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Jó Patriota

 

O Último dos Líricos

Em memória de: Das Neves, esposa de Jó
por Ésio Rafael 

 

Job Patriota de Lima nasceu no Sítio Cacimbas, pertencente a então Vila de Umburanas, hoje Itapetim, Pajeú, no sertão pernambucano. Na época em que Jó nasceu, município de São José do Egito. Em Umburanas nasceram por coincidência, obra do acaso, destino ou predestinados, alguns nomes que imortalizaram e incandesceram toda região do Pajeú: Os irmãos Batista, Louro, Dimas e Otacílio, Rogaciano Leite, poeta- repentista de primeira, grande tribuno, jornalista, compositor, e dentre outras, boêmio. 

Jó Patriota nasceu no primeiro dia de janeiro do ano de 29, encantou-se, no dia 11 de outubro de 92, portanto, aos 63 anos de vida e muita poesia:

Eu nasci em Itapetim
Lugar onde o camponês
Nunca estudou matemática
Nunca aprendeu português
Mas sabe fazer um verso
Que Castro Alves não fez.

Jó, ao morrer, encerrou o ciclo dos chamados: “líricos” (poeta que cantava acompanhado da lira, instrumentos de cordas da Grécia Antiga). Antes dele haviam partido: Domingos Fonseca, do Piauí (Miguel Alves), que em referência à morte dos seus pais, ainda criança, disse de improviso:

Os meus eu não tenho mais
Vivo como um passarinho
Que os pais desapareceram
Deixando implume no ninho
O primeiro vôo da vida
Quando eu dei já foi sozinho.

Elísio Félix, “o canhotinho da Paraíba”:

Esta minha cabeleira
Que com os anos se maltrata
Foi preta como um veludo
Foi branca como cascata
Hoje é um lençol de neve
Numa montanha de prata.

E o próprio Jó:

Passei a crer na bondade
Nos amigos inda creio
Depois que vi dois mendigos
Reparti o pão no meio.

Sem dúvida, Jó era o mais querido dos cantadores. Irrequieto, espírito de criança, ria e chorava, concomitantemente. A sua primeira viagem como cantador, muito jovem, foi com o veterano poeta – José Vicente da Paraíba, vivo, graças a Deus, reside em Altinho, Agreste pernambucano. Com a permissão de Geminiano, pai do “menino”, sob a guarda de José Vicente, a dupla pegou a estrada. Nunca foi mercenário, e não cansava de dizer: “Se eu pudesse, pagava pra cantar”. Durante toda sua vida de cantador, enfrentou nomes famosos como: Pinto do Monteiro, Lourival Batista, Primo e concunhado, Manoel Xudu, Ivanildo Vila Nova e mais uma gama de valores poéticos de enorme poder da palavra.

Com um livro publicado: Na Senda do Lirismo, e reeditado recentemente, Jó aparece em muitos livros no Nordeste brasileiro.

O poeta, político e motista Raimundo Asfora, deu um mote a Jó Patriota, considerado acima do ritmo de percepção – “Frágeis, fragílimas danças / De leves flocos de espumas”:

Na madrugada esquisita
O pescador se aproveita
Vendo a praia como se enfeita
Vendo o mar como se agita
Hora calmo hora se irrita
Como panteras ou pumas
Depois se desfaz em brumas
Por sobre as duras quebranças
Frágeis, fragílimas danças
De leves flocos de espumas.

E por falar em mar, a quadra a seguir, dimensiona muito bem a capacidade poética deste homem incomum. É que somente um poeta da magnitude de Jó teria real condição de colocar o mar em tamanha insignificância, dentro do parâmetro místico do poeta:

O mar que no bojo guarda
Todos os mistérios seus
”Indé” um grão de mostarda
Perante os olhos de Deus.

Cantando com Lourival Batista, momento em que o poeta Marcus Accioly memorizou esta sextilha:

De fato Drummond de Andrade
Belo poema cantou
Um caminho numa pedra
Por onde a infância passou
E uma pedra no caminho
Que o destino colocou.

O poeta argentino de origem – Hector Pellizzi, naturalizado brasileiro, nordestino, segundo ele mesmo, escreveu em memória de Jó:

Nós não tínhamos
A intimidade de parentes
Nem de amigos noturnos 
De fim de madrugada.

Nós éramos dois versos 
Dividindo em duas pátrias:
O pajeú e o pampa,
E dentro
Da tristeza que me espanta
Pela chama da morte que arde,
Se faz sombra teu nome
Na cruz que ilumina a tarde.

 

Mote:
"As ondas são cabeleiras
de sereias defloradas"

Nas mais profundas geleiras
Onde há mares violentos
No pente oculto dos ventos
As ondas são cabeleiras
As brisas madrugadeiras
Quando perpassam geladas
Cujas ondas agitadas
Tornam-se mais pardacentas
Que até parecem placentas
De sereias defloradas

 

 

JÓ PATRIOTA EM RECIFE

Foram várias as incursões de Jó pelo Recife. Aqui ele fez amigos, além dos que ele já tinha, de origem sertaneja. Freqüentava a Praça do Sebo, cantava no box do poeta Pedro Américo, dormiu por exemplo, várias vezes, na casa do poeta Almir Castro Barros, da vereadora, guerreira – Edna Costa, casa do estudante da UFRPE. Jó, chegou a passar 3 meses, ou seja: 90 dias, na residência de Ésio Rafael, onde o poeta de fato guardava sua bagagem, motivo não só de orgulho, mas de aprendizado, por parte do dono da casa. Portanto, fora o local onde Jó, de fato passou mais dias em Recife. Membro da UBE – Secção PE, junto ao seu companheiro, Louro do Pajeú. É só procurar as fichas de filiação. Questão de prazer, acreditamos, justo que, poetas ditos populares furar o cerco Acadêmico.

Certa vez, na residência do poeta Alberto Oliveira, admirador e amigo de Jó, já passava da meia noite, entre versos e cachaça, Alberto cansou, foi dormir, mas antes teve o cuidado de franquear a bebida que Jó entendesse de beber para prolongar a noite. Jó deu preferência a cachaça. O poeta esvaziou toda a garrafa, tendo o abacaxi como tira gosto. Quatro horas da manhã, Alberto escuta uma tosse, sem fim, e preocupante, levanta-se e corre para assistir ao amigo poeta. Jó tossiu, tossiu de olhos aboticados, em midríase, veias inchadas e falta de ar. Depois do excesso da tosse, conseguiu falar. Engasgado e rouco assim se expressou: - Foi o abacaxi.

Na casa de Ésio Rafael, no momento em que Jó fechava as duas últimas estrofes de uma sextilha de improviso, surgiu no céu o barulho de um avião que passava sobre as cabeças, o fato perturbou a audição de todos. Quando tudo se acalmou devido a distância da aeronave, Jó disse: “ô avião poeta”. Várias frases e estrofes poéticas, marcaram a personalidade de criança de Jó Patriota. Elas estão na memória de seus familiares, amigos e eternos fãs. Disse Jó em conversa com amigos, em São José: “Mulher macha mesmo, foi Nossa Senhora, na hora do martírio de Cristo, o exército romano colocou os seus homens para torturarem Jesus. Aí Nossa Senhora partiu pra cima, jogou a cruz no chão, e disse: Bote em mim soldado”.

Arengando com Das Neves, sua eterna esposa, falecida recentemente, saiu de casa afobado, bateu com força ao fechar a porta e foi para o meio da rua. Nisso, passou um amigo que ao presenciar a atitude do poeta, disse: o que é isso Jó? Calma! Aí Jó: “e tem uma coisa, eu só não mato essa mulher porque ela é asmática”.

Eu vi a lua morrendo / Numa agonia de prata. Mais uma das preciosidades de Jó. Evidentemente que teríamos uma centena de versos e histórias deste maravilhoso poeta do Pajeú. Mas, isso fica para uma mesa de bar em noitada de birita, de preferência na “Embaixada do Pajeú” Restaurante localizado no bairro de Apipucos, Recife, pertencente a Bia Marinho, filha de Lourival Batista, e Sua Excelência – Helena Marinho, que continua sendo a guardiã da cidade dos versos.

 

ÉSIO RAFAEL é poeta e estudioso de poesia popular.

Fotos: Assis Lima e B. Maciel

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Editores:

 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cícero Belmar