|
por Wellington de Melo Ontem caminhava pelo centro quando as portas azuis da livraria Poty exibiam um cartaz: “Encerramos nossas atividades”. Assim, lacônico, sem despedida, sem nada. Dei suspiro, um ai-meu-deus, como se soubesse da morte de um amigo, de alguém que não via há muito, alguém por quem se tem carinho, coisa do tipo. “Encerramos nossas atividades”? Isso é maneira de ir embora, deixando para trás nossa esperança de ter encontrado esse elo perdido, essa ilha do paraíso entre livrarias impessoais e matematicamente pensadas para consumirmos pelo puro prazer de consumir, para ser cool, para posar de bacana? Será que esse foi nosso erro? Querer um lugar para conversar, comprar sem pressão, sem estar sob os holofotes? O que fizemos para enterrar, uma a uma, as livrarias dotadas de alma? Quem pode contar aí nos dedos? A Poty parecia ter herdado a alma da Síntese, como se o lugar respirasse uma aura de outro tempo, como esses sobrados do centro que avançam numa velocidade diferente dos arranha-céus, sem saudosismo, mas com uma dignidade vencida, essa dignidade vencida de nossa intelectualidade recifense. Para onde irão Gilvan Lemos e Jomard Muniz de Brito nos finais de tarde? Para onde iremos todos quando quisermos um pouco de paz, longe de técnicas de marketing avançado, cartões de fidelidade, vendedores cult e sorrisos esterilizados? Encerramos nossas atividades. À espera de mais um sonhador. Quem se habilita a nos salvar, os leitores vintage? COLUNA VÉRTEBRA a vértebra só fragmento portanto completa porquanto inexata precisa já que intacta a fratura a vértebra WELLINGTON DE MELO escritor
|