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FRONTEIRAS

por Alexandre Furtado

 

... às vezes penso no contorno que as palavras emprestam às coisas, como se através dele pudéssemos moldar o corpo, qualquer um e seu alcance e seu formato e o jeito das palavras e as coisas que surgem a partir delas como dizia o filósofo, as palavras e as coisas, mas aqui, aqui e acolá, as coisas modificando-se com o passar dos anos, suas cores e cheiros, pois as palavras ganham novos corpos e neles outros contornos, penso então no limite, se haveria algum limite, entre todas elas e tudo mais, na verdade, agora a palavra que persigo, mais ainda em seu plural e o seu alcance abraçando o inesperado todo que se (des)encontra, é fronteiriça, assim mais ou menos definida, pois que é exigente traduzir a ideia de fronteira, pensava em ser tão simples, definir fronteira como coisa limítrofe, uma fissura entre duas ou mais partes, mas vejo que ultimamente vem ganhando desenhos quase impossíveis de traduzir, podendo ser, por isso, tanta coisa como qualquer palavra que engorda com os anos, que se alarga pachorrenta no tapete da sala do dicionário e se confunde com outras palavras que de forma promíscua reproduzem sentidos outros, daí você nunca imagina que as palavras com vida própria namoram, se beijam e se acasalam fecundando sentidos múltiplos, a fronteira, as fronteiras das coisas podem ser sempre mais alguma coisa, outra dentre muitas juntas, podem ter sempre mais alguns metros de distância, pois que assim o façam em sua dinâmica que por vezes consegue determinar ângulos semoventes,  enxergar a cor da alma, a dor calma das mãos, a palma nos mínimos que se desdobram em linhas assimétricas da quiromante, não se contentando com isso fosse mais além até chegar ao invisível e deixar de ser fronteira para ser além dela, mas pense que o denso passar dos anos dá às palavras novos sentidos e com isso novamente confundem eles os contornos de cada uma delas aumentando o que chamamos de fronteira que também de tudo se torna relativo, contudo, eis que os nomes mudam e o nome cidade também se dilata e nessa conversa Recife se dilata e se verticaliza e nele suas coisas e suas imagens e nós próprios e nesses eu e a Boa Vista que também guarda suas Fronteiras, ora de tempo, ora de memória, ora de espaço, ora de horas, ali perto da Paissandu, ao lado da Henrique Dias, perto da Dom Bosco, um trajeto curto em L, uma rua que na época talvez fosse como se fosse a fronteira da cidade, ou coisa parecida que leva o nome, ou coisa parecida que se (re)inventa, mas que agora é trajeto em L murcho e triste e coberto de novas famílias cujos nomes e sobrenomes são esses: clínicas, farmácias, consultórios, salas de espera, depósitos de coisas, depósito de gente, ambulatórios, laboratóricos laboratórios, hospitais, como se dissessem todos que são todos parentes e doentes do mesmo sangue e estirpe verde justamente por ali, e eu digo que conheci esse curto trajeto diferente, sem todavia adoecer, mas curar-me da alucinada rapidez das coisas que nos deixam atônitos, questionando se há algum poder de mudar ou parar as coisas indesejáveis, mas digo antes de tudo que na verdade morei nesse trajeto em L chamado Fronteiras, pois foram anos de fronteira, alguns anos e só o bem os reconheci muitos anos depois, ou quem sabe, fora apresentado ao trajeto em L no antes de somente quando os comentários dos mais velhos falavam da rua que era de belezas, aliás, apresentavam-me outros sobrenomes, os Almeida, os Baltar, os Suassuna, apresentavam-me outro nome de cidade, de um lugar sem alturas, nem velocidades, Recife que parecia ser outro, que se esperava visitas “inesperadas” aos domingos, e que para elas faziam-se bolos, para elas o lugar melhor no sofá e também o melhor ouvido para as novidades pequenas da vida pequena dos outros, o passatempo comadreiro, e também que se escutava as batidas solenes da igrejinha que Dom Helder, e hoje as batidas são de estaca para o novo edifício garagem, talvez seja por isso que se explique o enrugamento, os cabelos brancos da rua, como preste a descascar a pele gasta dos dias e das fuligens, hoje a rua com o tombar de cada casa a cada troca de lua, como se nos alertasse que para se manter viva um sacrifício, a rua e cada brilho tivesse que trocar de roupa, e se fosse só isso um tudo, seria tudo bem poético, mas a questão é que as coisas e o mundo parecem às vezes sem sentido, se não todas, pois parecem não precisar de noite, de luas, de você, de nada, pois a cidade parece não precisar, vejamos que pela manhã e por quase todas as tardes a cidade salta e some diante dos olhos, vai sendo roubada sem que nem a percebamos nos seus detalhes mais interessantes, o que era e o que é e o que sendo já passa a ser tudo que supúnhamos ser sólido, como disse o pensador, de fato a vida vai se desmanchando no ar e depois a rua com sua pousada mão na porta olhando para si e fechando o postigo e fechando-se em antigamentes, e quem quiser que se lembre e tudo isso como é esquisito, deixar de existir e existir somente na lembrança que não tem corpo, as coisas morrem como? Tivesse eu que mudar, só bem devagarmente e com certinha a decência, mas, num instante é labiríntico e nos perdemos no que se torna vida e isso não é de alguma forma assim fronteiriço? Enfim, sendo ou não, o fato é que morei na rua das Fronteiras por bons anos e uma boa quantidade de coisas aconteceram conosco, dias de fato reconhecidamente felizes, azuis em plenitude e sob a autoridade do Sem-Nome onipotente que se chama de Deus, taí uma palavra que não se comporta, Deus, um mistério como fronteira, assim como os vários dias de rotina composta de levar menino pra escola, fazer compras inúteis, os dias de almoço partilhado, a restauração do sensível silêncio quando chovia e havia o jasmineiro em meu nariz, e as gotas vivas nas poças repletas de salivas de nuvens cinza, e prata de chuva no condutor de água ao pé do ouvido e ainda quando nesse tomávamos café no terraço calados e ouvintes do milagre da vida que se deitava quieta nas minimidades, bom, muito bom ouvir as gargalhadas das cigarras levadas quando elas sentiam o cheiro de terra molhada e entranhada de uma falsa ideia de passado longe, pois teve já um momento em que se pensava que o passado era longe, mas que tolice, ele está aqui bem vivo e sem corpo, apenas no contorno da palavra que engorda com os anos, vejo que o passado nem é tão estrangeiro assim, nem tão no outro hemisfério assim, se é que podemos dizer que vivemos no sul já que a terra é solta no espaço, por isso, o traço se esconde na verdade de água ou de ar ou de fogo ou de terra que se enrosca nas teias do presente e se confunde com os minutos que se dizem agora e ainda depois dizem acender a luz quando caminhávamos à cozinha para esquentar o munguzá gordo e fresquinho com leite de coco, misturados em êxtase pelos movimentos dos dentes e da memória, pois lembrávamos dos primeiros munguzás já comidos e tudo isso quando chovia nas Fronteiras, a cozinha de lá tinha chão de mosaico geladinho quando chovia e quando dias assim a casa guardava a umidade do mundo nas paredes pois a mais interessante quietude de fora habitando por completo a sala de jantar daquela casa de alto pé-direito e suas janelas grandes de madeira quando abertas ao sereno e ao sabor doce no céu da boca junto ao céu dali envolto de bem querer, em que resultava tudo isso, então? Qual finalidade percorrer essa imagem que tem cheiro e gosto? Rica e sem propósito sensação de gozo que é gratuito, significa isso o amor? A verdadeira experiência do amor é gratuita? Somos na verdade gratuitos? O que pedimos da vida? Justifica-se viver assim, a ponto de querer repetir a dose boa dos anos com as palavras? Entende agora por que penso nas fronteiras? Nas Fronteiras? Onde acabam elas? Onde começam e terminam as melhores e piores lembranças que nos fazem seres de um tempo sem relógio? Com estrelas no véu dos olhos abertos e chapéus de panamá e botas amarelas, quem sabe podemos em desmantelo, quem sabe podemos entender o tal provisório de Pena Filho, aquela chuva de cajus e Cardozo, o que cada um pode referenciar no seu vocabulário próprio e local, o tudo que possa arranhas o  significado do presente, as fronteiras sendo um mistério quase tangível, a impressão de que nunca sabemos ao certo onde as coisas do mundo, quando se começa a morrer e como se não houvesse um fim, nascer para outra coisa, apenas uma continuação, ou uma sucessão de fatos que não vivem encarrilhados, mas amontoam-se desordenadamente como sinal de clarividência que se coloca à leitura, se soubesse à época, aproveitado mais os segundos todos que vivi ali, de quando Clara tentara fugir com uma bolsa e uma boneca e nós surpresos e tensos a pegávamos já na Paissandu, de quando nascera Lucas e seu batizado e a feijoada e a cerveja gelada no quintal com fruteiras, os sucos de pitanga em dias quentes, a comida arranjada depois da praia, o primeiro banho de chuva, ensopados e ridículos, de quando os natais eram repletos de risos e abraços, um hábito sem sentido a não ser pelo desejo inconsciente de repetir-se em felicidade, o vívido e comovente, a vontade de tocar à rua como era daquele modo, desse modo, existe agora enquanto passagem de carros e pessoas quem não sabem e não querem e nem precisam saber de qualquer coisa dali, coisas como os natais, as festas de São João e Pé-de-Moleque, um bolo úmido e único, e também as manhãs de domingo e o café mais tarde em quase dez horas quando recebíamos os outros que chegavam para o último gole de café com pão e manteiga, tudo isso que parece estar longe, mas que continuam hoje, misturando-se às novas que são outras como nós mesmos que somos os mesmos, mas somos os outros que driblam os limites e as fronteiras com falso gosto novo porque a vida é vazia, nós é que somos cheios de imagens e palavras para nos entender e isso não é o que importa, mas o que pensamos que importa, e cada um se porte com a porta que deseja abrir e fechar, o extraordinário exercício de coragem ao deixar-se sem roteiros, às vezes como Oruborus volto ao começo quando penso que termino e nesse ponto penso no contorno que as palavras emprestam às coisas, como se através dele pudéssemos moldar o corpo, o alcance e o formato das palavras e as coisas que surgem a partir delas com seus tons de azul e vermelho, modificando-se com o passar dos anos, pois as palavras ganham novos corpos e neles outros contornos, penso então no limite, se haveria algum limite, entre todas elas e tudo mais, o inesperado todo que se (des)encontra, tudo não seria então fronteiriço? Assim mais ou menos definida, pois que é exigente traduzir a ideia de fronteira, uma fissura entre duas ou mais partes, mas vejo que ultimamente vem ganhando desenhos cubistas e dadaístas e podendo ser qualquer coisa, por isso, tanta coisa como qualquer palavra que às vezes engorda com os dias e os anos, que se alarga pachorrenta no tapete da sala do dicionário e se confunde com outras palavras que de forma promíscua reproduzindo sentidos que achamos sólidos e ouros e outros, daí você nunca imagina que as palavras com vida própria namoram, se beijam e acasalam fecundando sentidos múltiplos, a fronteira, uma rua coração, uma palavra e seu corpo, as fronteiras das coisas...    

 

Coluna Letraviva

ALEXANDRE FURTADO
escritor e professor

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Editores:

 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cícero Belmar