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A luz Azul

por Geórgia Alves

 

Tempestade. Como há muito não se via. Pior a cada segundo. Não conseguia dormir. Árvores remexiam. O vento uivava como um lobo faminto. Tudo em charco. Não serviam mais as histórias que conhecia. Empurrava o corpo contra os lençóis. Como numa luta. Corpo versus tecido. Houve um estalo quando encostou ao telefone o ouvido.

Descarga. Milhares de volts. Desprendeu do corpo como uma casca desprende dos bagos da laranja. Viu a casca cair, olhou a de longe. Enxergava do alto o corpo estendido no chão da sala. Bateu lhe uma calma vinda não sei de onde. Uma paz eterna. Além do corpo, ali do lado, havia luz intensa.

Gritou para interromper a calma. Teve a clara sensação, não usasse o corpo, mesmo somente na força da voz, não voltava mais. Ficaria para sempre na companhia da luz e tudo seria para sempre e azul. Um sempre que não acaba até que se transforme. Como quando deixou se a apreciar o sol por toda a eternidade. Estava numa energia de mulher. Voltou na condição. Num navio, em companhia do irmão. Era fim de tarde. A luz branca rebentou e a mulher pariu a criança.

A diferença é o lugar, não mais o mesmo. E sente pertencimento nenhum desde então. Dali, do alto onde enxergou o corpo, a visão não era mais a mesma depois do grito. Batente coberto de cerâmica. Diferença da altura de um piso e outro.

A orelha vermelha. O brinco reluzente ajudou a transmitir corrente. Foi uma descarga elétrica, de alta tensão. A tempestade derrubou um galho de árvore que fez encostar um fio no outro. E ela recebeu em seu corpo de adolescente toda a corrente que lhe arremessou ao chão.

Gritou em nome do pai. A força que restou na conexão frágil que tinha. Não foi a única vez que enxergou essa luz. No nascimento do menino que teve também quase partiu. Voltou porque alguém gritou – lhe no ouvido.

Salva novamente pelo grito. Saber de como se dá a passagem aliviou seu inquieto espírito. Perdeu o medo da morte. E aprendeu o valor do grito. Continua a falar baixo com os outros. Talvez para que tenham a chance de entender que não se sai do transe senão por um motivo. Entendeu por vencer a morte, duas vezes, num golpe de grito. A dor para sempre passou. Mas ficou uma certeza azul. De um encontro posterior. 

 

Coluna dacordafelicidade

GEÓRGIA ALVES
jornalista e especialista em literatura brasileira

 

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Editores:

 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cícero Belmar