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por Cícero Belmar Domingo passado, no Parque 13 de Maio, centro do Recife, um menino de uns seis sete anos deslumbrava-se com uma imensa bola colorida que certamente o pai comprara e lhe dera. O garoto a jogava para cima, para os lados, chutava. Ele brincava com a bola e a bola, com ele. O menino sorria às gargalhadas, com uma felicidade que só a bola colorida sabia lhe dar. O menino brincava e aquilo era a plenitude. A bola pulava e rolava. E o menino corria para buscá-la e ela retornava em suas mãos, como se estivesse rindo. A bola sorria, às gargalhadas. O menino brincava e a bola era imprescindível na sua vida. Como tudo na vida só ocorre quando a gente se dispõe, o menino permitia que a bola fosse seu maravilhamento. Ao pular colorida no ar, era como se o menino também fosse imprescindível a ela. A felicidade é simples assim. --------------------------------------- Vingança O Jornal Nacional estava especialmente assustador: a moça, branca como a neve, de cabelos louros como o ouro e os lábios vermelhos como o sangue, matou e esquartejou o marido. Primeiro deu um tiro de pistola. E depois, retalhou-o em cinco pedaços muito bem cortados. Não pude conter um esgar de riso e disse bem feito. O marido tinha uma amante e a mulher descobriu tudo. Onde foi o seu ódio, ela o fracionou, trincando os dentes, mordendo os lábios. Era exatamente isso que eu queria fazer contigo Alex. Mas, seria óbvio demais repetir a tática da moça branca como a neve. Eu tenho minhas próprias armas. Assim: com minha digital, fiz sua foto, embora saiba da sua prosaica aversão de ser fotografado. “Tenho uma superstição. Acho que a fotografia rouba a alma da gente”, disse-me. Fiz sua foto e a imprimi. Coloquei a cópia numa linda caixinha de metal, que comprei numa loja de objetos inúteis. Joguei sobre o papel umas traças que catei de antigos livros. Elas é que vão te devorar, picotar dolorosa e pacientemente cada centímetro de sua imagem. Até não restar nenhuma prova do meu crime. COLUNA LETRA DURA CÍCERO BELMAR escritor e jornalista
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