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Letras em Poesia

 

A palavra vira poesia quando a gente tenta dizer muito com muito pouco, porque, em poesia, não há desperdício. Transformar a palavra comum em poesia é chamar atenção para a beleza pura de cada palavra. Palavras comuns, banais, ganham status poético pela melodia, pelo encadeamento, pela escolha do autor, que brinca com elas... depois de ter aprendido a escutá-las e a olhar bem para as coisas, para as pessoas.

O poeta não é um solitário. Ele está sempre buscando a gente para dialogar com ele... E, mesmo lendo em silêncio, há murmúrios que nos habitam, eco da comunidade de poetas que cada poema inaugura, esconde, revela. Por isso, a poesia fala como se o poeta estivesse ao nosso lado.

Desejo e espero que o Curso de Letras continue nesse caminho, com seus poetas descobrindo a poesia, simplesmente saboreando as palavras nossas de cada dia. Que cada um mastigue e rumine as mais cotidianas, com o gosto que elas trazem à nossa vida, e que, de tanto saboreá-las, possa viver com sabedoria, para poder dizer um dia: “confesso que vivi”.

Padre Pedro Rubens
Reitor - UNICAP

 

CONVERSA PRELIMINAR

Não tem sido fácil para o homem pós-moderno escapar do processo de reificação a que nos submetem as poderosas forças da sociedade de consumo. Muitas vezes, não sabemos como reagir às forças políticas e econômicas que nos massificam e que sobrevivem da mutilação, da falta de imaginação, de criatividade e de vida.

Não tem sido fácil, porque até a palavra nos foi sonegada. Recebemos diariamente centenas de mensagens com denúncias, reportagens, informações filtradas e organizadas de modo a construir em nosso imaginário realidades pré-organizadas com objetivos que nos escapam. Não temos como dizer a nossa palavra. Tentam nos transformar em receptores passivos e sem voz, dos quais se espera apenas obediência a ordens de consumo.

Precisamos encontrar as respostas que nos devolverão a nós mesmos e isso só será possível pela reflexão, pelo exercício de viver mediado pela palavra. E talvez uma resposta possível seja esta: o incentivo ao exercício do dizer, em suas várias dimensões... na conversa amena, na avaliação, na queixa, na produção científica, na oração, na literatura...

É essa a luta que tem empreendido o CTCH e é nessa luta que se engaja a Coordenação do Curso de Letras da Universidade Católica de Pernambuco, quando se disponibiliza para a escuta, quando promove eventos em que prioriza a palavra do jovem pesquisador e quando entrega esta pequena coletânea com a palavra poética dos seus alunos, a palavra lúdica que tem o poder de desarticular estruturas imobilizantes que se cristalizam no tempo.

Quero convidar todos os que fazem o nosso Curso ao exercício do dizer. É nesse exercício que nos organizamos interiormente e compreendemos melhor o mundo em que devemos atuar, observando sempre as três dimensões que nos orientam: anúncio, celebração e serviço.

Haidée Camelo Fonseca
Coordenadora do Curso de Letras - UNICAP

 

 

APRESENTAÇÃO

O mundo se tornou um mercado, verdade que abarca esta: tudo foi transformado em mercadoria. Vivemos a tirania dos objetos industriais. O mais grave, porém, é isto: não é o valor-de-uso, mas, sim, o valor-de-troca que dita os comportamentos do homem contemporâneo. Por aí, em princípio, cria-se, a todo instante, nos indivíduos, uma determinada necessidade de... Após isso, apresenta-se-lhes o objeto que, supostamente, trará a felicidade, porque preencherá a necessidade criada. Há, porém, uma insistente falta. E há, sempre, um desejo estimulado, tendo em vista um objeto projetado. Mas, há um querer impossível de ser satisfeito pela mesa do mercado, por mais abundante que ela seja: o desejo de viver. A razão da grande inquietação que nos aflige, “nuestra gran crisis” [é] a nostalgia de vivir”, como bem expressou o poeta argentino Hubo Mújica. O que é o desejo do viver humano? Consiste, pelo que me parece, no abraçar e ser abraçado; consiste no encontro com a saudade – da infância, dos que partiram e não voltam, do “que podia ter sido e não foi” –; consiste no prazer de ser agradecido e receber gratidão; consiste na sabedoria de controlar a impulsividade. Viver essas experiências leva o ser humano a encontrar-se consigo mesmo. É dessa ausência que sofremos; é disso que sentimos saudade. Sarar essa saudade, preencher essa falta que o banquete do consumo não preenche, somente uma atividade que tivesse ficado fora da tirania das leis de mercado poderia fazê-lo: a poesia.

Se é louvável a iniciativa do Curso de Letras de reunir e publicar a poesia de alguns dos seus alunos, porque abre um espaço para valorizar a sua produção, tal atitude é mais significativa ainda pelo fato de contribuir para chamar a nossa atenção para a grandeza da vida, arrancando-nos do anódino da vida no redemoinho dos objetos, das coisas, e introduzindo-nos, através do reino das palavras, na grandeza da vida. Não é grande a vidase não vivida entre os sentimentos elevados – o amor, a liberdade, o espanto em face da vida. Para tanto, há que se perder, como diz Ciça Buendía,

”Em versos de cerveja..
E goles de Pessoa.”

Parabéns e meu abraço aos (às) jovens poetas.          

 

Janilto Andrade
Professor do Curso de Letras - UNICAP

 

 

Alguns poemas do livro:

 

Opara

Dorme o sol
Que ilumina de Minas a Alagoas
Essa linha da vida
De águas boas
Que mata a nossa sede, comprida como tu,
Que nunca secas e pareces não ter fim
Matas a sede dos que vivem nos teus Baixios
Que choram em outubro o que beberam de ti
Matas a sede dos que vivem
Nos teus Altos e Médios
Que choram entre junho e agosto o que beberam de ti
A retroalimentação te mantém constante
A cada instante
Inteiramente em si
Paracatu, Paraopeba, Carinhanha, Verde Grande,
Abaeté, Urucuia, das Velhas,
Corrente, Grande, Jequitaí

ALBERTO LISBOA NETO

 

 

Folheto

Eu te amo
Como a uma foto
Maravilhosa e inesquecível
Na eternidade do registro.

Te amo assim,
No prazer da primeira pincelada sobre a tela
Nua
Indefesa e nua
Sem furor ou remorso: amor...

Te amo profunda e infinitamente a sós
Porque a mais me bastam as palavras
E porque é tua,
Inteiramente tua, a minha solidão.

Amo tudo em ti
Cada palmo de pele
Cada textura e sabor...

Amo o labor de te amar.

A cor das tuas paredes,
O aconchego, o odor
Amo-te da exaustão à dor
Esse ardor permanente à superfície do ser:
Desejo de arder.

(Abaixo fingir-se um fingidor
Porque acima de tudo
O céu
Assim, sem rima mesmo)

AMOM DE ASSIS

 

 

Realeza

Mendigos poetas me fazem uma honraria indiscreta:
– Quer comer com a gente?
Eles bateram à porta escancarada que é a minha vida.
Mijaram na caqueira,
jogaram uma pedra na tv, 
degustaram o gato e vomitaram feijão. 
Eis que a cama se fez chão, 
os tapetes abacates, 
a fronha sofreguidão 
e as paredes escarlates. 
E começa o banquete:
            –   Passa o cigarro
            –   Acende o pão dormido
            –   Esquenta o travesseiro
            –   Põe cuspe nos pruridos
Saciados de rosas e champanhe, 
quiseram os pratos e os talheres por sobremesa. 
São príncipes e reis de um lugar sem realeza.

BRAZ PEREIRA

 

 

Embriaguez pessoana

Em versos de cerveja
E goles de Pessoa...
No delírio presente...
Vomito as palavras...
Recobro a razão
Ela me diz: eu te odeio!
E volto a ser louco...

CIÇA BUENDÍA

 

 

(IN)feliz natal

Quantos estão nesta hora
privados de peixe e pão!
A ceia da noite é água,
a mesa onde comem é o chão!

Ah! Quantos vivem nas ruas
estendem míseras mãos!
Mas passas com tantas sacolas
que nem lhes dás atenção.

Ah! Quantos choram sozinhos
os pesares de alguém que se foi...
Saudades de amor e carinho,
da vida vivida a dois.

Ah! Quantos queriam estar
no lugar em que estamos!
Ao menos sobreviveria.
“Muito dinheiro no bolso,
Saúde pra dar e vender”...
discurso da maioria.
Casa com muito conforto,
Comida e cama quentinha
Pra fugir do frio lá fora...
Feliz Natal?

CLÁUDIO SANTOS

 

 

Meu canto

Hoje senti solidão.
Não dessas de estar só em meio à multidão.
A fome que senti hoje
não foi do tamanho
daquela que se vê na Etiópia.
Foi fome de animal,
de gula
pela paz.
O corpo lateja
o raciocínio apanha
e a fadiga vence
o mísero ar de coragem que me acompanha.
Eu... 
Onde estou?
Já estive, já fui... já vou

CRISLAYNE

 

 

Estação Solidão

Estou só
Sem sol
Solstício de dor
Minh´alma está nua
Como a lua
Os (de) lírios florescem
O pensamento
Vai... 
E vem...
Devaneios na estação
Solidão!

DAYVSON FABIANO

 

 

Metamorfose

O que me faz buscar o desconhecido?
O que me faz desalinhar o traje
e colocar-me pelo avesso?
É aquela face,
aquela face que em mim não vejo,
mas sei que existe com tal disfarce
que a coragem foge junto a ela.
Onde encontrar aquela força mágica
de disfarçar a palidez e seguir as ruas?
Aquele riso frouxo que sintonizava o tom
que eu dava ao dia
perdeu-se nas grandes avenidas,
em meio a comerciantes atordoados.
Perdeu-se nas complexas mutações,
na travessia da calçada,
na caminhada da passarela,
no ensaio da escola de samba,
no trânsito infernal da segunda-feira.
Sou metamorfose, presa no casulo,
no meio do asfalto, no meio do dia,
esperando o momento do vôo
para sobrevoar em mim,
soltando a velha carcaça
das convenções hipotéticas,
das delinquências genéticas,
das máquinas robóticas.

ECYLA ILEUS

 

 

Soneto à infame

Até mesmo a calúnia é insuficiente 
Para o que tem, no espírito, algo tosco, 
Que translúcido exibe-se, e é tão fosco,
Despeitado, vaidoso e inconveniente!

A sua arma é o deboche traiçoeiro,
Que, em verdade, esconde um medo incrível!
E a sua convicção é fé falível,
Uma vez que o outro é como um nevoeiro...

Sorri (aparentando estar feliz),
Gargalha (parecendo estar contente),
Em seu semblante incerto, algo latente

Que revela uma péssima atriz:
Que troça pra esconder-se, enquanto enseja,
E zomba pra encobrir que sente inveja!

ERONILDO ASSUNÇÃO

 

 

Canção do exílio

Minha terra tem altos coqueiros
Pontes
E cidades banhadas 
de sol e de mar
 
Minha terra tem História 
Representada por monumentos
Com vieses portugueses, afros,
Holandeses, franceses e judaicos
 
É banhada pelo Capibaribe 
E Beberibe
É palco de um cenário secular 
onde atua um povo guerreiro 
 
Não permita Deus que eu morra 
Sem que eu volte para lá
Sem que eu veja o Marco Zero
Onde tudo começou 
 
É ali o meu lugar
Onde ainda hei de ouvir cantar 
um sabiá
na palmeira 
da minha bela Veneza Brasileira

GISELLE GOMES

 

 

Em construção

Pra que falar
se o silêncio diz mais que palavras?
Pra que insistir
se não queres meu mundo ideal?
Pra que te sentir
se quero que sejas intangível?
Então seguiremos assim
como tudo era antes.

RAQUEL CAMPOS

 

 

Recusa

- Já é tarde!
Disse-me o eco.
Recusei segui-lo.
Perdido afinco
de intransigência
involuntária.
- Já é tarde.
Pisei nas pedras

virgens de sua
ressaltada tentativa.

Rosália Cristina

 

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Editores:

 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cícero Belmar