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Juareiz Correya
 

Ao reeditarmos a INTERPOÉTICA, neste mês de janeiro de 2007, temos o prazer de jogar na rede a entrevista do poeta e contista de Palmares, Juareiz Correya, concedida ao filho e também poeta, José Terra. Ele é autor do poema “América”, símbolo de resistência na poesia, tem mais de 10 livros publicados, outros tantos no prelo, é diretor editorial da Panamérica Nordestal Editora e cumpre importante papel na articulação de projetos culturais na cidade do Recife. Vale conferir essa entrevista cheia de humanidade, compreensão sobre a arte e, principalmente, desmistificadora do poeta e seu ofício. (os editores) 

 

“Poesia é a palavra
mais humana da existência”

por José Terra

 

O que é Poesia?

Tudo existe para ser Poesia. Todos os poetas têm (ou devem ter) uma definição própria de Poesia. Logo, a Poesia, só no Recife, tem 1 milhão e 600 mil definições. Em Poesia, toda teoria deve ser contestada, como proclamava com a sua ocidental sabedoria o grande Maiakovski : Todo poema já é uma teoria! Eu penso que a Poesia é a palavra mais humana da existência.

Como poeta, considera-se um enviado, um escolhido, um marginal, um maldito?

Escrevo em alguns poemas inevitáveis reflexões sobre o ato de escrever poesia, o fato de ser poeta, tentando, é lógico, em primeiro lugar, responder a mim mesmo o que todos interrogam aos poetas. No poema “Ofício dos Ossos”, publicado no meu livro AMERICANTO AMAR AMÉRICA, de 1982, e que é dedicado a Juareiz Correya, eu me esculhambo, começando o discurso assim : “O que tens, poeta, é bem pouco / ou muito ou nada ou o que seja serve / para tua mitologia, sem sentidos ...” e encerro deste modo : “pelos cacos da ruína que edificas / com essa nudez que surpreende os cães da platéia, / com essa nudez em que estrepas tesa / a confusão de ser.” E elogio o fazer poesia, o ser poeta, no mesmo livro, no poema “Dom Quixote de Cervantes” : “Diante do mundo, ferida tão aberta / me faço poeta e vou espaceando / aonde me esperam presidentes e Ônus sitiadas ...” Mais adiante : “Me faço poeta, astronauta / para jogar sobre os continentes meu sorriso de luta.” E estes são os últimos versos : “Mas eu sou poeta & poetando / enfrento as dores do mundo, os horrores de tudo / sobre nuvens de automóveis & guerreiros fumegantes / & máscaras absurdas & potentes estratégias de propaganda / & o último lançamento da indústria de consumo / na estrada em que eu cavalgo com a minha desesperança / & conduzo meu sonhestandarte.

Sobre essa romântica “marginalidade” que se conhece na arte, é preciso saber que toda Poesia é marginal mas nem todo poeta é. A Poesia é marginal sim : tem poucos leitores, nenhum valor comercial, industrial ou cultural... Em um país continental de mais de 150 milhões de habitantes, como é o Brasil, um poeta é editado nacionalmente com a tiragem de 3 mil exemplares do seu livro. Quem lê esse poeta ? Uma tiragem dessa não cabe nem na capital do Estado onde esse poeta vive ! Que papel cultural tem esse livro, esse poeta, essa poesia?

Hoje, com a democracia que estamos construindo e a liberalidade do nosso tempo - o Século 20 promoveu todas as conquistas e a emancipação da sociedade humana – não há mais lugar para escritor ou artista “maldito”.

Acredita que a Poesia tem uma finalidade, uma função? Ou parece-lhe uma atividade meramente lúdica?

Acredito na Poesia. E isto é tudo.

Um poema é aquilo que cada leitor lê ou aquilo que é?

Um poema é o poeta.

O que pensa da Poesia contemporânea pernambucana e brasileira?

Não concordo com uma boa parte dos poetas pernambucanos que afirma, com orgulho besta, que no Recife (ou Pernambuco) se escreve a melhor poesia do Brasil. Vejo nisso uma falta de informação, de respeito e de correspondência muito grande dos nossos poetas contemporâneos com a Poesia que se escreve hoje em outras cidades e Estados brasileiros. Na verdade, para sermos mais realistas, vivemos ainda ilhados em nossas cidades-guetos e Estados-feudos culturais. O Recife não conhece direito as cidades de Pernambuco e as cidades pernambucanas não conhecem o Recife... Se levarmos em conta que toda cidade é poética e tem poesia e tem poetas, todos nós ainda desconhecemos a Poesia Pernambucana e Nordestina e Brasileira. Lembro o sempre presente Hermilo : “Todos nós estamos escrevendo o conto, o romance, o teatro, a poesia do nosso tempo.” Como falar de uma Poesia Nordestina, no Recife, se desconhecemos o que se escreve hoje em João Pessoa e Maceió ? Como falar de uma Poesia Brasileira, se desconhecemos a obra poética de um Álvaro Alves de Faria, um Eduardo Alves da Costa, um Aristides Klafke, uma Renata Pallottini, uma Dalila Teles Veras de São Paulo?

Que futuro você vê para a Poesia numa sociedade cada vez mais informatizada e midiática?

Em um mundo cada vez mais imediatista e individualista, com pessoas que, egoisticamente, não acentuam ou melhoram, em nada, os valores humanos, toda arte se torna vital para a existência, e a Poesia, sempre bela e essencial em seu sentimento do mundo, se torna cada vez mais necessária. A Poesia, mesmo diante das tentativas estúpidas de se demonstrar a sua inutilidade, provocadas por números, automatismo, alienação, ciências exatas, explosões cibernéticas, emoções computadorizadas, parafernálias midiáticas, solidões humanas, desamor e desumanidade, a Poesia restaura e recoloca, nas mãos dos homens, de forma clara e luminosa, o sentido da sua própria humanidade. É do homem, pelo homem e para o homem que a Poesia existe. E o homem, que está construindo um novo século e o futuro milênio, ainda vive e viverá ! A Poesia escrita nos nossos dias é a prova disto.

 

Joareiz Correya, Cida Pedrosa e José Terra

(janeiro de 2007)

 

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Editores:

 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cida Pedrosa