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Contra o desarmamento

por Lara

 

A minha coluna do mês de outubro teria como tema a derrota da seleção “canarinha” na Copa de 2010. Esta crônica já está pronta, mas eu decidi colocar agora no mês de outubro uma crônica sobre desarmamento. Na verdade, eu a estou repetindo, pois ela já está num livro virtual, disponibilizado aqui no Interpoética. Eu tomei essa decisão após as recentes notícias de que o governo federal está retomando a campanha pelo desarmamento (estou convencido da atualidade dessa crônica que eu escrevi em 2005, e da importância de repetí-la aqui e agora). Lá vai:

Os defensores apaixonados do pacifismo absoluto parecem incapazes de perceber (ou fingem não perceber) que a paz absoluta é uma quimera impossível de efetivar-se aqui na Terra (talvez seja possível em outros planetas mais evoluídos, em outras paragens siderais; mas aqui na Terra não é possível). A violência, a vontade de poder, a ânsia de dominação, etc, são dados inextirpáveis da nossa condição terráquea. Resta-nos apenas administrar dosagens em diferentes contextos. Dosagem zero de violência é uma ilusão (aqui na Terra). Portanto, está equivocado o próprio ponto de partida "filosófico" dessas campanhas pela paz e pelo desarmamento. Sem a percepção/observação do “Mal” dentro e fora de cada um, encontraremos apenas "iluminação" ingênua, ou cairemos em inúmeras projeções (projetar é fácil). Às vezes nem tão ingênua assim, uma vez que em algumas ocasiões os pacifistas absolutos são, na prática, cúmplices sub-reptícios de poderes estabelecidos os mais diversos (vejam o caso do sistema de castas indu), e essa cumplicidade pressupõe vinculação, mesmo que indireta, com uma certa dosagem de violência exercida por qualquer espécie de governo (ninguém exerce um quinhão de poder sem exercer um quinhão de violência, direta ou indireta, explícita ou implícita; e aí o pacifismo "ingênuo" não vê, ou finge não ver, esse quinhão).

Sabemos que os poderes estabelecidos, em geral, como tudo o que é humano, têm um pólo negativo e um pólo positivo (uma banda podre e uma banda boa, ou relativamente boa, por assim dizer). Eu acredito, e isso é convicção pessoal, que o desarmamento dos cidadãos “de bem” (a banda boa do povo) torna esses cidadãos mais frágeis diante da banda podre dos poderes estabelecidos em geral (seja em relação ao pólo negativo dos militares, seja em relação aos bandidos propriamente ditos, ou em relação à pistolagem ou a qualquer setor das classes dominantes que fazem uso da violência quando querem ou precisam fazer, ou mesmo no nível da defesa pessoal ou da violência como prerrogativa legal do estado).

E aí vem a pergunta fatal: quem ganha com o aumento da fragilidade do pólo positivo das camadas populares? Obviamente quem ganha são as classes dominantes em geral (incluindo aqui a bandidagem propriamente dita), pois a sociedade civil, desarmada, fica mais frágil diante do Estado ou do Mercado. Como eu disse, acredito que o ponto de partida "filosófico" ideal, ou pelo menos o mais razoável, seria ensinar ("treinar") os cidadãos a administrarem melhor seus impulsos e as inevitáveis dosagens de violência que precisam ser usadas nas diferentes ocasiões e contextos onde for necessário e inevitável o uso dessas diferentes dosagens (autodefesa é o mote).

Sei que é difícil e perigoso esse outro ponto de partida que eu defendo. Mas eu não vejo outra saída mais "razoável" para a realidade concreta aqui da Terra (da condição humana). Que aprendamos a administrar/gerenciar as dosagens de violência que as diferentes realidades nos impuserem. Agora vem a parte mais complicada: de tudo o que eu disse nos três parágrafos anteriores, deduz-se, obviamente, que os cidadãos da banda boa do povo devem juntar forças com a banda boa dos militares para o combate contra a bandidagem, a banda podre da área militar e a exploração do homem pelo homem, até onde isso for possível. E aí, é claro, deveria haver uma troca de conhecimentos de defesa (em geral), e de conhecimentos de autocontrole e auto-regulação (em geral), bem como a transformação (mesmo que gradual) de aspectos negativos no nível social e no nível da realidade interna nos quartéis (o que pressupõe cidadania para soldados, cabos e sargentos, além da melhoria salarial e da infraestrutura das forças armadas em geral). Tudo isso pode parecer quimérico e irrealizável; mas, para a realidade concreta do planeta Terra, eu não vejo outra saída mais razoável do que essa.

Fraternidade: sempre que possível; violência: quando necessário.

 

PS: A derrota do governo no referendo de 2005 deveria ter alertado definitivamente as classes dominantes do nosso país: a maioria do povo é contra o desarmamento. Então pra que insistir nesse equívoco? Se é mesmo um “equívoco”, e não uma “esperteza”.

(outubro 2010)

 

Coluna Buraco de Minhoca

LARA
  poeta, cronista, contista e recitador
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