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A poesia é de prata

por Cida Pedrosa 

 

Um marco na literatura alternativa é a festa de aniversário poético do poeta Lara. Este ano ele completa 25 anos de estrada na literatura e comemora lançando em livro uma seleta organizada e autogestada pelo próprio autor, onde constam poemas e textos em prosa do que ele considera mais significativo na sua produção. Lara é um poeta visceral. De verve forte, às vezes bárbara, às vezes irônica, sempre inconformada. Faz da voz o instrumento para divulgar sua poesia que foi sempre editada e vendida de forma alternativa pelas ruas do Recife ou de outras cidades por onde passou.

Difícil é encontrar em uma mesma pessoa o espírito rebelde pulsante e ao mesmo tempo uma ética tão ímpar que nesses tempos bicudos parece ingenuidade. Parece, pois não é. É antes de tudo uma postura humanista e compromissada com o outro mesmo quando dos momentos mais duros ou mais confusos.

Mas Lara não é apenas bom poeta e grande recitador, ou um guerreiro de lança agreste e de voz tão rascante como as folhas esturricadas do Sertão. Lara pensa cultura, filosofia, literatura e, principalmente, reflete sobre seus pares alternativos. Como disse Alberto da Cunha Melo: é uma voz pensante da poesia marginal. Lara é um cronista afiadíssimo, antenado com seu tempo e com o ritmo que liga o novo ao velho, é um memorialista pós-moderno que desfia histórias duras, irônicas e humoradas de sua Bom Conselho, cidade natal. Crítica e dialética são palavras chaves para esse escritor que continua socialista como eu. Quem quiser pode conferir os poemas, crônicas e textos dos livros e da coluna Buraco de Minhoca publicados nesse site.

Já falei da voz duas vezes e quem não conhece Lara deve tá pensando o porquê da referência. É que esse meu amigo, a quem confio a leitura dos meus livros em primeira mão, de quem estou falando sem ter lido ainda os poemas selecionados, é um cara do bem, é um dos maiores recitadores que a cidade do Recife tem. É uma voz única. Rasga a alma, corta a pele e faz da palavra uma folha seca ou uma lixa para limpar a caretice.

Uma seleção de amiga:

 

DESCARADAMENTE
DISCURSIVO

Valor literário é apenas
o mero recheio
de um bôlo
cujo valor nutritivo
está mesmo é no miôlo.
(O espírito e a chama
ardem antes
do papel.
Beletrismo tem apenas
importância secundária
a granel).

 

 

MODA

Nem cabiludo
nem kareka.
Eu sou eu.

 

 

TRAVESSIA II

cruzar o mangue
com jeitinho
sem se melar
nem um tiquinho...
pode?

 

 

VENAL

o que não dizemos
por medo
do isolamento
talvez seja
a intimidade
de um coletivo
tormento

 

 

LAR DOCE LAR

Como é bom
comer lá em casa.
Pode roer osso,
pode lamber os dedos,
lambuzar os beiços,
futucar os dentes
e arrotar gostoso.
De tão bom,
até parece
que a espontaneidade
faz parte do sabor.

 

 

BANDIDO

De fuzil
ou caneta
dá no mesmo.
Aliás
pra mim
tanto faz.
Vade retro,
satanás.

 

 

PÓS-TUDO

Se toque, sêo doido.
Se ligue, meu irmão.
? tá viajando, é?

 

 

ANTI-XENOFOBIA

Já vi
Pinto e Louro
num quebra-pau.
E gostaria de ler
Mallarmé
no original.

 

 

RÉQUIEM BONCONSELHENSE

Percorri outra vez tuas ruas
como um sonâmbulo narcísico
excessivamente ensimesmado,
seguindo o rastro do
egocentrismo interiorano
de tuas cinderelas agrestinas
e de tua gênese social
que reproduz filhotes de supermachões
e incrusta piedades diarréicas
nos neurônios dos teus jovens profetas
impregnados de timidez
megalômana.
Quem modificará o tutano
do teu obscurantismo?
Quem rezará a missa que salvará
tua alma corrompida e entediante?
Quem diluirá a ganância e a vaidade de tua
pequeno-burguesia
sub-provinciana?
Quem cuidará da vida dos teus machos
adoecidos pelo etanol?
Desfilarei mais uma vez,
para a delícia ótica
de tua curiosidade fofoqueira,
meus tumores psicológicos, inclusive
essa autocomiseração
das mais ridículas.
Como poderei freqüentar tuas casas
sem farejar tuas pústulas?
Eu, incuravelmente viciado
nos teus bolos de milho,
teus beijus de macaxeira,
teus pobres monstrinhos que
trocam sacos de cimento por votos
nos novos coronéis.
Eu, que senti as dores
dos teus partos imundos
quando ainda não me via
como o mais doentio dos Peters Pans,
quando ainda não sonhava com
êxtases e samádis
inatingíveis para mim,
quando ainda não sonhava
comida farta para todas as mesas.
Eu, eu, eu,
incuravelmente viciado
e referenciado
em ti,
minha Bom Conselho,
minha coronelíssima Bom Conselho,
minha doce ilha medieval.

 

 

FOLK LORE

ai como é lindo
o meu casebre
coberto com palhas de coqueiro
ai como é doce
a cocada
da negra paupérrima
ai como é gostosa
a tapioca
da minha vó subnutrida
ai como é radiante
o chapéu de couro
do meu primo falocrata
(ah, vai te foder
 com o teu irreal
 idílio típico tropical)

 

 

PLÁSTICO PRETO

O latifúndio
também urbano
observa as favelas
nos morros
e os seus riscos
de desabamento
indiferente
ao terror
trazido pelas chuvas
e ventos
de agosto ou de antes.

 

 

PÚBLICO

Um poeta escreve
para poetas.
Pra quem mais serve
o suor tonto
de sua verve?

 

 

PRESA

são
sábios
teus
grandes
lábios

 

 

FEBO

Não reprimir o viés clássico,
se ele vier.
Burilar pedras herméticas,
perfeccionista
artesanato de palavras
                      (estranhá-las,
repisá-las).

 

 

Bom Conselho. 1978.
Nonato, o Fanchono, cometeu a suprema bobeira de botar dois brincos na orelha esquerda. Seu pai cortou-lhe o lóbulo com uma peixeira para que a marca dessa ausência ficasse para sempre como lembrança da autoridade paterna. Suprema humilhação para a rebeldia infantilóide do Nonato. Acredite, amado leitor, a barra ainda é muito obscura nessas brenhas, apesar do final de milênio estar aí batendo às portas. Só o Nonato não percebeu. Portanto, vamos gritar bem alto: "Morte à orelha cortada do Nonato Fanchono!", tão alto que esse grito seja ouvido até mesmo naquelas brenhas inacessíveis.

 

Dos livros: LIXÃO (raspando o tacho); ESCALPO; CONTOS SORUMBÁTICOS, DESVARIOS POÉTICOS E MAIS PROSA CONFESSIONAL.

 

CIDA PEDROSA é poeta e editora do INTERPOÉTICA.

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Editores:

 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cida Pedrosa