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Fim do suporte, sub-arte, pseudo-literatura, etc

por Lara

 

Os detratores da pós-modernidade (como um todo) não conseguem ver a bipolaridade da condição humana. Mas esse clima psicológico unilateral, e maniqueísta, esse pendor mental para a compartimentação, não é exclusividade dos herdeiros da literatura canônica. Estamos cansados de saber que qualquer ser humano, sem exceção, tem prós e contras, qualidades e defeitos, aspectos positivos e aspectos negativos. Ninguém escapa. É a “normalidade” concreta. Outra coisa, que eu já repeti outras vezes nos meus escritos, é o seguinte: a pós-modernidade não é um movimento organizado; é apenas uma determinada fase da trajetória humana, extremamente multifacetada, multipolar. Nesse contexto específico emergiram, com força inusitada, determinadas nuances da existência humana que estavam numa espécie de “limbo” cultural, insuficientemente emersas ou abordadas, tanto de direita quanto de “esquerda”, tanto conservadoras quanto transgressoras.

Esse referido problema mental do pendor dicotômico e compartimental, crônico, esse do excessivo apego egótico a um compartimento cultural, em detrimento de outros campos artísticos ou culturais, pode “intoxicar” psicologicamente qualquer artista ou trabalhador cultural, de qualquer tipo. Atualmente, tenho enfatizado a importância das simbioses e sinergias entre os diferentes tipos de arte, sem a hegemonia exclusiva de qualquer uma delas, seja ela qual for: regionalista, alternativa, canônica, pós-moderna, engajada, etc, etc. Enfatizo, portanto, a sinergia entre elas, e não a “ditadura” de uma delas. Parece-me mais frutífera a sinergia entre as diferentes áreas culturais, na atualidade, e não o exclusivismo de uma delas. Também não vou, aqui nesta crônica, detalhar os diferentes tipos dessa ou daquela arte, ou os diferentes prós e contras desse ou daquele campo artístico. Me poupem. Essa missão fica para o digníssimo leitor.

Quando jovens acadêmicos, grandes estudiosos da literatura (reconheçamos), apelam para alguma subespécie de “neo-rococó” sem conteúdo, como se isto fosse o auge da trajetória literária humana, e além disso passam a denegrir abertamente alguns outros tipos de prosa ou poesia, então estamos mesmo num momento histórico em que o caos e a loucura instalaram-se inevitavelmente. Foi-se o tempo em que os doidos passíveis de internação eram apenas alguns semi-loucos inofensivos como eu. Dessa vez, parece que endoidou tudo mesmo. Mas eu sempre torci pra que os “ensandecidos” herdeiros do cânone ocidental tivessem a coragem de falar abertamente sobre as suas mais fundas convicções artísticas ou ideológicas. Pelo menos, se for assim, jogaremos no claro, e não no escuro dissimulado. Chega de simulacros, não é mesmo?

Quando eu critico aspectos castradores do regionalismo e do populismo em geral, os matutistas não gostam. Quando eu critico nuances negativas da contracultura ou assemelhados, os transgressores não gostam. Idem para a herança canônica quando eu faço qualquer crítica aos engessamentos acadêmicos tradicionais. Idem para a literatura engajada, quando eu baixo o sarrafo nos pendores ditatoriais e panfletários da velha esquerda. Ou seja: cada tipo quer saber apenas do seu compartimento, da exclusividade de sua visão pessoal, da eliminação da concorrência. Mas todo mundo, pouco ou muito, tem a suas limitações, os seus defeitos, as suas “aberrações”, de um tipo ou de outro. Do pólo negativo ou do pólo positivo. Excesso de vida pode trazer a morte. E excesso de luz pode trazer a cegueira.

Sendo assim, não é apenas o campo alternativo que tem os seus charlatães. Todos os campos culturais têm os seus, de um tipo ou de outro. Quem tem a “obrigação” de identificar os charlatães de todos os campos é o público consumidor. Se o Estado não investe na ampliação da capacidade crítica de seus cidadãos, isso já é outra estória. Quanto a mim, posso garantir a vocês que não tenho mais esse pendor dicotômico dentro de mim. Que não faço mais pregação da hegemonia do campo independente ou marginal ou underground, ou o que for. Meu negócio agora são as simbioses e sinergias. Não sou mais aquele jovenzinho que acreditava que a sua convicção pessoal encerrava, em si mesma, todas as verdades e certezas. Rogo encarecidamente aos jovens de hoje que não caiam nessa armadilhazinha mental, seja qual for o seu tipo de convicção individual. Roguemos. Oremos. Para que os figurativos não queiram decapitar os intervencionistas, ou vice-versa. Para que os repentistas não queiram eliminar os acadêmicos, ou vice-versa. Para que os “alternativos” não queiram extinguir os novos engajados, ou vice-versa. ETC. ETC. ETC. Para que os diálogos e intersecções e interpenetrações prevaleçam. E a consciência das massas seja expandida e ampliada, no meio desse buruçu medonho, dessa acomodação de diferenças “ensandecida”. AMÉM.

Como eu disse, não quero mais esculhambar nuances específicas de cada área cultural, visando, sorrateiramente, denegrir totalmente ou eliminar a existência de determinado artista, fulano ou sicrano. O problema não é pessoal. É ideológico, cultural. Não quero desqualificar, in totum, a herança “marginal” porque nenhum poema-piada merece qualquer consideração avaliativa. Nem a herança acadêmica por causa do seu “neo-rococó” ultrarresistente. Nem os contraculturais porque gostam de drogas ou peidam publicamente. Nem os engajados porque têm visão de mundo limitada. Hoje eu sei que todos os campos artísticos têm as suas derrapagens e charlatanices, de um tipo ou de outro. Enfim: não vejo motivos para pregar a morte dessa ou daquela área ideológica ou artística. Oremos mais uma vez. Para que a inveja ou a “baba-de-Caim”, ou a divergência político-cultural, desse ou daquele artista, não se transformem em argumentos ou desculpas para implantar a “ditadura” desse ou daquele gosto, dessa ou daquela visão pessoal. Para que aquilo que vem direto do inconsciente coletivo, ou dos sinceros esforços das salas-de-aula, das violas ou dos “escritórios” ou dos guetos, não se julguem donos da Verdade Única ou se vejam eternamente como a opção principal em todos os contextos. Vamos neutralizar os egos e suas pulsões excessivas, doutorais ou não. Regionalistas ou não. Alternativos ou não. ETC. ETC. ETC.

Roguemos. Oremos.

dezembro-2011

 

Coluna Buraco de Minhoca

LARA
  poeta, cronista, contista e recitador

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