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Yes, nós temos literatura

por Cícero Belmar

 

1 - Seis eventos literários, sendo cinco em novembro, ocorreram nos últimos 40 dias em Pernambuco. Estamos nos lambuzando em mel, se levarmos em conta que nesse Estado escritores, professores, intelectuais, jornalistas etc se acomodavam à sombra de um sentimento de rejeição e exclusão, pois sempre se achou que a literatura não tinha vez.

2 - Recife e Olinda sediaram cinco, dos quais um de grande porte (a Fliporto) e os outros quatro menores, mas de muita informação e boa qualidade (Mostra de Literatura Contemporânea, Festival Literário de Peixinhos, Diálogo com a Literatura Africana e a Freeporto). Em Sertânia, foi a vez do 4º Festival Literário do Sertão.

3 - Com tantos marketeiros de plantão, daqui a pouco vai-se começar a falar em circuito literário. Quem haverá de achar ruim? Pernambuco tem fama de ser um estado com boa produção cultural e não custaria pegar carona na voz do povo. Daí para se fechar um calendário com eventos literários, nos últimos meses do ano, é um pulo. (Em 2011, não esquecer, teremos até a Bienal do Livro).

4 - Um francês que está morando no Recife, disse-me na Rua da Moeda, durante a Freeporto, que somente no Brasil era possível ver a literatura ser compartilhada, no meio da rua, por escritores e leitores. Na Europa, assegurou, essa relação é muito formal, acadêmica. Lá, os escritores são como bichos no zoológico, proibidos de ganhar a “Pipoca Moderna”. Estamos bem na fita.

5 - O tal circuito literário começou no dia seis de novembro, com o encontro “Diálogos Africanos: Brasil-Angola”, na Livraria Cultura. O destaque foi o escritor angolano Manoel Rui, que fez interessante e polêmica conferência. Finíssimas e divertidas ironias. Arrasou. Quem não foi, não sabe o que perdeu. Evento promovido pelo SESC Santa Rita.

6 - Depois, o sucesso incontestável da realização da Fliporto em Olinda. Posso estar exagerando, mas acho que a contínua realização desse festival, no modelo deste ano, irá força um olhar diferenciado para a produção literária de Pernambuco. Ou pelo menos desviará o eixo das discussões da produção literária, antes muito restrita aos eventos do Sul e Sudeste.

7 - (Paraty e para nós: foram quatro dias que consagraram o evento realizado pela primeira vez em Olinda. Entre estrelas internacionais reluzentes, tietes sem patrulha e o povo festeiro, a literatura dialogou com outras artes como o cinema, artes plásticas e a gastronomia. Para agradar dos intelectuais às crianças, na Praça do Carmo. Extraoficialmente, também na Praça da Preguiça e o Sítio de Seu Reis.

8 - Houve até polêmica! Ou seja: tédio zero. As mesas foram animadas: Alberto Manguel mandou ver em Varga Llosa; Camile Paglia soltou o verbo sobre o feminismo, Lady Gaga e a internet; Benjamin Moser e Nádia Battella Gotlib se estranharam quando começaram a falar de Clarice Lispector, homenageada do evento.

9 - Olinda foi a luva calçando a mão certa: afinal, a cidade tem o charme e a mística carnavalizante da cultura com a alegria, gastronomia e farra, religião e história. O público foi muito bom. Com certeza, a partir dali, muitos novos leitores foram conquistados. A Fliporto, nas cinco edições ocorridas na praia de Porto de Galinhas, jamais conseguiu a façanha desta sexta realização. Por ser engessada demais.

10 - Foi terminando a Fliporto e começando o Festival Literário de Peixinhos, entre 18 e 20, na Refinaria Multicultural Nascedouro de Peixinhos, Olinda. O evento ofereceu oficinas de literatura aos participantes, concursos literários e contação de história. Uma coisa mais voltada para os alunos da rede pública. Sem o charme das estrelas midiáticas, mas muito proveitoso.

11 - Entre os dias 23 e 26, Sertânia realizou o 4º Festival Literário do Sertão, dedicado à literatura de cordel. Envolveu estudantes e também poetas populares. Na programação, lançamentos, apresentações musicais, rodas de poesia, saraus, jogral e dramatização de cordel. Um evento que pode crescer, pois envolve literatura, música, teatro e gastronomia.

12 - No finalzinho de novembro, ocorreu a Mostra de Literatura Contemporânea 2010 do SESC, reunindo Wellington Melo, Carpinejar, Vozes Femininas, Cida Pedrosa, Samarone Lima, Lirinha, Marcelino Freire, Xico Sá, João Silvério Trevisan, entre outros. Foram três dias de rodas de conversas e oficinas literárias. A palestra com João Silvério não teve comparação.

13 - Por fim, a FreePorto, de 3 a 5 de dezembro. Mundo, vasto mundo, da literatura: aqui também cabe a picardia, a sátira dos Urros Masculinos. Houve palestras, lançamento de livros, poesia de sobra e leituras de contos. O brasiliense Nicolas Behr amou. Mário Prata, idem. É uma pena que só teremos mais uma edição da Freeporto, por decisão dos organizadores. Então, vamos aproveitar. Ô mundo animado!

14 – A propósito de eventos literários, escrevi o miniconto que segue abaixo:

 

A biografia

Às sete horas e quarenta e cinco minutos, após a leitura dos jornais, naquela manhã de 23 de janeiro de 1992, o escritor e jornalista pernambucano Nilo Pereira morreu. Ele tinha 82 anos e foi encontrado numa cadeira confortável, em sua biblioteca, onde se sentava para leitura na rotina das manhãs.

No momento do ataque cardíaco, estava sozinho. As palavras do jornal amortalharam-lhe o peito, leve cobertor. E os livros, formatando as paredes, foram as testemunhas dos últimos momentos, no alto das estantes. O escritor e jornalista emudeceu em meio às letras, em sua casa, no bairro da Boa Vista.

A morte repercutiu nos jornais do dia seguinte. Nenhum obituário foi correto, por mais que as informações estivessem exatas. Era preciso deixar que os livros falassem por si: citar títulos por título daqueles volumes que permaneceriam empilhados e silenciosos. Os livros lidos são a única biografia de um escritor.

 

COLUNA LETRA DURA

CÍCERO BELMAR
é escritor e jornalista

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