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Hospício

por Alexandre Furtado

 

A manhã abriu-se vermelha, como víscera que espirra ao ser cortada de repente, um tumulto na calçada com toda a gente. Percepções aproximavam-se sem saber direito o acontecido, como que indicassem algo diferente no oco barulhento do trânsito, das pessoas apressadas e os resquícios da noite.

A cidade não desconfiaria, de muito alto, como ela via o rio tocando as bordas de seus olhos, o último reflexo do sol, ela desapareceria em segundos inaudíveis. Uma espécie de flagrant délit cometido a si própria, antes do arrependimento, bem antes da víscera, pois abria-se um campo durante o sonho vertical que beijaria o chão em impacto surdo.

E ninguém soube ao certo quem era, seu nome, sua idade, se tinha filhos e demais coisas, sem muitas perguntas pelo medo de saber que um dia deixaremos o que ainda não sabemos, a realidade, mas ela em nenhum momento deixou de saber, não desconfiara no último segundo se isso importava, afinal, a impressão de que tudo continuaria estando ou não por perto da urgência era a sua certeza. Com ou sem ela, nada para contar sobre as rotações, os dias e as noites, a falência dos corpos, o vento sobre as árvores. Pois o segundo foi já, como a impressão dos anos.

Mas que se dia do momento de suspensão, tudo antes do voo como se durasse horas, olhou a sala de seu apartamento entre as gravuras amareladas, os livros enfileirados em prateleiras, fatigadas coisas que não tinham mais sentido, lugar nenhum para vaidades e frivolidades quaisquer, a sombra de seus olhos. Tudo muito invulnerável aos horários, sem mais quartas-feiras, nem quintas, qualquer um era dia, se havia missa na Soledade, se o relógio da Faculdade de Direito, tudo um amontoado de cacos quebrados pelo chão das horas, tanto faz.

E piscou sorrindo para dentro enquanto a luz passava os dedos pelas cortinas. A janela aberta convidava para um outro momento, um Recife de alturas desiguais e por toda parte as sujeiras humanas de décadas. Então, foi quase agora quando segurava a mão de seu pai em direção à escola, à igreja quando se casava, quando ao hospital o marido segurava-lhe com um sorriso pela criança perfeita, e foram três que se formaram, saíram de casa e tiveram suas casas e seus filhos e suas vidas tão rápido assim como um estralar de dedos. E depois foram aos poucos os tios, pais e irmãos, para o descanso, quando iria não sabia.

Nos domingos, eventualmente recebia netos e genros e noras com um amarelo no rosto, ou a vizinha que lhe trazia um pedaço de bolo como se cumprisse a missão de ajuda aos idosos. E comia sem vontade, sorrindo como agradecimento para a moça que não mais reconhecia se enfermeira ou empregada. Mas o que mais na vida? Lembrou-se dos dentes afiados das horas mordiscando as tardes e as noites sem nada a fazer, o quanto ultimamente mastigavam as carnes de seu coração, pela inutilidade de viver, o que mais esperar? Perguntava-se nesses últimos.

E tantos aniversários e docinhos, e batizados calorentos, e almoços de domingo cheios de gente, e as louças todas para lavar, e os pequenos encontros com irmãs com as mesmas rotinas, e as listas de livros a cada ano e aulas de recuperação para os filhos, ceias de natal e tudo mais que pedia o que faz da vida uma vida e a civilização que não sabe o que, e quando o quanto se aperta os pés inutilmente, as mãos e o coração numa espécie de tortura vagarosa. As horas todas e a realidade com seus tentáculos invisíveis, uma interrogação sobre se valeu a pena, durante um minuto, o que valeu, o que vale?

Então os passeios pelo Treze de Maio aos domingos, depois da matiné de mãos dadas. Vez e quando um sorvete de tangerina na Frisabor, outras tardes assim de verão na Botijinha. E no caminho uma parada para uma prosa rápida sobre dia, sobre a vida, as cadeiras e as calçadas. Parece até que a saúde ia sento reposta numa simples conversa, com o balanço da vida e as cadeiras. Ou ainda, quando se pensava em moças e rapazes no Savoy, ou nos temores dos pequenos quando escutavam sobre a perna cabeluda. A vida seguramente mais devagar, quando o dia terminava às seis horas sem o horror do trânsito, nem medos de assaltos e sequestros súbitos.

O tamanho de seu coração lembrou-se da história de sua avó sobre o alvorecer dos botos, e a pergunta que sempre tinha, como dormiam os botos do Capibaribe. O rio também dormia em braços de lama morta. Um relâmpago de coisas como luzes que rapidamente se apagam e mostram o escuro da manhã que nasce na sala de tacos e mobília antiga. A senhora diante de uma outra cidade diante de seus olhos. De longe, um zumbido mecânico, um barulho de vespas agitadas. A turba invadia devagar seus ouvidos, os cômodos do apartamento, o barulhos dos pés e das rodas, e toda a poeira que subia e deixava os ares escuros e pesados.

O contraste das lembranças levantam coisas, como perguntas assim, quando é mesmo onde? Começa-se mesmo em que dia? Quando de fato inauguramos a vida? Se é que .... inauguramos, ou somos inaugurados... e, de repente, uma rua que mastigando o caldo bruto e devolvendo imediatamente em calor hipnótico e sebo, em coisa fétida a céu aberto, meio dia, no meio da tarde, junto aos outros odores de comida e desperdício numa rua que não se confessa aos pés da Imperatriz, que não mais sorri ao lado do teatro, nem conhece as relíquias do Instituto. Sem parar, sem parar, sem parar esquizofrenicamente as coisas atropelas. Pois à noite, a sua rua que fora caminho de muitos encantos, onde seus avós moravam, agora não mais vizinhança antiga, mas lixo e esgoto, como sobejo dos dias, as coisas mais normais e aceitáveis, como ainda o comercio variado de gente e seu serviço barato, drogas e violência, onde as décadas anteriores? Os pedaços soltos e sem formas de remendo levam-nos para onde?  Como deixamos de ser nessa Hospício?  

Já era de um agora mais que urgente e no adiantado da hora necessidade zero para despedidas. Muito já se fora de repente. Então foi desse jeito, se beijara os pais e de alguns amigos também já mortos, os netos amados que não mais seguraria no colo, os filhos cansados, a hora marcada de cada um. Sem protocolos.

Como sonhos deixados nos dias e nas agonias e nos ontens, no minuto da moça, enquanto trocava de roupa e conversava com a outra que rendeu a noite, juntou o mínimo de forças, ela já curvada, e levantou-se. Foi em direção à varanda pequena e olhou para uma outra cidade, para suas mãos enrugadas, tudo começava a ferver. Sem remorsos, puxou com dificuldade a cadeira e subiu. Olhou novamente e não mais pensou. Tudo muito calmo, como um anjo de camisola branca descendo degraus de ar.  Foi quando a manhã abria-se vermelha aos da rua, de repente, um tumulto na calçada que rapidamente se enchia de gente. Elas todas acordando de um pesadelo cotidiano, pelo que viam, acordavam para uma outra realidade, uma falsa aurora que prepara o devoto inexperiente para o que acontecerá com absolutamente todos, um dia, então, como se num piscar de olhos, não seremos mais, e então aquele anjo idoso, de cândidos olhos fitavam o nada, caído sob as últimas pedras portuguesas do centro, fazendo jus à loucura diária, ao nome da rua, ao que não se explica.

Coluna Letraviva

ALEXANDRE FURTADO
escritor e professor

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Editores:

 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cida Pedrosa