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Raimundo e seus múltiplos

por Cícero Belmar

 

1 – O poeta Raimundo de Moraes lançou recentemente o livro “Tríade”, uma obra de forte expressão poética, que é também um marco nas suas publicações porque – entre outras coisas - consolida a produção literária de seus heterônimos.  Existe no Brasil quem tenha heterônimos?

2 -  Em maturidade plena, ele confirma o diferencial poético da obra que vem sendo construída cuidadosamente. Pelo menos em Pernambuco, não conheço ninguém que tenha publicado com heterônimos. E no livro há poemas dele mesmo, de Aymmar Rodriguéz e de Semíramis.

3 –Os “supostos” não são exatamente uma novidade na poética de Raimundo. Aymmar foi criado nos louquíssimos anos 1980 e Semíramis é do início da década de 1990. Eles têm personalidades próprias, biografias específicas, estilos literários diferenciados, enfim, tudo o que se espera de heterônimos.

4 - A esses personagens, que habitam sua criatividade, Raimundo atribui poemas e sentimentos próprios. Os dois escrevem ótimos poemas, assim como aqueles que Raimundo assina com seu nome. Isso é que me impressiona, a capacidade de fazer poesia colocando-se no papel de outra pessoa.

5 - Raimundo repete, com a originalidade do aqui e agora, o que Fernando Pessoa fez. E isso lhe distingue. Esse fazer poético exige competência.  Ao ler o livro, fui instigado a refletir sobre o processo criativo. Entendo que é um desafio muito grande atingir esse mecanismo de produzir com uma personalidade que é diferente da sua e de escrever com sentimentos que às vezes até o criador dos heterônimos discorda. Sim, Aymmar e Semíramis podem afirmar coisas que Raimundo não gostaria de dizer.

6 – Há quem fale em psicografia, há outros que juram se tratar de um processo meio maluco, quase esquizofrênico. Não sei se concordo com isso. Mas o fato é que Raimundo de Moraes, no seu Tríade, levou-me a pensar que a criação artística está a um passo da loucura. Com a diferença que o artista – no caso, Raimundo - mergulha e encontra o caminho de volta, sorridente.

7 - Com seus heterônimos, esse poeta amigo meu, não se enganem, é um personagem de si mesmo. Se existe uma produção feita por ele e mais duas arquitetadas pelos outros dois poetas, por que não dizer também que Raimundo é uma invenção dele mesmo? São todos personagens de uma mesma literatura.

8 – Acompanho-o há anos. Estudamos no Colégio 2001. Eu, ele e Cida Pedrosa. Raimundo já era poeta. Cida queria ser poeta e eu, escritor. Depois, ele entrou na faculdade, cada vez mais militante da poesia. Em meados da década de 1980, o poema “Inclusive Cenouras”, foi lido no Bar Abraxas, ponto de encontro dos malucos descolados da época. O poema era de um certo Aymmar Rodriguéz. O próprio.

9 – Depois, o autor me confessou: quando escreveu “Inclusive Cenouras”,  que fala de um orgasmo de uma forma despudorada e sem reservas, ele viu logo viu que aquilo não era “coisa” que o racional Raimundo dissesse. Esse, circunspecto, leitor de filósofos, estava mais interessado nas reflexões profundas.

10 – Além disso, o processo de criação de Raimundo-ele-mesmo é como o de todo poeta: escreve, refaz, escolhe a palavra certa. Deixa o poema em banho-maria, apurando o gosto.  Já o processo de Aymmar, não, é uma centelha, conforme Raimundo revela. O texto já nasce pronto. O poema é aquilo mesmo que ele acabou de escrever, com frescor e espontaneidade.  “Aymmar é luminoso, tem esperança, é festa”, conta o autor, que se acha o contrário disso.

11- Nos anos 1990, quando Raimundo achava que estava em paz com seu heterônimo, eis que surge uma mulher entre eles dois. Na verdade, Semíramis está acima dos dois. Ela escreveu “Confissão”, poema que ficou engavetado por um bom tempo. Fala da paixão, da entrega, da indiferença masculina.  Um texto que somente uma mulher, mulher mesmo, saberia fazer.

12 - Semíramis é espiritual, não tem sobrenome e por essas e outras, transcende os dois. Enquanto Raimundo tem uma linguagem mais sofisticada, Semíramis busca a simplicidade. Ah, sim,  um dos poemas que ela escreveu naquele período terminou sendo premiado, dez anos depois de escrito. E os outros textos de sua autoria foram publicados pela primeira vez nesse “Tríade”.

13 – Por falar em publicação, Aymmar está vindo forte agora em 2011. Vai lançar um livro, sozinho,  com poemas feitos de 2009 e 2010. O título ainda não existe, mas é um livro conceitual, dividido em duas partes, como o anterior, “Baba de Moço”, o primeiro título da Editora Livrinho de Papel Finíssimo. Podem esperar: ele virá mais afiado que nunca.

14 – Ah, sim, Raimundo também é contista. E escrever contos exige outra forma de pensar, é outro mecanismo. Por tudo o que ele produz, discordo quando algumas pessoas querem reduzir Raimundo a - apenas - porta-voz da poesia homoerótica do Recife. Não que isso o desmereça, pelo contrário, o torna maior ainda. Mas o fato é que Raimundo nunca foi ativista gay, embora não tenha problema algum em sê-lo. O homoerotismo é apenas um detalhe da sua poesia. Complexa e de temática diversificada.

13 – Segue meu miniconto (ou minicrônica?), para não quebrar a tradição:

Feliz 2011, Sakined

Para mostrar ao mundo o quanto é grande sua misericórdia, o governo do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad, homem profundamente religioso, salvou a prisioneira Sakined Mohammadi Ashtiani da humilhação do apedrejamento até a morte. E condenou-a por adultério à forca.

 “Deixem-na, pelo menos, o direito de espernear que os enforcados têm”. Essa frase não é minha. É de um dos  papas da minha religião, o mexicano Juan Rulfo, que a escreveu numa página das minhas bíblias, “Pedro Parámo”.

Sakined: todas as minhas amigas, minhas irmãs, minha mãe, são iguais a você. E todas elas são mutantes mesmo, engraçadíssimas, enlouquecidas, capazes de fazer coisas que nem Deus duvida. Mulher é um bicho cercado de hormônios por todos os lados. Vá entender.

Cercadas por hormônios e  por homens prepotentes, chatos, complexados, mimados.

Eu a conheço demais, Sakined, porque amo as mulheres. Não estou falando de tesão, mas de uma harmonia, de uma sensibilidade.  Eu queria ser juiz iraniano para declarar, Sakined, por todo o sempre:

- Se os homens bem soubessem, perdoariam as mulheres por antecedência.

 

COLUNA LETRA DURA

CÍCERO BELMAR
é escritor e jornalista

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Editores:

 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cícero Belmar