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Ronaldo Correia de Brito vive momento único na sua carreira, é homenageado na bienal e prepara-se para escrever novo romance por Thiago Corrêa De segunda a sexta, ele deixa seu apartamento no bairro de Casa Forte e segue para o Hospital Otávio de Freitas. Com 36 anos de medicina, usa a experiência para aliviar a sensação de abandono dos pacientes e amenizar suas angústias, seja aplicando os conhecimentos de médico ou simplesmente demonstrando interesse em ouvir o que eles falam. Pode até não parecer, mas essa é a rotina diária de Ronaldo Correia de Brito, um dos escritores mais representativos da literatura contemporânea brasileira e um dos homenageados da VIII Bienal Internacional do Livro de Pernambuco.
Vencedor da segunda edição do Prêmio São Paulo de Literatura, em 2009, pelo romance Galileia, esse cearense que deixou o Crato e veio estudar no Recife, ainda na juventude, vive um grande momento na carreira de escritor. Desde a publicação do volume de contos Faca, em 2003, as obras de Ronaldo têm sido recebidas com atenção pela mídia, figurado nas listas de melhores do ano, aparecido entre os finalistas de prêmios importantes e alimentado a fome por boas histórias. Retratos imorais, título publicado ano passado que ficounem terceiro lugar no Prêmio Clarice Lispector de contos concedido pela Fundação Biblioteca Nacional, já teve seus direitos reservados por Walter Carvalho para virar filme. Um dos contos – Duas mulheres em preto e branco – será levado aos palcos num projeto da produtora e atriz Paula de Renor, e o Coletivo Angu de Teatro ainda estuda fazer uma adaptação do livro. Lua Cambará, conto publicado em Faca que já ganhou duas versões para o cinema, recebeu uma nova adaptação ano passado como espetáculo de dança da companhia Ária Social. “Está sendo maravilhoso, o teatro fica sempre lotado e a gente percebe que está dando certo pelos aplausos do público”, diz a coreógrafa Cecília Brennand, responsável pelo projeto que envolve 45 bailarinos e seis músicos que já se apresentaram em Pernambuco, Paraíba, Alagoas, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. Ainda há o projeto de levar Galileia para a telona. Os direitos do romance foram adquiridos pela Conspiração Filmes, produtora de longas como Eu, tu, eles e 2 filhos de Francisco.
ALFAGUARA “Ronaldo é um dos autores mais importantes da atualidade. Ele está no auge e continua produzindo. É muito importante tê-lo conosco, chega ser uma honra poder trabalhar com ele. É um autor que está além da média”, analisa o editor Marcelo Ferroni, que desde 2008 vem trabalhando com o autor no selo Alfaguara. A empolgação das palavras de Ferroni se traduz no investimento que a editora tem feito no nome de Ronaldo. Só este ano, ela já publicou o volume Para ler na escola, que reúne crônicas do autor escritas para a revista Continente e o site Terra Magazine, a versão teatral do espetáculo infantil Baile do menino Deus (escrito em parceria com Assis Lima) e ainda vai lançar as peças Bandeira de São João e Arlequim de Carnaval. Como forma de coroar esse bom momento vivido por Ronaldo, a Bienal Internacional do Livro de Pernambuco decidiu homenageá-lo oferecendo uma programação intensa em torno de sua literatura. Além da saudação que será feita pelo professor de Letras da UFPE, Lourival Holanda, o escritor terá sua obra analisada pelo crítico Cristhiano Aguiar, conversará com alunos do colégio Damas no Encontro de Protagonismo Infantil e será entrevistado pelo jornalista Rogério Pereira, numa edição especial do Paiol Literário, do jornal curitibano Rascunho. “Trata-se de um dos escritores mais respeitados de nossa literatura contemporânea. Um autor de intensa criatividade, que tem conquistado o público e a crítica no Brasil e no exterior com seus livros e espetáculos teatrais. A homenagem da Bienal expressa a gratidão dos pernambucanos, é mais do que merecida”, afirma Rogério Robalinho, produtor cultural do evento.
Apesar de todo esse reconhecimento, Ronaldo não se ilude com os elogios, mantém a serenidade, faz questão de lembrar que isso é fruto de muita dedicação a um projeto de trabalho. Desde a década de 1960, quando veio ao Recife para estudar, ele se divide entre a medicina e as atividades no campo cultural, realizando entrevistas com mestres populares, filmes documentários, longas-metragens e peças teatrais. Mas a literatura sempre teve um lugar especial no projeto de Ronaldo. Seu primeiro livro, o volume de contos Três histórias na noite, foi publicado em 1989 após ter vencido um concurso literário promovido pelo Governo de Pernambuco. Depois, o autor teve publicadas as versões em prosa das peças infantis Baile do menino Deus (1996), Bandeira de São João (1998), Arlequim (1999), e a coletânea de contos As noites e os dias (1997) pela editora Bagaço. “Não posso deixar de referir como de máxima importância meu tempo na Bagaço. Tenho um vínculo com eles porque foram os primeiros que me publicaram. Mesmo sendo uma editora local, meus livros se espalharam”, reconhece o escritor. Mas foi com a publicação dos volumes de contos Faca e Livro dos homens (2005) pela Cosac Naify, por onde também saiu a novela infantil O pavão misterioso (2004), que o nome de Ronaldo ganhou projeção nacional. As coletâneas foram indicadas pelos jornais O Globo e Estado de S. Paulo em suas listas de melhores do ano e estiveram entre os finalistas do prêmio Portugal Telecom. O ponto de virada na carreira de Ronaldo, no entanto, deu-se, mesmo, com a publicação de Galileia, que marcou a estreia do autor no gênero romance e lhe rendeu os R$ 200 mil do Prêmio São Paulo de Literatura. “Foi uma virada porque talvez eu tenha inaugurado um novo sertão, um novo olhar sobre o que fica além do litoral, essas terras de trás. Eu, que tanto admirava a épica de Guimarães Rosa, Euclides da Cunha e Ariano Suassuna, desmontei completamente essa épica para escrever Galileia”, avalia o autor. “O prêmio deu uma boa impulsionada, fez o livro mudar de patamar. Geralmente, os livros vendem bem no início e depois estagnam. Com Galileia não, ele sempre vende uma boa quantidade a cada mês”, explica Ferroni. O editor ainda observa que o prêmio ajudou a impulsionar a trajetória do livro no exterior, que já conta com traduções para o francês, espanhol e alemão. “Isso tende a crescer ainda mais com a participação do Brasil na Feira de Frankfurt em 2013. Começamos a perceber um interesse maior das editoras estrangeiras pela literatura brasileira e já estamos trabalhando para ajudar nisso, traduzindo também trechos do romance para o inglês”, completa Ferroni. Com todas essas perspectivas de fortalecer ainda mais o seu número de leitores, Ronaldo não se acomoda e já trabalha no seu próximo romance. “As pessoas vão ficar surpresas se a expectativa for a de encontrar Galileia. Nesse sentido sou um escritor muito frustrante, porque gosto de me desmontar. Corro um risco, mas fazer arte é correr riscos. O perigo maior para um escritor é cair na armadilha dos truques, descobrir um caminho fácil de escrita, de temática e se repetir”, adianta. THIAGO CORRÊA jornalista e escritor Este texto foi publicado originalmente na Revista da VIII Bienal Internacional do Livro de Pernambuco. Foto: Carolina Pires
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