me arretando com isso, embora que não me deixaram falar depois, mas tudo bem... Aí depois eu disse: "não é assim não, a cantoria de viola e o cordel são irmãos siameses". Não tem pra onde correr, tá na cara, os aprendizes de viola saíam pelos sítios exercitando a profissão com folhetos de feira na cabeça pra dizer que era de improviso, todavia, era tudo decorado: a história do pavão misterioso, todo o mundo sabe disso, não só o pavão misterioso, como milhões de folhetos que eles decoravam para cantar para os ouvintes de cantoria. O folheto é tão ligado, até porque a linguagem é a mesma, o estilo é o mesmo, os motivos são os mesmos, os poetas são os mesmos, a cultura é a mesma, então pra que esse preconceito? Veja o seguinte, João Cabral de Melo Neto com Morte e Vida Severina, Glauber Rocha no cinema com Deus e o Diabo na Terra do Sol, todas essas pessoas se utilizaram da rima, do cordel, com a simpatia que se tem pra levantar ainda mais o moral do cordelista, folhetista ou do folheto de feira nesse país. É um grande preconceito, principalmente dos violeiros repentistas que ainda são conservadores. Eu, Astier Basílio, e outras pessoas ligadas à cantoria, não somos bem vistos por alguns cantadores, que não pesquisam, e ainda se dizem pesquisadores, com a maior das arrogâncias. No caso de Astier, a barra é mais pesada, porque ele canta e á filho de cantador, sobrinho de cordelista de verdade. Não é o intelectual que escreve cordel, e ainda o vende, tomando o lugar do profissional que sobrevive com a família vendendo seus produtos literários.

CIDA: Pra fechar pro INTERPOÉTICA, um verso, poeta, um verso não, "O verso":

Então eu vou citar Mocinha da Passira, porque é maravilhosa, enfrentou todo o machismo nordestino, viajando com os mais variados tipos de poetas, dormindo em tudo quanto era pensão. Ela cantava acredito, com Diniz, seu eterno parceiro. O assunto que rolava era, o "amor". Foi quando o seu colega terminou um verso dizendo:

O amor nasceu com Eva
quando beijou seu marido

Aí Mocinha de Passira pegou na deixa e disse:

Amor é vinho servido
Em alva taça pequena
Quem bebe pouco quer mais
Quem bebe mais se envenena
Quem se envenena de amor
Morrendo Deus não condena

E o outro é de João Paraibano, tema da minha monografia, claro que eu tinha que falar de João Paraibano, duas coisas dele lindas, uma foi quando ele disse:

Eu estava no Sertão
Balançando em minha rede
Vendo o açude vazio
Com dois rachões na parede
E as abelhas no velório
Da flor que morreu de sede.

Esse é o velho João Paraibano, e o outro foi sobre a mãe, todos nós somos freudianos:

Me lembro da minha mãe
Dentro do quarto inquieta
Passando o dedo com papa
Nessa boca analfabeta
Sem saber que um dedo rude
Tava criando um poeta.


confira a galeria de fotos da entrevista

 

HOMERO FONSECA é jornalista, escritor e editor da revista Continente Multicultural

WILSON FREIRE é poeta e cineasta

ASTIER BASÍLIO é poeta e crítico literário

JORGE FILÓ é poeta e mantém o blog No pé da parede

MARIA ALICE AMORIM é jornalista e pesquisadora 

 

(maio de 2008)

 

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João Silvério Trevisan

Rita Marize

Marcelo Pereira

Manoel Constantino

Sidney Rocha

Lula Falcão

Adrienne Myrtes

Jussara Salazar

Wellington de Melo

José Mena Abrantes

Alexandre Santos

Urian Agria de Souza

Luci Alcântara

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André Cervinskis

Urariano Mota

Márcia Maia

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Lara

Luiz Berto

Lula Côrtes

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Jaci Bezerra

Vital Corrêa de Araújo

Marco Polo Guimarães

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Maria da Paz Ribeiro Dantas

Marcelo Pereira

Juareiz Correya

Heloisa Arcoverde

Lucila Nogueira

Alberto da Cunha Melo

Raimundo Carrero

Wilson Araújo de Sousa

Pedro Américo de Farias


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Editores:

 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cícero Belmar