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A camponesa que vestia dior

por Raimundo de Moraes

 

Está bem, está bem: eu cedo e vou te contar uma história como naquela que você me ouviu e adormeceu tranqüilo: Sim?

Assim: era um dia eu.

Nasci de um choque entre não e sim. O que sou hoje são milhões de anos-luz. Eu, que já fui incandescente.


A primeira vez que li Clarice Lispector foi num período de férias escolares. Não foi um livro de contos ou crônicas. Era um livro de português onde tinham inserido um texto dela para análise – Vergonha de viver, se não me engano. O encontro de Clarice e um senhor japonês – que presumidamente tenta lhe ensinar a jogar xadrez, e ela, com vergonha, acaba ganhando do seu “mestre”. Eu estava folheando aquele livro por acaso. E não talvez por acaso estou aqui agora relembrando um fato que ainda não encontrei palavras para defini-lo.

Pouco tempo depois Clarice morre. No auge da popularidade, pois – eu lembro – anunciaram o seu sepultamento em rede nacional no jornal Hoje, da Globo. Um escritor qualquer não entraria na pauta de destaque do Hoje.

Estava sendo iniciada a construção de um grande mito. E depois daquele dezembro de 1977 o mito foi ganhando uma aura de ícone pop.

Isto me deixa um pouco perplexa. Será que estou na moda? E por que as pessoas se queixam de não me entender e agora parecem me entender?

Uma das coisas que me deixam infeliz é essa história de monstro sagrado: os outros me temem à toa, e a gente termina se temendo a si própria. A verdade é que algumas pessoas criaram um mito em torno de mim, o que me atrapalha muito: afasta as pessoas e eu fico sozinha.

A fama de Clarice é uma convergência de vários fatores que insuflou a mídia, críticos, leitores. A sua beleza física deslumbrou um séquito de admiradores; a origem estrangeira era um charme in plus num país eternamente fascinado “pelo que vem de fora”. O que mais? Uma lacuna na literatura brasileira que alguns chamam de “romance psicológico” ou “egótico”. Em 1944 Clarice preenche essa lacuna publicando Perto do Coração Selvagem. Pronto. Casa-se, passa quase vinte anos morando na Europa e Estados Unidos. O “exílio forçado”, mesmo à revelia, tem qualquer coisa de dramaticidade: a ucraniana naturalizada brasileira que vive como andarilha, e com a pesada missão de ser esposa de embaixador.

Todo mundo é inteligente, é bonito, é educado, dá esmolas e lê livros: mas por que não vão para um inferno qualquer?

A complexidade de unir as “três Clarices” – a esposa de embaixador, a mãe de dois filhos e a necessidade de escrever – culminou não só com a sua volta definitiva ao Brasil (1959) mas também a materialização do que antes já tinha sido traçado para si mesma desde Perto do Coração Selvagem:

Ao publicar o livro, eu já programara para mim uma dura vida de escritora, obscura e difícil.

Vida difícil, mulher difícil. Um casamento trocado por uma carreira, por um endereço fixo. A procura de uma identidade.

Com os anos de ausência acumularam-se tantos fatos e pensamentos que não foram transmitidos que sem querer se toma um ar misterioso.

Que mistério tem Clarice? A Clarice de Caetano e Capinam é pequena e morena. Mas como a outra, a loira e alta que escreveu A Maçã no Escuro, ela “fez-se modelo de lendas”.

Que mistério tem Clarice?

Esta pergunta começou a ser feita então a partir da década de 1960 pelos mais próximos, pelos leitores, pelos que procuravam um mito tão belo como Greta Garbo, tão inteligente como Guimarães Rosa, tão enigmático como uma esfinge.

Era a “esfinge” que acordava de madrugada para escrever. Que dava jantares em seu apartamento e depois sumia, entediada. Que organizava viagens para matar saudades da Europa e depois desistia, antecipadamente exausta. Que furava filas de bancos, cinemas, lojas. Para ser imediatamente atendida. Que concedia entrevistas desconcertantes – longos silêncios, respostas contundentes. A esfinge que foi convidada para representar o Brasil num congresso de bruxaria em Bogotá, em 1975. Os louros da “difícil vida de escritora” – além de hermética, acham sua linguagem “enfeitiçada”.

Tem gente que cose por fora. Eu coso por dentro.

Clarice, segundo a própria, tinha pavor (será?) de ser um mito, mas não deixou de atiçar os seus fiéis leitores “enfeitiçados”. As suas fotos registram bem mais que uma beleza eslava.

Vou lhe confessar minha vaidade. Não é literária, não. Não ligo, aliás não gosto de falar em literatura e nem de badalação como escritora. Mas gosto que me achem bonita.

A menina de Tchetchelnik tornou-se a personalidade literária mais multimídia do Brasil. Mais que Jorge Amado, Paulo Coelho, Nelson Rodrigues. Seus livros transformaram-se em fonte de inspiração para milhares de dissertações de mestrado, fenômeno iniciado mesmo antes de sua morte. Sua vida, seu rosto, seus personagens já viraram disco, shows, filmes, documentários, pinturas, exposições. Inspirações. Pessoas batizam suas filhas com o mesmo nome da autora (conheci duas “homenagens” desse tipo). Alguém recentemente afirmou que Clarice Lispector induz “à iluminação”.

Sim. Ela foi iluminada. Ou especialmente “abençoada”, mesmo com tantos problemas pessoais – e quem não os tem?

A bela que fez um poeta americano apaixonar-se e ameaçar de suicidar-se seria este supermito de hoje, caso tivesse nascido brasileiríssima na periferia de alguma cidade? E se tivesse nascido desprovida de encantos e dos seus belos olhos verdes?

Não importa. A literatura brasileira ganhou um colossal patrimônio artístico através dos mistérios de Clarice. Haverá sempre alguém a procurar desvendá-los, a alimentá-los como um fetiche.

Para os que irão continuar a ler, buscar, imitar, entender, adorar Clarice Lispector, adicionem uma frase ao seu panteão. A definição da escritora sobre ela mesma:

Sou uma mulher simples e um pouquinho sofisticada. Misto de camponesa e estrela do céu.

 

*Textos em itálico são transcrições de entrevistas e livros de Clarice.

 

RAIMUNDO DE MORAES é poeta, cronista, jornalista e colunista da INTERPOÉTICA

 

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Editores:

 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cida Pedrosa