Anamauê, swingueira e outros monstros

por Wellington de Melo

 

"Quem segura o porta-estandarte
Tem a arte, tem a arte
E aqui passa com raça eletrônico o maracatu atômico
Anamauê, auêia, aê"

–Jorge Mautner

 

Quando disse a um amigo que iria tocar no Cor­pos Per­cus­si­vos, grupo de mara­catu de Jorge Mar­tins, des­co­bri um novo subs­tan­tivo: ana­mauê. Eu lem­brava como a pseudo-interjeição e anti-refrão da música Mara­catu Atô­mico, regra­vada pela Nação Zumbi, e não estava total­mente enga­nado, pois o termo, algo pejo­ra­tivo, repre­sen­tava, segundo esse amigo, um indi­ví­duo, essen­ci­al­mente per­nam­bu­cano, de classe média, branco de pre­fe­rên­cia, que inven­tava de tocar mara­catu para “reen­con­trar suas raí­zes”, mas que não tinha qual­quer rela­ção com o can­dom­blé ou com a umbanda, que cir­cu­lava nes­ses meios para ser alter­na­tivo ou coisa do tipo.

Eu tinha come­çado o mara­catu a pedido de minha mulher, que que­ria há muito que tivés­se­mos alguma ati­vi­dade jun­tos.. Como recu­sei mil vezes fazer dança de salão, sur­giu a ideia do mara­catu. No entanto, ape­sar de, para mim, aquele ser só um momento de encon­tro com minha esposa, um espaço em que pode­ría­mos com­par­ti­lhar expe­ri­ên­cias, eu era agora redu­zido a um ana­mauê. Era, no mínimo, curi­oso. Esco­lhi o Cor­pos por­que Jorge tem, além do grupo ‘pago’, um tra­ba­lho com a comu­ni­dade do Pilar, em que tenta mudar um pouco a rea­li­dade dali. Em nosso grupo, no entanto, só havia ana­mauês.

Con­ti­nu­a­mos os ensaios e segunda de Car­na­val foi o dia do ‘batismo’: sair pelas ruas do Recife Antigo tocando. Dias antes, outro amigo, ao saber que eu toca­ria, admirou-se. “Poxa, olha aí, um inte­lec­tual orgâ­nico!”. Seja lá o que isso for, ima­gi­nei que fosse algo pare­cido com o ana­mauê do outro amigo, embora pare­cesse menos pejo­ra­tivo. “Inte­lec­tual orgâ­nico”. Mais um rótulo para minha cole­ção, que não deve ser pequena. Mais uma vez, engra­çado, por­que pen­sei na quan­ti­dade de rótu­los que levo pelas coi­sas que faço, como se as pes­soas sem­pre achas­sem que hou­vesse um motivo maior em cada ação nossa sobre a terra. A mai­o­ria dos pro­je­tos que desen­volvi, por exem­plo, tinha na essên­cia a mesma coisa: o encon­tro. Só isso. Ainda assim, era pre­ciso rotular.

Che­guei ao espaço do Cor­pos cedo e foi inte­res­sante ver, de um lado, os meni­nos da comu­ni­dade do Pilar, que par­ti­ci­pam do pro­jeto social de Jorge Mar­tins, botando para que­brar na per­cus­são; havia uma menina que tocava incri­vel­mente, com um pra­zer arre­ba­ta­dor e uma téc­nica impres­si­o­nante. Do outro lado, bran­cos de classe média (ana­mauês?), alguns estran­gei­ros. Nos bra­si­lei­ros, dava para ver quão inti­mi­da­dos eles fica­vam pela desen­vol­tura dos meni­nos do Pilar. Ao mesmo tempo, eu notava que, enquanto toca­vam, alguns meni­nos olha­vam para os ana­mauês (eu no meio?) com um risi­nho. Pare­cia alguma espé­cie de deli­mi­ta­ção de ter­ri­tó­rio. No ensaio, notei que seria dife­rente do que havia ima­gi­nado, por­que toca­vam algu­mas coi­sas que não tínha­mos visto nas aulas, inclu­sive swin­gueira. Neste último caso, a pri­meira coisa pre­con­cei­tu­osa que pen­sei foi: “se a inte­lec­tu­a­li­dade do Recife me vir tocando swin­gueira, posso dizer adeus à minha repu­ta­ção”. É, pare­cia que eu era um ana­mauê.

Jorge che­gou e come­ça­mos a ensaiar. Eu, crente de que estava tocando até ras­za­vel­mente, fazendo minha mar­ca­ção direi­ti­nho e tal, me sur­pre­endo com os meni­nos tocando umas duas ou três notas a mais, inter­ca­la­das à mar­ca­ção. Com­pre­endi o que era ‘nível avan­çado’ naquele momento. Des­ce­mos depois do aque­ci­mento para a Rua da Moeda. Jorge nos orga­ni­zou e eu fiquei na fila da frente dos tam­bo­res, que fica atrás dos cai­xas, agogôs e abês, nesta ordem, creio. À minha esquerda, um dos meni­nos que tocava como um demô­nio. Como sou pro­fes­sor, desen­ca­nei com a qua­li­dade deles, sabia que era uma ques­tão de talento e de nível mesmo. Como não pre­ten­dia ser per­cus­si­o­nista, tranquilo.

Foi então que o menino perguntou:

“Você sabe ler?”

Pen­sei que ele estava falando de par­ti­tura. Fiquei na dúvida e per­gun­tei “Como assim?”

“Ler, ler, ler. Pala­vras, assim.”

“Sei. E você?”

“Não.”

Ele disse isso bai­xando os olhos e vol­tando a tocar o tam­bor. Pare­cia que tocava com mais força depois daquilo. Esta­ria enver­go­nhado em se expor? Teria ficado com raiva, mais uma vez, des­ses bran­cos que inva­diam o espaço dele? Teria sido a per­gunta um grito de socorro? Pen­sei em dizer “Mas você toca tão bem, tem tanto talento!”. Mas não disse nada, fiquei calado, man­tendo o muro de silên­cio que sepa­ram as clas­ses no Bra­sil, esse acordo tácito de que somos iguais, de que pode­mos nos mis­tu­rar, de que as dores são as mes­mas. Na ver­dade, doeu-me muito o sen­ti­mento de impo­tên­cia, de que­rer aju­dar, mas não poder fazer nada naquele momento. A dis­tân­cia entre nós era maior do que o espaço que ocu­pá­va­mos naquela pri­meira fila de tambores. Eu pen­sava aquilo enquanto o mara­catu per­cor­ria as ruas do Recife Antigo. E o mara­catu acon­te­cia a des­peito de meus pen­sa­men­tos, entre um com­passo e outro. Tum, tum tum, tum tum, tum.

Che­gou o momento da swin­gueira e pen­sei “Pronto, é isso..” Mas, para minha sur­presa, não senti qual­quer ver­go­nha. Naquele momento, entendi que a música era quando nada inte­res­sava, pelo menos por um ins­tante, aquele entre um com­passo e outro, quando o cére­bro e o resto do corpo só se pre­o­cu­pam com o ritmo. Em saber que, depois do “Quem é você?” do refrão, deve­ria vir uns seis toques aber­tos de tam­bor, depois um aberto e um fechado, um aberto e um fechado, na mar­ca­ção. Tum (aberto), tum (fechado), tum (aberto), tum (fechado).

Esqueci, naque­les momen­tos, o estigma social que pos­sui a swin­gueira, a miso­gi­nia, tudo o que me sepa­rava dos meni­nos do Pilar, dos grin­gos e dos (outros) ana­mauês. Eu era ape­nas o segundo tam­bor da pri­meira fila. Por­que, no final, são só rótu­los. Ana­mauê, inte­lec­tual orgâ­nico, swin­gueiro, batu­queiro, escri­tor, alter­na­tivo, ale­grista, o escam­bau. Nada impor­tava, ape­nas o calo na base do indi­ca­dor e o pró­ximo com­passo. Vol­tou o mara­catu. Tum, tum tum, tum tum, tum. De que importa se o menino do meu lado nem sabia ler, se no bairro dele as únicas alter­na­ti­vas eram o mara­catu, o fute­bol ou trá­fico? Eu sou um inte­lec­tual orgâ­nico! Ante­nado com minhas raí­zes! Swin­gueira. “Quem é você? Quem é você? Quem é você?” Anamauê? São só rótu­los, ora bolas! De que importa se as letras des­sas músi­cas tra­tam as mulhe­res feito lixo? Tum (aberto), tum (fechado), tum (aberto). Não são elas que dan­çam mesmo? E os meni­nos nem sabem le r mesmo! Maracatu, ymalê. Tum tum, tum tum, tum, tum. Viva a igual­dade! Que importa se a branca na segunda fila estava irri­tada com a swin­gueira e que­ria tocar mara­catu, suas raí­zes, não aquela música de pobre? Swin­gueira. “Quem é você?” Todos ali, na música eram iguais, até o gringo que man­dava a mulher dele tirar fotos para ele se exi­bir com os ami­gos na Caro­lina do Norte. Mara­catu. Tum tum, tum tum, tum. Swingueira. “Quem é você? Quem é você? Quem é você?”

Sem res­posta. Ainda.

 

COLUNA VÉRTEBRA

a vértebra
só fragmento
portanto
completa
porquanto
inexata
precisa
já que
intacta
a fratura
a vértebra

 

WELLINGTON DE MELO
é escritor
{comments}
  Voltar à página inicial


Flash player required!






Banner




quem somosfale conoscoportfoliolinksclipagemhotsites

Editores:

 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cida Pedrosa