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As Máximas Irrefutáveis do Dr. No

 

por Wellington de Melo


Após o fim do Protetorado Soberano da Nova Bulgária e da morte da Raposa, decidi tirar uns dias de férias dessa coisa de vida literária e fui à Jamaica. Queria conhecer a terra de Bob – antes que perguntem, não, não fumo. Nunca fumei. Se fumasse, com as ideias loucas que tenho, seria uma força da natureza incontrolável.

O primeiro ponto turístico que quis conhecer foi o Trenchtown Reading Centre, biblioteca comunitária na maior favela do país.  Na frente do TRC, sentada num latão antigo de azeite holandês, uma figura esguia e pálida, uma bata no estilo chinês; no lugar da mão direta uma prótese negra . Na mão esquerda, um livro (As horas, se não me engano), que lia tranquilamente até que se levantou, veio até mim, e,  sem cerimônia, pediu dinheiro para a passagem. Seu rosto me era familiar, mas não pude reconhecê-lo no momento. O destino e minha curiosidade me fizeram abandonar o desejo de roubar um livro da biblioteca jamaicana e oferecer ao estranho uma carona na bicicleta que aluguei no centro.

Sua casa – que era na verdade um barraco de madeira e plástico preto, desses pra contenção de barreiras – ficava ali mesmo, em Trechtown. Do outro lado da rua, em frente à biblioteca. Suspeitei que a coisa do dinheiro para passagem era um engodo, mas dei uma de mané-sem-braço. Ofereceu-me um copo d’água e uma lata de goiabada. Aceitei. Quando vi nas paredes da casa vários posters de Sean Connery com dardos nas bochechas e um altar com a foto de Ursula Andress saindo do mar com uma peixeira na cintura, descobri:  o estranho leitor tratava-se do Satânico Dr. No. Peguntei. Ele alertou que a coisa do satânico foi lance de tradução e pediu que o chamasse de No. Ou Dr. No, se preferisse.

Nossa conversa durou uns quinze minutos e mudou minha vida completamente.

Ali, sentado num sofá bufento, comendo goiabada vencida e tomando água salobra, ouvi Dr. No resmungar sobre seus fracassados planos de conquistar o mundo e o plano espacial americano, que ignorei porque tentava disfarçar que não jogava toda a goiabada estragada pela janela. Antes de continuar a história, um parêntese sobre Dr. No.

Eu havia lido em algum anuário de Estudos Culturais da UFPE, lá pelos anos 90, que No tinha escrito pelo menos dois romances importantes nos anos 70, lançados na Inglaterra e nos EUA, e depois desapareceu definitivamente da cena literária. A reclusão de No sempre foi uma incógnita para mim. A verdade é que a recepção fria da crítica da época parece ter abalado profundamente o sensível escritor. Ele me falou sobre sua passagem em um retiro espiritual em Dallas, sobre sua incursão frustrada na poesia concreta e, mais importante, sobre a obra da sua vida: seu livro de máximas, que veio a ser o livro doutrinário da religião que viria a fundar ainda nos anos 80: o Alegrismo (Joysm, do inglês moderno).

Fiquei curioso, pois não era a primeira vez que ouvia o termo. No percebeu meu entusiasmo e levou-me a sua biblioteca, que ficava nos fundos do barraco. Um dado: 70% dos livros eram de sua autoria. Sua biblioteca tinha 10 livros. Entre os 3 livros não escritos por No estavam The Idiot (edição bilíngüe em russo e inglês, 1962), The Hitchhiker's Guide to the Galaxy (rara edição em inglês com prefácio abusado de Bauman) e uma edição fac-sílime de 1775 das Obras Poéticas de Gregório de Matos. Suspeitei que esses livros tivessem inspirado No na concepção do Alegrismo, mas não ousei perguntar. Entre os sete livros escritos por No,  seus dois romances esquecidos: Praias prateadas (a tradução em português gera uma aliteração acidental , diferente do original e insosso Silver beaches) e O gemido das hostes indolentes (The wailing of the indolent hosts), que foi erroneamente traduzido em sua edição brasileira como O gemido dos anfitriões indolentes, fato que deve ter favorecido ainda mais o fracasso do livro no mundo lusófono. Havia dois exemplares de cada, totalizando 4 livros.

 Ao final da visita a sua biblioteca, Dr. No entregou-me um volume empoeirado , tamanho A6, capa dura verde-escura, igual a outros 4 que estavam na mesma prateleira e outro que usava para calço da estante. Os tipos deviam ter sido dourados em algum momento. Joysm Principles: Dr. No’s Irrefutable Maxims . Disse que precisava tirar o cochilo da tarde e pediu que me retirasse. Saí folheando o livro, tão concentrado que só notei que No tinha dado o ganho na minha carteira e passaporte quando cheguei ao hotel. Mas não fiquei preocupado, porque o livro Princípios do Alegrismo – Máximas Irrefutáveis do Dr. No (tradução livre e desempedida), foi uma revelação.

Depois de conseguir voltar ao Brasil – não recomendo a ninguém precisar da embaixada Brasileira na Jamaica; são uns maconheiros preguiçosos! – e passada a raiva inicial de Dr. No, abri o livro. A primeira página dizia:

“Máxima #1: o riso é a arma mais mortal. Use-o sem moderação.”

Eu sorri. Converti-me ao alegrismo naquele momento. Li o livro em duas tardes chuvosas no Pina. Decidi que minha missão era propagar os ensinamentos do Dr. No e tracei um plano de metas.

1.   Utilizar minha coluna no Interpoética para tecer reflexões sobre a doutrina alegrista;

2.   Lançar um disco chamado “Wellington de Melo: Passional”;

3.   Criar uma conta no Twitter para propagar as máximas do Dr. No (@dr_No_joysm, podem seguir que já está lá);

4.   Juntar dinheiro para fazer o retiro em Dallas em 2012.

No meio de tudo isso, continuar escrevendo meus livros. Mas uma coisa de cada vez. Por hora, deixo vocês com outra máxima do Dr. No:

Máxima #2: nunca superestime a capacidade das pessoas de entender uma piada.

 

COLUNA VÉRTEBRA

a vértebra
só fragmento
portanto
completa
porquanto
inexata
precisa
já que
intacta
a fratura
a vértebra

 

WELLINGTON DE MELO
é escritor

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 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cícero Belmar