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O Amor é filme

por Geórgia Alves

 

Tânia tem uma crença. A crença de Tânia é negar. Ela nega com a intensidade de um leão rugindo, crê que não é capaz de amar. Ou ser amada. Tânia costuma sair à noite com as amigas, bando de leoas à caça. Com o rugido de leão na cabeça. Tânia mal consegue pensar. Tudo é rápido e impulsivo. Até o dia em que outro dilema invadir Tânia.

Desde aquela festa, com a turma da repartição, outro ruído perturba e confunde essa mulher comum. Como se britadeira fosse. A imagem daquele rapaz aciona o incômodo, vai e volta à cabeça. Começou quando Tânia resolveu ficar longe de encrenca, a pretexto de estar no ambiente de trabalho:

- Ah, vamos lá. Nem uma música? Por favor, todo mundo dançando, você não vai ficar aí parada diante da mesa, usando desculpa de tomar conta das bolsas? - Insistiu um colega.

- Estou bem aqui. Usei todas as fichas “esqueça meu mico”.

- Vamos lá. Uma única música. Com aquele rapaz! Ele não para de olhar. E daí?

- Tipo: pague as minhas contas e leve grátis o direito de falar sobre minha vida.

- Exato. Está muito chato ver você aí, parada.

- Ok. Ninguém morreu ou vai morrer por isso. Uma música!

Adianta dizer que Tânia tentou conter? Que Tânia não estava mesmo afim? Que não pensou conhecer mais alguém? Uma música e uma dança foram o suficiente para o moço querer continuar a conversa. Tânia está tonta. Ele quer ficar mais tempo com ela, talvez por causa do seu trabalho? Qualquer coisa do território de Tânia?

Na cabeça de Tânia, a noite passada agora está bramindo. Fremindo. Rugindo como um leão novo. O corpo todo estremece como se estivesse ao som de tambores sagrados. Ele ferve. Está em febre.  Trovões estouram os ouvidos de Tânia. Tudo que faz é repetir em voz alta: Nossas eras não combinam. Nossas idades diferem. Tânia está atordoada, como uma menina. Quantos anos de diferença?! Tânia tenciona mais uma vez a mandíbula. Não se perdoa. E o dilema vai levar Tânia a conhecer o amor. Porque quando existe dilema, precisa olhar o enredo, reconhecer a história em seus detalhes e olhar de novo, com zelo, para tudo que o álcool eliminou, como germes na mesa.

Precisa repassar cada cena, cada movimento, cada gesto, com alguma variedade no enquadramento de câmera. E editar depois. Tânia ganhou crença nova sobre o amor. Porque só há amor se há dilema. Porque o amor é filme.

Nota da Autora: Tânia estará presente para conversas de batente na Tertúlia Interpoética. Pronta para pensar diferente.

 

Coluna dacordafelicidade

GEÓRGIA ALVES
jornalista e especialista em literatura brasileira

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 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cida Pedrosa