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por Geórgia Alves O nome da minha heroína é grego. Ela, por sua vez, é reta e descomplicada. Não faz negociatas. E enxerga tudo, desde o princípio, sem distensões, retrações, refrações, confusões. Ela é mestre de obras. Desde pequena juntava as caixas de fósforos da casa para fazer seus tijolos. Micro tijolos. Tijolo por tijolo ia erguendo as bases e as paredes da sua pequena construção. A maior que poderia pretender. Minha heroína também, desde cedo, tem atração pelo fogo. Espera com alegria guardada a hora de ver o fogo cozer o barro. E transformá-lo. Solidificá-lo. Suprimir toda a água. Endurecer sua viscosidade. Secar o seco. Endurecer o duro. Depois de cozidos pelo fogo para depois serem aquecidos em umidade de lona preta, debaixo do sol. Tijolos por tijolos. Minha heroína tem um dom. Desde menina usa em habilidade as mãos. Habilidade divina de dar forma. Tornar peça. Produzir a coisa. Fazer matéria sólida. Forma e cor e cheiro. Em matéria concreta. Ela toca a sua obra com ternura. Sente a textura do barro, tornado tijolo com mãos delicadas. Nelas as peças cabem como que por encaixe. Ághape. Assim se chama essa heroína. Este é seu nome. Seu destino. Sua sonoridade. Com força e acento. Ela mora em Nova Descoberta. É criança ainda, mas dá sinais de crescimento. E ficará maior. Virar moça. Descobrir o amor ou os prazeres do corpo e tornar-se mulher. Como os tijolos seu corpo estará ao sol, coberto por sua morada. Que como a lona preta que envolvia os tijolos, dar a ela umidade. Depois do passar pelo fogo. Estará aquecida pelo calor do sol. Sua casa, de verdade, está em construção agora. Logo as paredes estarão todas erguidas. O teto retilíneo. As paredes pintadas. As luminárias acesas. Os móveis em medida exata em seus lugares. Logo ela estará a lavar sua louça na pia nova, construída por ela. Planejada em sua altura. Sim, porque Ághape é alta, magra, morena de olhos âmbar, com contornos mais escuros. Seu corpo é torneado e todo em músculos e ossos largos. Ághape só não pensa no amor. E agora que sua casa ficou pronta é que vai aprender a lidar com o ser humano. Aprender que o tempo do outro é diferente do tempo do fogo. Que num ser humano nada exato como o nascer do sol. A certeza da lona e da umidade gerada com o calor. Agora que tem um teto e um lugar onde estender a roupa lavada, Ághape vai enfrenar problemas diários para manter o que conquistou. A timidez vai lhe atrapalhar muitas vezes. Fará a coisa errada em suas melhores intenções. Receberá olhares de inveja, de reprovação, de adoração, de repúdio ou admiração. Muitas vezes não saberá ler as legendas, como nos filmes. Agora mesmo está diante da tevê nova sem pensar em quando vai chegar o amor. Coluna dacordafelicidade GEÓRGIA ALVES jornalista e especialista em literatura brasileira {comments}
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