principal  |   colunistas   |   Lara

MACONHA

por Lara

 

Boa parte da visão deturpada que hoje temos sobre a cannabis foi “maquinada” nos Estados Unidos durante a primeira metade do Século Vinte, e teve seu auge nos “gloriosos” tempos do macarthismo. A partir daí, essa visão deturpada cristalizou-se na cabeça do povo americano e de outros “satélites” ocidentais, através de bombardeios midiáticos e fervorosas pregações de puritanos e normóticos em geral (capitaneados pelos interesses econômicos da indústria de tecidos e papel, que precisava eliminar a concorrência do cânhamo; incluindo também alguns negócios do campo farmacêutico e da psiquiatria ligada ao status quo). Por outro lado, alguns herdeiros da cultura alternativa passaram a endossar o “endeusamento” da ganja, que passou a ser “divinizada” em certos grupos contraculturais. Obviamente, as duas posturas, a que endeusa e a que demoniza, são claramente maniqueístas, unilaterais; e não vêem o que há de negativo e positivo nessa planta. Um lado vê apenas o “negativo”, e o outro vê apenas o “positivo” (mas existe uma enorme relatividade entre os dois). A visão mais lúcida, portanto, seria capaz de ver os dois lados do problema. Na verdade, os vários lados da questão das drogas (em geral). Pois esta é uma questão que somente será “atenuada” se for atacada em todos os seus lados: social, psicológico, cultural, econômico, existencial, ético, “cármico”, político, etc, etc. Mas as dicotomias continuam: quem enfatiza um lado, não enfatiza outro, e assim por diante.

Quando a situação ultrapassa determinados limites, nada resta senão intervir, é verdade. Mas o problema não se resume a isso. A injustiça social continua, a impunidade continua, a corrupção e a cooptação continuam. E as outras mazelas também continuam (passado o momento de crise, tudo volta ao “normal”). Quando não é o traficante, é a milícia; quando não é a milícia, é o lado podre dos militares, políticos, empresários, etc. Mas todos aqueles que não rezam na Cartilha do Poder e da Normose Estabelecidos vêem-se na situação incômoda e perigosa de serem colocados na vala comum dos que são perseguidos e maltratados, pelo simples motivo de que não se encaixam nos ditames ideológicos ou culturais do interesse político-econômico “de plantão”. Há quanto tempo a sociedade civil sonha com um militar que não seja apenas um pilar-de-sustentação do Estabelecido? Um bom profissional, ético, com um nível cultural razoável, que saiba distinguir quem é e quem não é realmente perigoso.

Nessa questão do tráfico, tão difícil, multipolar, ultracomplexa, tenho defendido o que chamo de “estratégia da contradição”, que resumidamente é o seguinte: legalizar todas as drogas, mas não incentivar o consumo, e investir nas práticas esportivas e culturais verdadeiramente abertas, massivamente. Ou seja: fazer um bom trabalho preventivo (aberto e honesto). Mas é necessário que esse trabalho venha acompanhado de mudanças sócio-econômicas, político-estruturais, transmutação de valores, etc, e não tenha apenas o objetivo de adaptar o usuário aos pressupostos da normalidade coletiva e dos poderes cristalizados (sabemos o quanto isso é difícil no nosso Brazil fudido). No caso do potencial usuário, é inevitável: ele vai usar (e tem o “direito” individual de usar). Não tem pra onde correr: ele vai usar, irmãozinho, ele vai usar. Nada vai impedí-lo de usar. Neste caso específico, nada resta senão ajudá-lo a permanecer nos limites da redução de danos (fornecer “ferramentas” psicológicas para que a permanência nos limites seja possível). Mas não estou dizendo que essa “estratégia da contradição” pode dar certo em todos os casos (o que justificaria recuos “táticos” em alguns contextos). Conheci usuários cuja psique e organismo suportavam o uso de quantidades “razoáveis” e freqüentes; e conheci outros que, em pouco tempo, estavam “pirados” ou com sérios problemas orgânicos (estou me referindo às tão decantadas diferenças pessoais, orgânicas ou neuroniais). Alguém pode ser capaz de usar eventualmente, em diferentes quantidades, mas um outro pode ficar “viciadão” em pouco tempo, fumando dez “beques” por dia, de domingo a domingo, sem conseguir voltar para um uso moderado e eventual. E o que é pior: sem admitir que está numa situação periclitante (alguns chegam ao ponto de pregar o excesso e o desregramento como uma bandeira existencial).

Portugal está usando a “descriminação” há dez anos (não é legalização, é apenas a liberação do porte para todas as drogas: o usuário flagrado é enviado para tratamento, e não para a cadeia; mas os “baculejos” continuam). E o uso de drogas não aumentou por lá. Mas também não diminuiu. Permaneceu estável. Com a legalização, além dos ganhos estatais na cobrança de impostos, outro fator positivo que pode acontecer, com a legalização, é: no caso das drogas naturais (que não precisam ser “sintetizadas”), se o usuário conseguir cultivá-las, o tráfico desse tipo de droga acaba. Um pé de maconha, se bem cuidado, produz um “saco” (bem cheio) em quatro meses: nenhum viciado fuma uma quantidade dessas em quatro meses, principalmente se for um “veneno”, uma “manga rosa”. O que faz com que o preço das drogas seja alto é, justamente, a proibição (a dificuldade para conseguí-la). E aí os diferentes comensais do tráfico (a parte corrompida dos militares, políticos, juízes, empresários, lideranças, etc) vão lutar com unhas e dentes contra a legalização, inclusive o traficante, que usufrui de um percentual dos altos lucros desse comércio ilegal. No caso específico da marijuana, se for legalizada, o tráfico acaba rapidamente, pois cada usuário vai plantar o seu “pezinho” no quintal. Os locais de uso podem ser negociados sem maiores transtornos? (Obviamente, não estou defendendo o uso em qualquer lugar, como acontecia com o tabaco industrializado; uma droga, por sinal, mais perigosa do que a maconha).

Bom, como eu disse, a “ganja” não é totalmente benéfica, nem totalmente maléfica. Tem suas qualidades e seus problemas também. Entre as qualidades, podemos citar: atenuação de dores (sedativo), estimulador de apetite, facilitador da criatividade artística, produção de fibras, introvisão, redutor de náuseas, etc. Alguns problemas poderiam ser: vício, surtos, reumosidade no sangue (um problema de quase todos os alucinógenos), fragilidade pulmonar, queda na capacidade de memorização, risco de câncer, etc. Mas cada organismo tem as suas características específicas; e o que é “suportável” pra um, pode não ser pra outro. Além da enorme dificuldade que a mente ocidental tem para gerenciar as diversas possibilidades no “caminho do meio”: administrar diferentes dosagens de diferentes maneiras em diferentes contextos. O pendor mais forte é cair em algum extremo: ou puritano ou degenerado (velha dificuldade: oscilar entre extremos, sem conseguir trabalhar outras opções em “camadas intermediárias”).

E aí cada um que faça os seus gerenciamentos e as suas dosagens. E seja lúcido e honesto quando abordar o assunto, pois as dissimulações e deturpações são muitas: tanto em nome do extremo “normótico”, quanto em nome do extremo “decadente”.

Tenho dito. É isso mesmo. Podes crer.

(janeiro 2011)

Coluna Buraco de Minhoca

LARA
  poeta, cronista, contista e recitador

{comments}

  Voltar à página inicial

EFEITOS COLATERAIS DE CONVICÇÕES ALTERNATIVAS

ELEIÇÕES MUNICIPAIS 2012

Fim do suporte, sub-arte, pseudo-literatura, etc

CAPACAÇA E OS ANGICOS

SANGUE DAS LINGUAGENS, CARNIÇA DAS GRAMÁTICAS

A OBRA E O HOMEM

O ESMOLÉU E O JIM JONES MARXISTA-LENINISTA

BREGA

A INVENCÍVEL BURGUESIA TUPINIQUIM

O FIM DOS HOSPÍCIOS

ELEIÇÕES NA UFPE 2011

MACONHA

ABORTO*

A jabulane, o cérebro de canário e os leviatãs tupiniquins

Contra o desarmamento

Zé Celso

Minha chapa para as eleições gerais de 2010

Dialogando com as profissionais do sexo

Fetiche do pó

A Galiléia de Ronaldo

Revanchismos e vinganças

Marina, o PV e Caetano

Histórias sobram. Narradores faltam.

A reforma fiscal do lulismo

Nem o mel e nem a cabaça (II)

Novamente a vida

Desde que abraão comeu agar

Barateamento de livros

Psicodelia e transcendência

Crises cíclicas do capitalismo

A balela do acordo ortográfico

Dois antípodas em pé de igualdade

Crítica impressionaista e jornalismo gonzo

Estereotipia contracultural

Pós pós

Minha chapa para as eleições municipais de 2008

Somos criaturas dominadas pelo mal

Não fui feito pra ser pai

Puro sangue indo-europeu

Projeção cultural

O direito de criticar tudo e a lucidez para aceitar ser criticado

O peido do bode libera pouco metano

O movimento grevista na ufpe

Pra não dizerem que não falei de literatura

O domador de abismos surfando no caos

Meu cumpade Chico Espinhara

A mídia, seus âncoras e comentaristas

Anorexia e correlatos

Cognição das pedras

Inevitáveis aspectos negativos em reencarnações de avatares

Balangandãs, Balacubacos e Parangolés

Minha chapa para as eleições gerais de 2006

Pós-Morte

Xamãs e Canibais ( I )

Paulo Figueiredo

Vísceras na mesa

Etapismo não é reformismo

Ralé desesperada

Potestades & Leviatãs

Maria-vai-com-as-outras


Flash player required!






Banner




quem somosfale conoscoportfoliolinksclipagemhotsites

Editores:

 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cida Pedrosa