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Walmar

 

UM POETA RURBANO

por Josessandro Andrade

 

O lirismo social é uma marca significativa no trabalho de criação de Walmar, quer seja no seu ofício de compositor consagrado, quer seja como poeta, cuja obra já demontrava um amadurecimento expressivo, (infelizmente interrompido pela morte do mesmo) que pode ser comprovado com a leitura do primeiro livro “GONZAGA, FOLE E BAIÃO - PINTO, VIOLA E CANÇÃO”, que evidencia um poeta ainda não completamente familiarizado aos recursos mais exigidos da escrita poética, comparando-se ao ler “CANÇÃO RURBANA”, o seu segundo livro, que revela um poeta de mais densidade estética, com uma imagética rara, mas burilada pela economia verbal.

Desta forma a sua solidariedade aos excluídos não resvala para o panfletário,nem para a apelação passional da caridade, mas com uma leitura crítica da realidade, consegue estabelecer uma profissão de esperança em relação as dores coletivas e individuais, como nesta décima em decassílabos:

“CORAÇÃO DE POETA É TÃO SENSÍVEL,
TÃO SENSÍVEL DE UM JEITO IMENSURÁVEL
QUE CONSEGUE SENTIR O INAUDÍVEL
E BEIJAR COM LEVEZA O INTOCÁVEL
VER UM DEUS EM CADA MISERÁVEL
E CHORAR PELA DOR DE UM OPRIMIDO
MESMO VENDO SEU DONO POR VENCIDO
ELE APOSTA NA ÂNSIA DE VENCER
ETERNIZA A LIÇÃO DO APRENDER
E GARANTE QUE NADA ESTÁ PERDIDO”

Como podemos observar na citação anterior, a obra poética de Walmar Belarmino é caracterizada pela nítida influência da poesia popular dos cantadores de viola, com a qual conviveu na sua infância e adolescência em Sertânia, no sertão do Moxotó e da poesia livresca moderna,com a qual teve intenso contato, já adulto no Recife, através dos poetas da Geração 65 e do Movimento dos Escritores Independentes. Não é à toa, que o seu segundo livro, o que melhor retrata a sua essência poética, tem como título “CANÇÃO RURBANA”, que por si só demonstra esta presença do urbano e do rural, que se interrelacionam no decorrer do seu trabalho. em Sertânia, Walmar freqüentava a casa de Pinto do Monteiro (o maior cantador repentista de todos os tempos), na Rua dos Guararapes, que tinha como outros freqüentadores: Gato Velho, violeiro e cordelista; José Carneiro, poeta e crítico de cinema; Luiz Carlos Monteiro, poeta, mais tarde crítico literário; Djair Freire, cineasta e fotográfo, que fez em super-8 o filme “PINTO DO MONTEIRO”; Gripa de Sertânia, que musicou poemas da “Cascavel do Repente”, entre os quais “AQUI, ALÍ, ACOLÁ”; Wilson Freire, poeta,compositor, teatrólogo e cineasta (cujo segundo livro “UM ESPAÇO DE AUSÊNCIA”, foi prefaciado por Pinto do Monteiro); entre outros... Como se vê era um caldeirão, do qual o nosso poeta em foco bebeu da cachaça e do pirão fazendo uma depuração daquilo que mais lhe agradava e mais lhe serviria. Desta época, temos uma obra-prima dele, que representa bem este período de sua formação:

VIDA, VIOLA E REPENTE 

       A PINTO DO MONTEIRO

COM A FORÇA QUE EU TRAGO NO MEU VERSO 
E O VENENO QUE TEM MEU IMPROVISO
EU TRANSFORMO EM PERFEITO O IMPRECISO
FAÇO O AMOR TRANSBORDAR PELO UNIVERSO
PRÁ CANTAR SOU VELOZ E NÃO TROPEÇO
MINHA ESTRELA É REFLEXO TRANSCENDENTE
O MEU SIGNO É PACÍFICO E COERENTE
SEI DE COR A RECEITA QUE CONSOLA
EU NASCI AGARRADO COM A VIOLA 
E O MEU BERÇO FOI FEITO DE REPENTE

Boêmio por índole, o poeta era andarilho das noites em Recife e Olinda, no Pátio de São Pedro, Recife Antigo, Avenida Guararapes, ladeiras olindenses, cultivou uma visão romântica a respeito de temas como o amor, a saudade, a solidão, conforme nos denuncia esta glosa de sua autoria, sobre um mote dado por João Luiz:

O MEU CÉU SE TORNOU UM VÉU EM BRASA
QUANDO VIM CONHECER A SOLIDÃO
MEU DESTINO PASSOU PRÁ CONTRAMÃO
ME PERDI DENTRO DE MINHA PRÓPRIA CASA
A ANGÚSTIA PODOU AS MINHAS ASAS
VI UM MUNDO DE SONHOS TRITURADO
CONSTRUÍ UM CASTELO IMPROVISADO
MAS ME VI INQUILINO EM PALAFITA
TODA NOITE A SAUDADE ME VISITA
PRÁ MOSTRAR MAIS UM FILME DO PASSADO

No ambiente urbano a poesia de Walmar,que já no aspecto temático ganhara tonalidades do lirismo universal, passa a conviver com outras formas e estilos poéticos diferentes da poesia popular dos cantadores, fruto do seu contato com poetas da Geração 65 como Alberto da Cunha Melo, Marcos Cordeiro (seu conterrâneo), Almir Castro Barros, além dos Independentes tais como Luiz Carlos Monteiro, Wilson Freire (outros conterrâneos), Cida Pedrosa (colega no Curso de Direito) e outros mais.insere-se neste contexto o micropoema que transcrevemos a seguir:

HAI-KAI DO PROLETÁRIO

       - A MAIAKOVSKI -

SIM, SENHOR, SOU BÓIA-FRIA,
MAS, FONTE INEXORÁVEL
DA ETERNA MAIS VALIA?...

A sensibilidade refinada de Walmar faz do mesmo um porta-voz dos órfãos sociais, principalmente das crianças carentes e meninos de rua, como atestaremos ao longo de seu trabalho poético, a exemplo de “ESTATUTO PÉ-NO-CHÃO DA CRIANÇA DE RUA”, “MOLEQUE DE RUA I”, “MOLEQUE DE RUA II” e “SUCO DO GURI”, onde em soneto alia imagem e substância poética:

O GURI DERRAMOU TUDO
CÉU AZUL, SORRISO E SOL
PUREZA, LÁGRIMA, SUOR
E UM SONHO DE VELUDO

PEGOU TODA ESTA MISTURA
ESPALHOU PELA CALÇADA
CONVIDOU A CRIANÇADA
PRÁ DIVIDIR TAL DOÇURA

DEPOIS BRADOU PARA O MUNDO
EIS AQUI NOSSA RECEITA
COM O TEOR MAIS PROFUNDO

NASCIDA DO CORAÇÃO
DE QUEM MORRE E NÃO ACEITA 
TER MISÉRIA EM VEZ DE PÃO.

Os estudiosos dos significados dos nomes, e suas influências na vida das pessoas, têm em Walmar um caso para ser estudado. Apesar de nascido nas caatingas do Sertão do Moxotó, tinha uma relação de verdadeira reverência pelo o mar. Isto se faz perceber no seu poema “VÁ AO MAR”, que faz um interessante jogo sonoro com o seu nome:

“O MEU CORAÇÃO CRIA ASAS MIL
QUANDO ESTOU SÓ A MIRAR O MAR
E ESTE, AO BEIJAR O CÉU COR –DE- ANIL
ADENTRA EM MIM ALGO SINGULAR...”

Por triste coincidência, foi no mar que Walmar terminou sua existência física, justamente quando passava por problemas de ordem pessoal e acabou afogado, sendo encontrado o corpo pela manhã na Praia do Janga, em Paulista/PE.

“...MEU OLHAR RASANTE  RASGANDO OS MARES
É PÉTALA BRILHANTE: TEOR PROFUNDO, 
RAZÃO DE MINHA FORÇA PERANTE OS MALES
ÁS ÁGUAS NAVEGO PRA UM OUTRO MUNDO.”

No velório em Recife muitas personalidades do meio musical e literário foram dar o último adeus ao “guerrilheiro cultural”, conforme denomino-o o Jornal do Commercio. Em Sertânia foi feito um belo enterro onde uma multidão acompanhando-o, prestou lindas homenagens através de faixas, cartazes, flores, canções e poemas dos artistas da terra.

“AÍ EU ME SINTO NASCER DE NOVO,
OLHANDO PARA JANELA QUE DÁ PARA A LUZ...”

 

JOSESSANDRO ANDRADE, natural de Sertânia/PE é poeta popular e professor.

 

 

PREFÁCIO DO PRIMEIRO LIVRO DE WALMAR
“GONZAGA, FOLE E BAIÃO
PINTO, VIOLA E CANÇÃO”

Por Ésio Rafael

Aqui está uma mostra e um exemplo da singularidade do Walmar. É mais uma tarefa do seu fazer artístico: percussão, trompete, violão, contrabaixo, berimbau (seu primeiro instrumento), bateria... formam o lado musical (rítmico, melódico e harmônico) do artista que já tem alguns quilômetros de estrada. E já foi gravado por alguns intérpretes consagrados regionalmente.

Do lado poético-literário já conseguiu alguns prêmios em concursos diversos. Agora, com - Gonzaga Fole e baião/Pinto Viola e Canção, Walmar se utiliza de formas poéticas-populares, como: - mote em sete sílabas, sete linhas que são gêneros típicos dos nossos violeiros.

Já no poema - saudade - ele utiliza a quadra cruzada, criada pelos poetas parnasianos. O curioso é que os versos que formam cada quadra são decassílabos, aliás, em tempos mais remotos a quadra era feita até com 14 sílabas.

Quanto ao tema escolhido, não poderia ser melhor. Dois nomes imortais - Luiz Gonzaga e Pinto do Monteiro. Sem comentário. Claro que Pinto não era conhecido como o velho Luiz que cruzou fronteiras, mas teve participação em dois filmes, foi homenageado em Festival de Cinema, foi paraninfo da turma de formandos em jornalismo, da "Católica", homenageado no Teatro Santa Rosa em João Pessoa.

Não é fácil falar e escrever sobre o Rei do Baião e ainda por cima o Rei dos Cantadores, para usarmos o termo da nossa herança real.

Privilégio do poeta Walmar, que não só conheceu como conviveu com Pinto do Monteiro. Quanto a Luiz Gonzaga, Walmar o carrega no peito, na alma e no coração.

Recife, Julho de 1991

 

ÉSIO RAFAEL é poeta e estudioso de poesia popular.

 

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Editores:

 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cida Pedrosa