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O FUTEBOL É UM VÍCIO

por Cyl Gallindo

 

   Impossível tratar aqui de todos os problemas ocorridos em torno do futebol. Não porque seja difícil colher as informações na internet, na mídia falada ou escrita. Lembro ter sido ouvinte cativo da Rádio Universitária do Recife, quando certo dia o apresentador declarou “esporte também é cultura”. Nessa brecha ele deu informações sobre os times de futebol do Recife, complementando com atividades de agremiações de São Paulo e Rio de Janeiro. Nessa época, censuravam-se os centros europeus, aonde chegavam times brasileiros com os seus melhores ídolos, e não havia vivalma para recebê-los nos aeroportos. A imprensa noticiava a chegada com notinhas inexpressivas. Os jogadores, de lá, tinham os seus empregos e somente nas horas vagas atuavam nos clubes, não eram profissionais.

    O futebol era apenas e tão somente uma diversão, como o cinema, a dança, a praia.

   De lá para cá, o panorama mudou em 360 graus. A começar pela expressão “esporte também é cultura”, que se transformou em “cultura também é esporte”. Ao se falar de uma escola, uma praça, uma residência, uma igreja, de qualquer área, em fim, se diz que é igual, ou menor, ou tantas vezes um campo de futebol. Em nenhuma outra profissão paga-se igual ou mais do que a do jogador de futebol.

   O reinado do futebol cria reis, rainhas, fenômenos, embaixadores, professores, cantores, atores e o que mais se possa imaginar. E condecorados, para não esquecer que a Academia Brasileira de Letras agraciou o Ronaldinho Gaúcho com a sua maior insígnia. O moço até ironizou, indagando: “o que é que vou fazer com isso? Eu nem gosto de ler!” Ora, ora, ele já estava fazendo, ao dar a oportunidade dos acadêmicos presentes aparecerem ao seu lado na imprensa.

    O programa educacional brasileiro para infância e adolescência tem na primeira ordem a educação física, para ensinar e permitir os alunos a jogar futebol, dentro da própria escola.

   Os torcedores, atualmente, organizam-se em associações, criam escolas de samba, têm estatutos, comandantes e comandados. O único ponto preocupante desse corporativismo está na possibilidade de um grupo se encontrar com outro, quando pode haver lutas, como se fosse uma de guerra de povos inimigos, dada a violência.

   Há também facetas exóticas que poderiam até ser engraçadas. Dias atrás, uma televisão apresentou um torcedor, cuja família comungava a mesma filiação futebolística. Ele, a mulher e filhos usavam roupas, calçados, bonés, forros de cama e de mesa, além da própria casa, centenas de objetos domésticos pintados nas cores do time de suas preferências. No meu entender, em lugar de jornalistas para mostrá-los numa reportagem em nível nacional, eles mereciam a visita de psicólogos ou psicanalistas para um sério tratamento. Mas num país em que pouquíssimas vezes a população reúne-se em defesa dos seus direitos ou em protesto contra desmandos de ordem pública, embora vá às ruas de bandeira em punho aos gritos de Brasil, sil, sil, saudando uma vitória da seleção, tudo é compreensível.

   Basta olhar a cara dos apresentadores de televisão. Ao falar sobre qualquer assunto a fisionomia é padronizadamente impassível, no entanto, se o tema é futebol eles se transfiguram, além de falar gritando, especialmente através do rádio.

   No exterior, aquela frieza citada acabou-se. Os governantes e a mídia acordaram para o filão econômico do setor e souberam trabalhar a cabecinha dos torcedores de lá também. O que vemos é que não só torcem pelos seus times, como vestem suas camisas, brigam em defesa de suas cores, como contribuem com milhões para a compra do passe de qualquer grande jogador, de onde quer que ele seja. As autoridades inglesas se desdobraram para evitar que sua juventude fosse para a Alemanha, assistir a uma partida de futebol, porque em caso de derrota, promoviam um fantástico quebra-quebra, cujo saldo era de alguns mortos e centenas de feridos, afora os prejuízos materiais. Um desses grandes espetáculos aconteceu recentemente no Egito, com a morte de 74 torcedores, e milhares de feridos.

   Mesmo sem guerra, há violência. Quando atuei na imprensa recifense, nos anos 70, tomei conhecimento de que no dia seguinte após um jogo clássico entre os maiores times do estado, o comércio deixava de vender de 7 a 8 mil litros de leite. As economias haviam sido empregadas na compra do ingresso dos estádios e, claro, numa cervejinha, que ninguém é de ferro. Como ficar sóbrio se o time do coração perdeu ou ganhou uma partida. As crianças não morriam por não tomar leite por um ou dois dias.

   Feito esse painel, lembro apenas alguns fatos por outro ângulo, para concluir esta breve nota.

   Ninguém desconhece que há pessoas viciadas em corrida de cavalo, por exemplo. Pode parecer louco, mas há criaturas que perdem o que não tem, apostando em corridas de cavalos. Ou jogando baralho, roleta, nesses caças níqueis, nos cassinos, no nosso famoso jogo do bicho. Este é um império na contravenção. Proibido por lei, por tudo, mas ainda hoje se vê pessoas com máquinas eletrônicas nos pontos aonde vão os afeiçoados fazer a sua “fezinha”. Sem esquecer e não se pode esquecer que a Caixa Econômica é mais que um banco, graças às dezenas de jogos que banca. Há um canal de televisão que não faz outra coisa a não ser bancar jogos. As demais se contentam em promover o futebol, com até 72h00 de programação para um único dia. Aí se pode vê como um gol é mostrado como numa pedra lapidada por mil ângulos diferentes. E não é para menos, tendo em vista a quantidade de campeonatos que existem, envolvendo além dos grandes times, até peladeiros no interior.

   Estamos tateando diante de um vício moderno que também dará muito trabalho à humanidade: a Internet. Aguardem!!

   Dito isto, concluo afirmando que o torcedor de futebol é um viciado. Viciado tanto quanto o consumidor de álcool, de cocaína, de craque, o jogador de baralho, de roleta. E de toda e qualquer modalidade de jogos e vícios que se imagine. Ele não vai ao campo de futebol se divertir. Vai participar da vitória do seu time. Se isto não acontece, sua frustração é tamanha que ele pode matar ou morrer, como tem acontecido em todo o mundo. Mistérios para Freud, Young ou Foucault explicar.

   É por isso que assistimos a um secretário da FIFA dizer que os governantes brasileiros merecem “um chute na bunda”, por não satisfazerem todas as suas vontades.

   Não estou apregoando o fim do futebol, como esporte. Estou apenas e tão somente advertindo que o torcedor é um viciado, e em cima dessa condição, foi montada uma multinacional, talvez a mais poderosa do mundo, para dominá-lo política e economicamente. Assim sendo, seria fundamental se estabelecer controles no sistema e limites para torcedores e promotores.

 

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O REI DO BAIÃO E OUTRAS MÚSICAS

    Os Clarins tocam, todos se alevantam, as luzes se acendem, os fogos pipocam no ar, então o Rei aparece no fim do salão e o cerimonial anuncia: Sua majestade Luiz Lua Gonzaga, rei do Sertão. É assim que ele está no céu entrando na festa em comemoração aos 100 anos de nascimento.

   Enquanto isso o Galo da Madrugada desfila em homenagem a LUIZ CONZAGA. De Exu, terra natal do sanfoneiro, veio uma grande comitiva. Iniciativas semelhantes tiveram dezenas de outros municípios pernambucanos. Sendo que a maior embaixada veio de Olinda: o boneco gigante O Homem da meia-noite, (criação do gigante Sílvio Botelho) ao tomar conhecimento da homenagem ao sertanejo de Exu, disparou para o Recife com toda a agremiação e dominou a folia de frevo e baião. Pelas ruas já se perfilavam 24 trios elétricos, com Alceu Valença, Elba Ramalho, Josildo Sá, Geraldinho Lins, grupos cariocas e até a divina Fafá de Belém. E não podia ser menos, para animar 2 milhões de carnavalescos a pular e cantar pelo centro da cidade, confirmando previsões do presidente Rômulo Menezes.

   O Rio de Janeiro não deu por menos, mostrou que o Gonzagão é tão brasileiro quanto pernambucano e jogou na Marquês de Sapucaí a escola de samba Unidos da Tijuca também homenageando o Rio do Baião Luiz Gonzaga. O desfile trouxe o título O Dia em Que Toda a Realeza Desembarcou na Avenida para Coroar o Rei Luiz do Sertão. Foi um espetáculo deslumbrante. Mostrou a asa branca, os bonecos de Vitalino, o cangaço, a vegetação, o gênio criador da terrinha. Não deu outra, sob os aplausos de Rosinha, filha de Luiz Gonzaga, Daniel, filho de Gonzaguinha e o Governador Eduardo Campos e família os dirigentes da agremiação Fernando Horta Paulo Barros choraram na avenida ouvindo a informação de que a Unidos da Tijuca consagrara-se campeã do Carnaval do Rio de Janeiro, em 2012.

   Outras homenagens a Luiz Gonzaga ainda virão, inclusive da Academia Pernambucana de Letras, seguindo proposta da presidenta Fátima Quintas. Fatos que me deixam de peito lavado diante das afirmações que tenho feito de que o Nordeste é a espinha dorsal da Cultura Brasileira, onde inclusive aponto Luiz Gonzaga como um dos baluartes dessa hegemonia. E não o faço somente agora, pois fomos camaradas de muitos encontros, num dos quais ganhei uma cópia manuscrita da letra de Asa Branca, com oferecimento e tudo, publicada na revista Fórum do Senado Federal.

 

DOIS ACADÊMICOS

   A Academia Pernambucana de Letras enriqueceu seus quadros com a eleição e posse do escritor Gilvan Lemos. Natural de São Bento do Una, onde alcançou fama como escritor ainda jovem, graças à publicação de um conto na revista Alterosa, de Belo Horizonte. No entanto, migrou da sua cidadezinha, aos 22 anos idade, vindo residir no Recife. Aqui publicou o seu primeiro romance, com o qual arrebatou da própria APL o prêmio Vânia Carvalho.

   Sem o autor arredar o pé da capital pernambucana, a obra de Gilvan Lemos percorre o Brasil e o mundo, dando-lhe prêmios e recebendo elogios da crítica especializada. Difícil estabelecer entre seus 18 livros publicados, de romances e contos, qual de seus trabalhos é apontado como obra prima. Creio que a obra prima de Gilvan Lemos é aquela que estamos lendo no momento. Dono de um estilo claro, elegante, singular, quer no romance, quer no conto, Gilvan se destaca, prende o leitor e o comove. Não falta a sua marca registrada de cidadão simples e afável.

   É com orgulho e alegria que festejo nossa amizade e a nova possibilidade de voltarmos a estar juntos nas reuniões da Academia.

 

SÔNIA FREYRE

   Outra figura que merecidamente se tornou acadêmica é Sônia Freyre, ao ser eleita para a Academia de Letras e Artes do Nordeste – Alane.

    Sônia Freyre nasceu entre livros, foi embalada por palavras das mais altas expressões intelectuais do Continente: Madalena e Gilberto Freyre. É atualmente a presidenta da Fundação Gilberto Freyre. Portanto, nada mais justo do que ser acolhida numa instituição de cultura do porte da Alane.

   A solenidade de posse, presidida por Melchíades Montenegro, está marcada para as 19h00, do dia 09 deste mês de março, no auditório da Fundação Gilberto Freyre, em Apipucos.

 

DIA DA MULHER

   A cartinha foi enviada por Audicéa Rodrigues convidando-me a participar de um tuitaço promovido pela União Brasileira de Mulheres em Pernambuco, que vai deste dia 05 de março  a junho deste ano, com um grito de alerta: Mulher, seu voto não tem preço. E devia acrescentar nem dono!

   Embora o voto feminino tenha sido conquistado há 80 anos, criei-me ouvindo pais de família dizer que “aqui em casa, todos votam em quem eu mandar”.

   Pior: os eleitores chegavam, especialmente do meio rural, à casa do chefe político, eram revisados e depois recebiam a cédula com o nome do candidato. Dali, eles eram conduzidos ao setor de votação, onde “votavam”, isto é, depositavam aquele papelzinho nas urnas.

   Detentor desse poder, o chefe elegia-se ou negociava o apoio político com o candidato de sua preferência. E eles sempre preferiam aqueles que lhes ofereciam mais vantagens. Mulher candidata, nem pensar. Política era coisa de homens.

   Jamais entendi que a mulher não tinha poder algum. Sempre vi que por trás de toda essa encenação masculina a determinação feminina. Apenas a mulher não aparecia, na maioria dos casos. Mas, onde apareceu, ela foi marcante e decisiva, sem necessitar do título de dama de ferro. A história está cheia de Ester, Cleópatra, Rainha Vitória, Isabelita Perón, e entre nós Dilma Rousseff, em quem votei primeiro pela sua condição de mulher, segundo por ser indicada pelo presidente Lula.

    Contudo, reconheço que a vida partidária brasileira necessita de uma participação mais efetiva da mulher, e um dos caminhos está sendo oferecido pela União Brasileira de Mulheres, com lideranças incontestes como da deputada Luciana Santos, Rejane Pereira, e a inconfundível poeta Cida Pedrosa. Inconfundível porque Cida Pedrosa é alegre, amiga, prestativa, intelectual talentosa, lúcida e atual. Eita! Faltou informar que ela é mãe de vários filhos. Conhece o caminho das pedras.

   Quanto ao uso da internet, e as suas incontáveis redes, só demonstra sabedoria no uso de todos os meios de comunicação.

 

NEIDE MEDEIROS DOS SANTOS

   Dentro do contexto da mulher brasileira, registro que a professora da UFPB e secretária geral da Academia de Letras e Artes do Nordeste /Núcleo Paraíba, Neide Medeiros Santos presta sua reverência, falando sobre o Dia Internacional de Mulher, no dia 8 de março, na sede da Alane /PB, em João Pessoa. A Neide Santos é professora, escritora e crítica literária, de renome internacional.

 

WANESSA CAMPOS

   Já a jornalista Wanessa Campos, escritora e minha amiga, no mesmo dia 8 de março, invadirá armada de faca de ponta e bacamarte o Centro Cultural dos Correios, no Recife Antigo, para lançar o seu livro A Dona de Lampião. Wanessa, a exemplo de Samuel Soares, dedica grande parte vida profissional a enfocar o interior, sua gente, sua economia, hábitos e costumes.

   A Dona de Lampião, Maria Bonita, vem assentada num sólido lastro de conhecimentos adquiridos pela sabedoria e emoção de Wanessa, com as quais soube ouvir relatos e ver os fatos e os transformar em notícias, adicionando-lhe os segredos e mistérios da poesia, a clareza e precisão de um bom texto.

 

Coluna A INTIMIDADE DA PALAVRA

CYL GALLINDO
sociólogo, jornalista, escritor e membro da APL

 

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Editores:

 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cícero Belmar