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Só os machões se salvam

por Cícero Belmar


Era dona Edinilza quem dizia:

- Os efeminados não herdarão o reino de Deus!

Ela era uma mulher muito séria, da igreja. Vivia a com a Bíblia debaixo do braço. Dona Edenilza dizia que era inadmissível um homem deitar-se com outro.

- Esses aí queimarão no fogo eterno!

E citava o livro Coríntios, capítulo 11, versículos 6 a 9. Foi por causa disso que o filho dela passou um dia fechado no quarto, fato que deixou a todos preocupados. Era um rapaz discreto, reservado, contido. Até barba usava.

- Abre essa porta, Felipe!

Será que ele estava em depressão? Abre essa porta, meu filho!

Quando resolveu abrir, continuava a mesma pessoa. Só o pensamento é que mudara: já que não havia jeito para entrar no céu, resolveu dar pinta. Jogou-se na alegria, como diria o seu amigo Jorginho. Felipe concluiu que ia tomar um banho de vida, enquanto não chegava a hora de ser queimado na grande fogueira.

 

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Voz de anjo

A minha vizinha tem voz de anjo. A voz é de anjo. E eu fico imaginando o seu rosto, que nunca vi.  De anjo.Toda quinta-feira à tarde ela ensaia canto no apartamento. Ouço: ontem, chegou ao requinte. Ensaio com violino e teclados.

A música era Moon River. E repetiram, repetiram, repetiram. A busca da perfeição foi irritante. Atingir a beleza é cansativo. A soprano levava as notas ao inquebrantável da voz. E, ao fundo, o acompanhamento.

Moon River. Aquilo foi me levando para um nada indescritível, sentimental que sou. Para uma saudade do que não vivi, como se o nome daquilo fosse saudade. Uma nostalgia de cenário europeu, como se a brancura do frio fosse exclusiva da Europa.

Fim do ensaio. Não tenho a menor vontade de conhecer minha vizinha. Basta ouvir sua voz. E imaginar que seja de um anjo.

 

COLUNA LETRA DURA

CÍCERO BELMAR
escritor e jornalista

 

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 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cida Pedrosa