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Edwiges de Sá Pereira

 

Tia Yayazinha, odor de goiaba e sabor de guaraná Fratelli Vita

por Josete Melo

 

Quando a minha querida amiga Cida Pedrosa pediu-me para escrever as memórias que possuo de minha tia Edwirges, fiquei um pouco assustada! Este sentimento ocorre por dois fatos simples, o primeiro: à exceção de alguns rascunhos escondidos em diversos pontos do “buraco negro” da minha casa, nunca escrevi nada, nada em absoluto, com um mínimo de qualidade para ser exposto. O segundo tão ou mais importante que o primeiro, decorre do fato de eu não ter conhecido Edwirges de Sá Pereira, precursora do feminismo em nosso país, ativista política, poetisa (gosto desse termo em desuso atualmente), primeira mulher a ocupar uma cadeira na Academia de Letras em toda a América Latina, defensora da cidadania e dos direitos do ser humano. Conheci, guardo perfeitamente em minhas memórias de infância, a doce tia Yayazinha, em sua casa porta-e-janela na rua Conselheiro Portela. Casa atualmente sem placa ou referências à pessoa a que lá viveu. Somos pródigos em relegar ao ostracismo pessoas e fatos tão importantes à consolidação de nossa história. Quando passo em frente a sua casa sinto que ficou a tia Yayazinha que me alvoroçava o espírito toda vez que a minha mãe dizia que iríamos visitá-la. Íamos mamãe, eu, meus irmãos e, ainda, minha avó, Nanete (Ana de Sá Pereira), professora da Escola Normal. Eu ficava extremamente excitada pensando naquele abraço caloroso que nos seria dado, no pé de goiaba que dava um cheiro especial à casa e, principalmente, naquele móvel lindo que ficava na sala pequenina repleto de Guaraná Fratelli Vita e biscoitos waiffers. Lembro da felicidade que ela ficava ao ver-nos devorando as gulodices, a interromper qualquer “conversa séria” com os adultos para nos empanturrar de doces e outras delícias que faziam a festa da garotada.

Recordo com precisão os quartos repletos de livros cujos títulos não conseguia decifrar (muitos destes eram em idiomas vários) e ela sempre a interferir todas as vezes que minha mãe, como mandava a “boa educação” insistia para que eu saísse de perto dos livros, que não desarrumasse nada e que fosse para o quintal brincar com os demais. Minha tia docemente insistia junto a minha mãe para que me deixasse ficar para “sentir” os livros.Recordo-me com precisão do onde ficava uma de suas irmãs, tia Doquinha (eram treze irmãos) que muito doente encontrava-se sob sua guarda, seu carinho e meiguice. Ela estendia ainda seus cuidados a uma velha prima, Dilinha (com graves problemas visuais). Existiam ainda sob sua proteção algumas “pretas velhas” que trabalharam para a família durante toda a vida. Lembro-me nitidamente de uma em particular; Ursulina que sofria implacável “implicância” de minha avó, Nanete, pois segundo seu vaticínio (confirmado posteriormente), Ursulina seria a “coveira” da família enterrando todos os seus componentes. A implicância de minha avó era veementemente, porém malograda, protestada por tia Yayazinha, mas o fato é que por ironia a profecia concretizou-se e Ursulina morreu há poucos anos!

Ainda é muito clara em minha memória que a atmosfera da casa não mudou no decorrer dos anos, nem mesmo quando tia Yayazinha sofreu seu primeiro AVC (derrame) que a deixou com um discreto distúrbio na fala e um déficit motor do lado direito do corpo. Apesar das dificuldades impostas pela doença, tia Yayazinha continuou a manter sua rotina alicerçada nos bastiões de doçura e ponderação como meio mais eficaz de entendimento e aproximação entre as pessoas.

Posteriormente, não resistindo a um segundo derrame extingui-se em definitivo uma das fases mais alegres de minha infância, ou seja, as domingueiras regadas a biscoitos, guaranás, e doçura.

Em minha mente de criança, a lembrança da candura de sua convivência será sempre uma referência em minha vida, como também o apelido familiar que utilizo e pelo qual sou conhecida até hoje (Joi). E ainda o soneto que fizera para minha 1ª comunhão, do qual transcreverei alguns versos!

Meu coração de criança
Vai receber-te Jesus
Doce clarão de esperança
Promessa eterna de luz.

 

Em seu funeral repleto de rostos circunspetos e desconhecidos os quais viria a conhecer em idade adulta através da imprensa e relatos familiares. Passei a perceber quem eram aquelas pessoas e quem era a minha tia quando fora da casa porta-e-janela da Conselheiro Portela.. Encontraram-se destarte em minha mente Edwirges de Sá Pereira, mulher, intelectual, feminista, articulista, professora, poetisa e a minha tia Yayazinha, doçura, leveza, generosidade, meiguice, odor de goiaba e sabor de guaraná Fratelli Vita e biscoitos waiffers.

 

 

 

Uma pioneira na luta pelos direitos da mulher

por Elizabeth Siqueira

 

Edwiges de Sá Pereira nasceu em 25 de outubro de 1884, em Barreiros, Pernambuco. Foi uma das pioneiras do seu tempo, destacando-se tanto nas letras como na luta política empreendida a favor do voto feminino, direito que só veio a ser reconhecido no Brasil, em 1934.

Revelou-se como poetisa desde a infância e começou a ensinar muito cedo. Foi professora primária e catedrática da Escola Normal, ensinando Didática e Pedagogia. Atuou também como preceptora da cadeira de Português do Curso Comercial do Colégio Eucarístico. Mestra de História Geral e do Brasil, no Instituto Nossa Senhora do Carmo, assumiu o cargo de superintendente de ensino nos grupos escolares do Recife.

Além de educadora, foi pioneira na luta pelos direitos da mulher. Lutou pela conquista da emancipação feminina, tendo escrito ensaios, proferido palestras e participado da campanha sufragista que eclodiu em todo o Brasil e no mundo na primeira década do século XX.

Participou das primeiras iniciativas da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF), especialmente do I Congresso Internacional Feminista, realizado em dezembro de 1922. No II Congresso Internacional Feminista, realizado em 1931, no Rio de Janeiro, proferiu um discurso intitulado Pela Mulher, para a Mulher, onde divide as mulheres em três categorias: a) a mulher que não precisa trabalhar; b) a mulher que sabe e precisa trabalhar, e c) a mulher que não sabe e precisa trabalhar.

Na primeira categoria ela englobou as mulheres da classe alta, uma espécie de aristocracia do ócio, que eram privadas da mão de obra escrava após a campanha abolicionista. Nesse momento, elas foram impelidadas a sair do casulo e procurar outras alternativas para as suas vidas. A segunda categoria era representada pelas mulheres pós- industrialização, inseridas e assimiladas pelo mercado de trabalho e, finalmente, as mulheres da classe baixa que, sem qualquer acesso à educação e à higiene, sentiam-se impotentes diante das dificuldades apresentadas pela vida. Segundo Edwiges, a única saída seria a união das duas classes mais privilegiadas e mais conscientes que poderiam propiciar às mulheres de baixa renda o acesso à educação, único caminho viável para sua inserção na sociedade da época.

Poetisa, educadora e jornalista, encontrou o reconhecimento do seu pioneirismo. Tornou-se a primeira mulher a ocupar uma cadeira na Academia Pernambucana de Letras. Sentou-se lado a lado com a elite masculina que detinha o cânone literário. Assim, através de sua escrita, de sua participação política e do trabalho empreendido no campo da educação teve o seu lugar garantido naquela casa.

Como escritora e poetisa, também foi uma das fundadoras do periódico intitulado O Lyrio, que circulou durante dois anos – de 1902 a 1904 – de forma contínua, mensal e teve um papel preponderante na difusão de idéias feministas, buscando conscientizar as outras mulheres de que o único caminho para a libertação feminina era a educação.

O Lyrio foi publicado no início do século XX, sob a égide do Regime Republicano. Era produzido e editado por várias “Exmas Sras” (assim elas se auto-denominavam), encabeçadas por D. Amélia de Freitas Beviláqua (redatora-chefe), D. Cândida Duarte de Barros (redatora-secretária) e DD. Edwiges de Sá Pereira (redatora), tendo como alvo específico o público feminino.

A imprensa “florida e perfumada como um Lyrio” foi a primeira vereda encontrada pela mulher para tentar ingressar no espaço público tanto no Brasi, quanto em outros países. Devido a isso, os editoriais de diversos jornais femininos publicados nos finais do século XIX e início do século XX afirmavam que as mulheres estavam entrando “na arena” do jornalismo. Foi o primeiro espaço onde encontraram voz e vez. Refletindo uma certa timidez, O Lyrio apresenta o seguinte editorial, em seu segundo número:

Pernambucanas distintas, tomamos a liberdade de apresentar-vos O Lyrio, um botão ainda, que mal começa a viver, tão frágil e pequenino para suportar os ardores deste sol de verão.

.........................................

Não é político, não tem pretensões literárias nem é vaidoso. É um Jornal seduzido pela arte que, em homenagem aos vossos encantos adoráveis vem brindar-vos com sua modesta presença.

O editorial refletia um discurso de humildade e descaracterizador em “não é político, não tem pretensões literárias nem é vaidoso”, mas ao mesmo tempo, o excerto configura-se como uma estratégia para entrar em cena. A linguagem refletia o contraste do Lyrio, da fragilidade da flor, da pequenez, com a metáfora do botão se abrindo ao ardor da torridez do sol de verão, com todas as possibilidades de florir e a resiliência de resistir.

Até mesmo em seu nome, assim como o título de outros jornais, refletia e metaforizava o conteúdo que o discurso feminino tentava perpassar no início do século XX. Mais uma estratégia para entrar num campo até então de domínio masculino. Os títulos dos periódicos pareciam escolhidos a dedo: Rosa (flor das mais nobres), Myosotis (flor das mais mimosas) e Lyrio (flor das mais puras). Todos “pediam licença” literalmente para ocupar um espaço. Muitos refletiam situações de avanços e recuos, próprios daquele(a)s que entram num campo de batalha. Entretanto, mandavam mensagens que até hoje refletem um profundo conteúdo de de consciência cidadã: “Eduque-se a infância, instrua-se a mulher e medite-se sempre no quanto de sabedoria encerra este pensamento: Abrir escolas é fechar prisões” (editorial dO Lyrio, nº 2).

Esses jornais femininos formavam também uma interessante rede de sororidade entre as mulheres. No livro Um Discurso Feminino Possível – Pioneiras da Imprensa em Pernambuco (1830-1910), publicado por Siqueira et alii (1995), Nilda Pessoa observa que se haviam tornado uma fonte de veiculação de idéias de norte a sul do país. Nessa rede, contemplavam-se três estratégias: a fala sobre a mulher, a fala pela mulher e a fala para a mulher.

No primeiro caso, as mulheres noticiavam o que estava acontecendo nos grandes centros, como no Rio de Janeiro, e mandavam recados das “províncias” mais distantes, como era o caso de Recife e outras cidades do interior de Pernambuco. As editoras e redatoras desses periódicos assumiam a fala pelas mulheres menos letradas e privilegiadas, funcionando como uma espécie de imprensa panfletária em prol da luta feminina como um grupo de militância. A fala para a mulher funcionava como um correio público. Através dessa imprensa epistolar fazia-se o jogo de “dizer para a outra” o que se queria “dizer para todas as outras”.

Foi dessa forma que Edwiges recebeu e publicou inúmeras cartas e foi homenageada também com vários poemas de Úrsula Garcia, Ignez Sabino, e outras atuantes escritoras de outros estados brasileiros. Assim, funcionaram as nets femininas e as primeiras malas diretas das mulheres , no início do século passado.

Edwiges publicou Campesinas e Horas Inúteis, coletâneas de poesias.

Dentre os poemas publicados nO Lyrio, encontram-se os sguintes poemas:

Magno Sonho. O Lyrio, ano 1, nº 12, 1902.
Olhos Verdes. O Lyrio, ano 2, nº 5, março de 1903.
A um raio de sol. O Lyrio, ano 2, nº 6, abril de 1903
O Malmequer. O Lyrio, ano 2, nº 7, maio de 1903.

 

Josete Melo é sobrinha-neta de Edwiges de Sá Pereira.

Elizabeth Siqueira é ensaísta, professora da UNICAP e pesquisadora da literatura feminina.

 

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Editores:

 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cida Pedrosa