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Cosme e Damião de Dona Antônia

por Carminha Bandeira

 

Recordo-me de dona Antonia especialmente pelo modo como ela festejava  Cosme & Damião, na cidade de Bom Jesus da Lapa, na Bahia, tomando como alimento sagrado o  Caruru.

Quando  setembro chegava, ela  armava uma tenda em frente da casa, na Praça Marechal Deodoro da Fonseca para vender quitutes baianos, principalmente  caruru,  cocada  e acarajé. Mas antes de abrir  para o público, ela convidava várias crianças, geralmente num domingo, para ficarmos, simplesmente, brincando lá dentro, inclusive, de lavar a tenda.

Eu me lembro que fui vários anos convidada  para brincar na tendinha e no final da tarde, ela nos mandava tomar banho em casa, para voltarmos, em seguida,  pra roda do Caruru.

A gente cantava principalmente duas músicas, batendo palmas e dando voltas em torno da mesa cheia de quitutes, que incluíam  as pipocas, sendo a primeira:

mamãe me deu caruru,

vou comer caruru de mamãe

E a segunda:

Cosme & Damião

Vamos comer caruru

Que hei de todo ano

Fazer caruru pra tu.

As músicas chamavam Paulinho, o neto, que de repente saía da cozinha,  vestido de branco com a panela de caruru na cabeça e seu Silvestre, ao lado,  ajudando a sustentar o peso.

Fazendo hoje essa retrospectiva histórica através do blog do Orlando Fraga, - um conterrâneo blogueiro que está usando este instrumento para fazer um mutirão cultural de reconstituição da história local, a partir de nossas memórias - recordo-me de dona Antonia como uma presença  dos cultos africanos na vida de Bom Jesus da Lapa, cuja cultura é predominantemente marcada pela religiosidade popular, pois é tida como a segunda (?) romaria do Brasil.

Ela tinha uma maneira própria de cultuar  Cosme & Damião, (os ibejis, nos cultos africanos)  estabelecendo  sua versão da tenda dos erês, (que aparece no culto aos orixás), e oferecendo as comidas de santo, próprias dos terreiros:  caruru, pipoca e acarajé.

Lembro-me dela como uma avó muito querida, que cuidava dos netos com muito carinho e estendia o afeto a todas as outras crianças,  uma vez que era   guardiã dos ibejis. Eu me sentia muito acolhida no seu enorme regaço, principalmente porque  ela gostava muito dos meus pais (a recíproca era verdadeira também) , e eu era da mesma idade e amiguinha de infância de sua neta Terezinha.

Éramos três meninas: - Sandra, de Lia e Henis; Terezinha de Anaildes e Silvestre;  e Carminha, de Corina e Bandeira -, nascidas no ano de 1952, com dois a três meses de diferença uma das outras. Curiosamente, eu era a mais nova e a maior das três. E Sandra, que era a mais velha, era de tamanho menor.  Nós três costumávamos brincar juntas até seis, sete anos de idade, inclusive na tendinha do Cosme e Damião.

Terezinha tinha um vestido lindo, de organdi branco, bordado pela avó, em ponto de cruz,  que eu admirava e chegava a sentir inveja: como desejei ser dona daquele vestido ou dizendo em outras palavras, como desejei  ter uma avó que bordasse um vestido tão lindo daquele para mim!

O bordado que rodeava a barra da saia,  intercalava os versos da cantiga

Sabiá lá na gaiola

fez um buraquinho

Com  as imagens em seqüência do sabiá fugindo e se distanciando de menina, que desesperada, chamava do seu canto:

vem cá, sabiá, vem cá.

Muito  viajei na imaginação acompanhando a história do sabiá, pela barra da saia de Terezinha, quando eu devia ter entre seis e sete anos de idade! Uma experiência inusitada de leitura, escrita pelas linhas do bordado de dona Antônia.

Mas se não ganhei de presente aquele vestido, posso dizer que fui compensada com uma surpresa de igual magnitude, realizada também pelas mãos de dona Antonia, quando fiz oito anos de idade.

 Voltando da escola encontrei em casa um bolo no formato de um grande coração, confeitado de glacê cor de rosa e bolinhas prateadas, tendo ao centro uma vela da mesma cor, com desenho do número 8.  (Nesse exato momento me dou conta da associação desse numeral com o símbolo do infinito.)

A lembrança de dona Antonia me acompanha ao longo da vida, principalmente o tamanho da sua generosidade, expressa através daquele bolo confeitado em forma de um grande coração. 

Às vezes tenho a impressão que ela me visita, principalmente porque me mantenho em permanente conexão com as crianças, através dos trabalhos que realizo no Recife junto aos centros educativos e culturais populares, alguns se mantendo como locais de preservação do culto aos Ibejis, sincretizados nos santos Cosme e Damião.

O Recife é um lugar onde a cultura popular pulsa muito forte, por isso me sinto muito bem aqui, pois consigo entender melhor a minha história e me manter conectada com a criança que fui em Bom Jesus da Lapa.

Durante anos, acompanhei, por exemplo, o Centro de Educação Popular Mailde Araújo (CEPOMA) que criou o primeiro maracatu infantil do Recife  – o Nação Erê – (erê significa criança em yorubá) e tem como patronos Cosme e Damião.

Todos os anos, no dia 27 de setembro, as crianças tocam maracatu para Cosme e Damião e eu sempre estou lá, junto com elas, reverenciando a memória de dona Antonia e continuando a minha brincadeira  na tenda dos erês.

Dessa forma, me mantenho conectada com essa tradição e aproveito para pedir a benção à  dona Antônia, que um dia me ensinou a cantar Caruru para Cosme & Damião no interior do sertão baiano, à beira das águas do velho Chico. Águas da mesma fonte que  os nossos antepassados, os  índios,  um dia  chamaram de Opará.

Carminha Bandeira

Recife, 21.12.2011

Este texto está publicado em  orlandofraga.bloguepessoal.com e compartilho também aqui em homenagem à III Mostra da Culinária de Terreiro em Pernambuco, organizada pela Aurora 21 e Centro de Cultura Afro Pai Adão.

 

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CARMINHA BANDEIRA
escritora e educadora

 

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 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cícero Belmar