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A jabulane, o cérebro de canário e os leviatãs tupiniquins

por Lara

 

Pra mim, essa derrota da seleção brasileira, na Copa do Mundo de 2010, foi uma “crônica de uma morte anunciada”. Os erros e problemas acumulados, desde 1974, eram tantos que, para um observador mais acurado, era evidente que, ao enfrentar alguma seleção mais forte, a “canarinha” da Copa 2010 não aguentaria a “superioridade” de um adversário melhor estruturado. Não deu outra. A Holanda derrotou o Brasil num jogo “travado”, onde esses erros e problemas evidenciaram-se; ou melhor: escancararam-se.

Eu não sou um desses intelectualóides que demonizam totalmente o futebol. Além de gostar, também joguei (amador) até os 35 anos. E constatei, assim como a maioria do povo brasileiro também constatou, que desde 1974 os técnicos e dirigentes da “seleção” insistem num futebol “de laboratório”, de imitação européia, cujas consequências nefastas estão agora escancaradas, indiscutíveis, principalmente a incapacidade de combinar destruição e criação, assim como raciocínio rápido, controle emocional e flexibilidade funcional.

Quando cria, não destrói; quando destrói, não cria. Essa limitação instalou-se desde que começamos a jogar um futebol de laboratório (principalmente o de inspiração européia), que teve um ou outro descenso rápido, mas no geral permaneceu. O resultado mais funesto foi uma queda drástica na criatividade, no futebol-arte. Substituímos os “artistas” pelos gerentes e “sargentos”. Estes têm a sua importância, mas é uma importância secundária. Mesmo assim, os gerentes também têm a missão de serem criativos e flexíveis. Mas o que temos, com freqüência, é um gerentão “burro”, de cabeça dura, descontrolado, com um temperamento arrogante e ditatorial, que não aceita conselhos de ninguém, e faz apenas o que seus impulsos e o seu egotismo desejam impor.

E de nada adianta botar a culpa na jabulane, pois um profissional competente deve saber como lidar com a sua ferramenta, e adaptar-se rapidamente às variantes dessa ferramenta. Outro problema é a baixa capacidade de autocontrole e atenção, decorrente de um trabalho psicológico insuficiente, ou quase inexistente, em muitos casos. Há mesmo quem diga que as equipes não precisam de psicólogos (vejam a que nível de absurdo chegamos). Está, portanto, na hora de estruturar bons Departamentos de Psicologia em todos os clubes. Pois o que vemos são jogadores despreparados psicologicamente, numa profissão em que o controle emocional e a atenção concentrada são fundamentais (fazem parte das obrigações profissionais), sem falar nos excessos de euforia e “salto alto”, que frequentemente instalam-se nas equipes. E o esforço mental é outra exigência inarredável. O Nilton Santos cunhou aquela frase célebre:Não jogo com os pés. Jogo com o cérebro.

Ao privilegiarmos as inteligências e talentos medianos, em nome dos interesses do Poder Estabelecido, ou da excessiva adaptação a um determinado esquema tático, perdemos qualidade, caímos numa vala comum, já não conseguimos mais nos situar num patamar acima da média, mesmo num contexto em que sobram “craques”. É um caso grave, pois continuamos reféns dos “poderosos”, e eles continuarão mandando e desmandando, enquanto os “medianeiros” e os “cérebros de canários” seguem os rastros desses “donos do mundo”, usufruindo prerrogativas em detrimento dos mais talentosos e criativos, pelo simples motivo de que são parte desses poderes. Mas esse é um problema do meio social, não é exclusividade de determinada persona, pois quem paga ingresso é o povo, e a coletividade submete-se e permanece incapaz de resolver esse imbróglio.

E há outros aspectos envolvidos na questão. Como a ausência de amor à camisa, uma vez que chegamos a um ponto em que importa apenas o dinheiro e a glória individual. E aí temos jovens mal saídos da puberdade, mas já empanturrados de grana e fama; e esses jovens, egocêntricos e gananciosos, pouco estão se importando com as consequências do seu egoísmo e da sua insuficiência “cultural” (e continuam usando a caridade pra disfarçar a ganância, ou pra fazer massagem no ego, sem qualquer perspectiva de luta por transformação social: assemelham-se às pessoas do seu meio). Estão cagando na cabeça de todo mundo (esforçam-se apenas quando querem), pois sabem que o dinheiro virá, de uma forma ou de outra. E aqui estamos mais uma vez diante de um problema do contexto social, pois eles são crias desse meio. Inclusive determinada maneira de exercer poder. Como se não bastasse a babaquice nociva de optar por uma determinada religião anacrônica, medievalesca, intolerante, e passar a pensar que “Deus” é uma exclusividade sua, que vai sempre privilegiá-lo em detrimento dos outros (a mais pesada de todas as drogas é o poder).

Vamos torcer e “rezar” pra que os nossos jogadores, gerentãos e sargentões “espirituais” tenham aprendido com os erros cometidos e repetidos, ou com a criatividade alheia (que tal a Espanha?). Quem sabe se, aprendendo com a dor, a gente não inicie uma nova era, em que a criatividade, a inteligência e o autocontrole se sobreponham aos interesses imediatos dos poderes de plantão e dos “trogloditas mentais”.

Suprema ironia: a Alemanha foi mais criativa que o Brasil, nesta Copa 2010. Que tal aprendermos alguma criatividade com ela?

Que situação mais triste, meu “Deus”.

(novembro 2010)

Coluna Buraco de Minhoca

LARA
  poeta, cronista, contista e recitador
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 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cida Pedrosa