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Lula Falcão

 

por Raimundo de Moraes

O pernambucano Lula Falcão vive em São Paulo desde 1989. Tanto aqui como lá, fez uma sólida carreira como jornalista, trabalhando em grandes jornais e revistas, como o Estadão e a Veja. Ano passado lançou seu primeiro livro na área de ficção: Todo dia me atiro do térreo, uma inusitada experiência literária, juntando a linguagem do Twitter com as possibilidades de um romance. Ou de algo que segue num ritmo incessante através da voz/sentimento da protagonista Maria Lúcia. O fazer e o publicar da obra merecia uma entrevista, e aqui está ela, para os leitores e amigos do Interpoética.

 

Lula, no seu livro o leitor é presenteado com um vasto painel da solidão high tech, enquanto a personagem se afoga em vodka. Foi divertido ir escrevendo cada trechinho ou as dores de Maria Lúcia também lhe angustiaram?

É preciso gostar do texto, ter um caso de amor com ele, e essa relação gera todo tipo de sentimento. Caso contrário é sinal de que não está funcionando. Se o personagem do livro fosse homem não teria a mesma pegada.  Eu não entendo o universo feminino, mas sempre tive uma vivência mais forte com as mulheres, e por isso resolvi encarar o risco de escrever em nome de Maria Lúcia. Foi difícil no início e joguei muita coisa na lixeira. Sobraram justamente as partes que me faziam rir ou me deixavam angustiado.  A preocupação com a escrita em si também esteve presente. Procurei não ceder à tentação de espichar demais capítulos que começavam bem ou mergulhar em ruminações filosóficas, reflexões sobre nosso tempo, essas coisas de gente grande, tipo Dostoievski e Thomas Mann.  Também tive medo da relação de Maria Lúcia com as redes sociais, especialmente o medo de escrever um livro datado, sobre uma moça moderninha, perdida na novidade do Twitter. Mas acho que consegui usar as redes apenas como meio. Acredito que uma Maria Lúcia do início do século XX poderia descrever sentimentos parecidos, redigindo cartas ou até mesmo usando o telégrafo. Só fiquei aliviado quando comecei a receber e-mails e comentários de leitoras. Elas acharam a personagem verossímil.  Era isso que eu buscava.             

O seu primeiro livro – Frevo – 100 anos de folia – foi publicado com incentivo da Petrobras e Prefeitura do Recife. Esses meandros do patrocínio chapa branca ajudaram a compor a ironia da produtora cultural Maria Lúcia? O personagem é muito bem construído também nesse sentido.

Testei Maria Lúcia em outras profissões, mas não dava certo. Apelei para uma que conhecia melhor, bem antes do livro dos 100 anos do frevo (escrito com Camilo Cassoli), pois trabalhei com publicações de vários tipos e algumas dependiam da Lei de Incentivo à cultura. Tirei pedaços de gente de carne e osso para construir Maria Lúcia, mas o resultado final carrega outras influências e um tanto de criação. Isso é comum na literatura. Nenhum personagem é um ente dissociado das circunstâncias do escritor.  Só que Maria Lúcia não é essa ou aquela mulher que conheço, nem uma síntese de várias mulheres; é uma mulher essencialmente inventada.     

Enquanto eu lia Todo dia me atiro do térreo sentia que dali poderia rolar um monólogo, com cenário e palco. Alguém já lhe propôs uma adaptação do texto para o teatro?

Já. A ideia partiu de atrizes ou candidatas a atriz. Também achei ter encontrado a atriz ideal para o papel, uma amiga que mora em meu bairro, a Vila Madalena (SP). Acho arriscado, mas concordo que poderia funcionar no teatro.

Quem é o bispo Iberê? Poderia apresentá-lo aos nossos leitores?

Estou escrevendo o folhetim Iberê. Escrevendo e publicando no meu blog (www.lulafalcao.com.br), com chamadas no Twitter e Facebook e capítulos reunidos no Scribd. Pode virar um romance e pode dar em nada. Não tenho a menor ideia do final. Os personagens vão surgindo no dia a dia e inseridos no texto, sem muito critério. Alguns caberiam melhor numa HQ, outros são desnecessários. Não há revisão. Gosto do narrador, representado por Paulo, o intelectual cínico, e do bispo Iberê, o mocinho-bandido. Na semana passada, uma amiga que acompanha os posts advertiu-me: “você vai acabar se perdendo”. Respondi: “já estou perdido”. A partir de agora, o objetivo é arrastar as figuras do enredo para um labirinto, um beco sem saída, um poço sem fundo. Não há um esquema.  Depois terei que reescrever tudo para publicar em papel. Quando comecei a postar Iberê – título provisório - meu objetivo era expor o processo de criação e, no meu caso, o processo é caótico.

Iberê é a história de um pregador pentecostal que se associa a um intelectual alcoólatra, ateu e fracassado, mais cheio de referências literárias.  No decorrer da história, vão se apresentando outros personagens, aparentemente alheios ao mundo bíblico da periferia de São Paulo, onde começa a trama. Casos do fotógrafo de revista pornô, da interiorana e bem informada Pepa, das gêmeas niilistas, um monte de gente sem muito juízo, movida a álcool e drogas. Há uma trama policial que começa em São Paulo, passa pelo Recife e desemboca em Palmeira dos Índios, Alagoas, terra de Graciliano Ramos, o escritor preferido de Paulo. O narrador carrega 4,5 milhões de dólares, roubado de Iberê, e faz seu discurso sobre culpa, ética e moral, enquanto bebe e escreve. É mais um road-book. Pelo menos está assim hoje.   

Você já participou de alguma oficina literária? Ou se considera um autodidata?

Nunca participei de oficinas literárias nem sou autodidata, pois tive alguns mestres na escrita, especialmente no jornalismo, onde atuo há mais de 30 anos, tanto no Recife, onde iniciei minha carreira, quanto em São Paulo, onde moro. Mas acho que em essência os livros que escrevo agora nasceram do hábito de ler e escrever muito desde a adolescência.

Livros que marcaram, escritores que admira.

A lista é grande, mas eu começaria com Crime e Castigo.  Dostoievski é o autor que mais releio, atualmente, depois do lançamento das traduções direto do russo (editora 34). Nessa relação eu colocaria gente de todo tipo, de Thomas Mann a Charles Bukowski. Também: Faulkner, Proust, Graciliano, Lima Barreto, Raul Pompéia, Herman Melville, Robert Musil, Tolstoi, Henry James, Gore Vidal, Ítalo Calvino, Joseph Conrad, Julio Cortázar, Julio Verne, Dante... Entre os autores mais recentes, gosto muito de Reinaldo Morais, Raimundo Carreiro, do angolano José Eduardo Agualusa e do colombiano Fernando Vallejo.   

Onde o jornalismo ajuda a fazer literatura?

O jornalismo ajuda na concisão, quando ela é necessária, e na composição do ambiente. No Estadão, onde trabalhei por quase 10 anos, viajava muito e sempre procurava dar um tom “New Journalism” às matérias mais longas e apuradas em lugares distantes, como Cuba, Peru e México, por exemplo. Pretendo reunir esses textos em um livro. O jornalismo só não ajuda nas digressões, às vezes até atrapalha, porque o jornalista tem a necessidade de fazer um texto redondinho até quando especula sobre a culpa e a morte. Nesses casos, a escrita livre, sem fórmulas, é que deve reinar.  

Se você não se perder nos abismos de Iberê, quais são suas principais metas – como escritor - a médio e longo prazo?

O fato de estar perdido em Iberê não significa que o livro não sairá. Estar perdido é mais um ingrediente da história. O narrador, Paulo, está perdido e isso faz parte da natureza dele. Iberê está perdido, junto com seus fiéis. Nem eu nem os personagens estamos à procura de uma saída clássica. O final pode ser a redenção ou o inferno de todos eles. Pode ser uma espécie de dissolução da narrativa. Quero fugir do desfecho apoteótico. Darei um jeito. A próxima história talvez seja sobre uma vida depois da morte. Pessoalmente, não acredito nessas coisas, mas tenho a ideia de um lugar para onde levar os personagens: uma vida muito parecida com a da Terra, mas um pouco pior, mais chata, cheia de mesquinharias, burocracia e inveja.

 

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Editores:

 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cida Pedrosa