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 por Raimundo de Moraes Adrienne é uma leitora compulsiva e dona de uma pontaria certeira. Assim: mira seu talento no leitor e caímos encantados pela sua prosa. Isso aconteceu comigo lendo A mulher e o cavalo e posteriormente com Eis o mundo de fora. Essa pernambucana que atualmente vive em São Paulo também é artista plástica e sonha um dia poder viver da sua literatura. Por enquanto continua a alimentar sua rebeldia hierárquica – segundo a própria Adrienne, ela não consegue conviver muito bem com qualquer tipo de autoridade e burocracia – e quando sobra tempo concede entrevistas para seus admiradores. Como esta que vocês podem conferir aqui no Interpoética. Adrienne, você foi pra São Paulo a galope ou foi de mansinho? Deu na telha assim de repente? Eu costumo dizer que eu fui ‘obrigada’ a vir para cá. O fato é que minha família já morava aqui há algum tempo e eu resisti o quanto pude a fazer essa mudança, fiquei ‘empacada’ o quanto pude, mas por uma série de circunstâncias, me vi tendo como única saída, literalmente, o aeroporto com destino a São Paulo, a partir disso a coisa se deu a galope. Alguns exilados da República Independente dos Pernambucanos Arretados têm banzo crônico. E você? Eu não diria que meu banzo é crônico, mas se manifesta de forma aguda em alguns momentos. Foi bem difícil me decidir a mudar, aceitar que precisava mudar, mas me adaptei rápido à nova vida e tenho consciência do quanto essa mudança influenciou de forma positiva meu trabalho. O que não me livra de enlouquecer de saudades e vontade de estar aí vez por outra, não existe uma regra para o que desencadeia meu banzo, mas nessas horas a regra é me entupir de música e o que mais tiver à mão da cultura pernambucana, tenho inclusive uma concha que me salva da necessidade de ouvir o mar. E, quando ouço o sotaque pernambucano... aff!!! Estou em casa. É lindo demais! E a gestação do seu livro de estreia? Foi uma coisa minuciosamente trabalhada ou você juntou coisas que já tinham sido escritas e aguardavam publicação? Eu estava trabalhando em outro projeto para um livro de contos e uma brincadeira mudou tudo e me fez recomeçar e preparar um livro completamente diverso. Explico: esse trabalho começou a partir do título, e o título, a partir de uma brincadeira do escritor Marcelino Freire que falou para um editor amigo nosso, que eu estava escrevendo um livro chamado “A mulher e o cavalo”, em uma clara alusão a um filme pornô antigo. Mas o editor gostou tanto do título que Marcelino me convenceu de que eu deveria esquecer o que estava feito até então e encarar aquilo como um sinal, um presente. Com o título definido eu parti para a análise de quais contos ainda poderiam servir e para a escrita dos demais que fechassem com o conceito, mas antes eu precisei criar um conceito que fugisse do óbvio que seria escrever uma coisa diretamente erótica e zoófila. Na abertura de A mulher e o cavalo Nelson de Oliveira diz (referindo-se ao amor e à paixão): Para Adrienne vale a máxima "as merdinhas felizes são todas iguais, as infelizes são infelizes cada qual à sua maneira". Quando é que o amor começa a feder, Adrienne? Ou ele já nasce todo cagadinho? Nascer cagadinho não invalida o amor. Acredito que o amor precisa cheirar e feder desde o começo, e negar isso é a maior merda que fazemos. Como foi aventurar-se no romance? Quanto tempo você levou para escrever Eis o mundo de fora? O romance foi uma descoberta transformadora. Levei cerca de quatro anos para escrever Eis o mundo de fora, é preciso levar em conta que tenho livre as madrugadas e finais de semana para escrever. Quando falo em transformação me refiro ao fato de que até então eu acreditava que minha praia era o conto, e estava satisfeita com isso. A idéia do romance veio a partir de uma afirmação do escritor Reinaldo Moraes, ele foi quem me disse que meus personagens pediam um romance. Para resumir, comecei a escrever e descobri que o processo de escrita do romance era tudo o que fazia falta em minha vida e eu nem desconfiava. Você também é artista plástica. Como dialogam a literatura e os pincéis? Nesse romance eles dialogaram muito, inseri algumas pinturas em momentos nos quais eu vi que a narrativa pedia certo silêncio para passar de um capítulo a outro. E, em meu cotidiano, os dois se alternam com suas necessidades específicas, embora aqui em São Paulo a pintura fique restrita a suportes menores porque não disponho de espaço físico para desenvolver trabalhos iguais aos que eu costumava fazer. Está com algum projeto em andamento? Estou escrevendo uma novela para a coleção “Que Viagem!” da Edith. Um projeto que mandou dez escritores para lugares para aonde só eles poderiam ir, dois já foram lançados: Gisele Werneck foi para onde Judas perdeu as botas e André Sala foi para a casa do chapéu. O próximo a ser lançado será Thiago Barbalho que foi para o fundo do poço. Eu, no momento, estou aonde o vento faz a curva. Escrever dói? Viver dói. Escrever é o que dá sentido a tudo e me ajuda a seguir sorrindo. Pra finalizar, uma homenagem a seu último livro, no qual um dos personagens é um ator: no teatro ou no cinema, que personagem você gostaria de ser? Tarefa complicada para uma geminiana escolher UM personagem, hahaha!!! Vou citar duas personagens, uma de cinema outra de teatro: 1. Grace Margaret Mulligan de Dogville, de Lars Von Trier, um dos personagens mais densos e intrigantes dos quais me lembro; 2. Groucha, do Círculo de Giz Caucasiano, de Brecht, uma personagem humana e forte. Ah! Para não deixar de ‘causar’ adoraria também fazer a mulher gato só para poder vestir aquela roupa preta maravilhosa que a Michele Pfeifer usa na versão do Tim Burton.
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