principal  |   colunistas   |   Geórgia Alves

24 horas passageiras

por Geórgia Alves

 

Uma criatura cheia de defeitos que só enxerga o dos outros enfrenta 24 horas no Aeroporto Internacional de São Paulo, Cumbica. Seu discurso é frágil e irritante! Será que a experiência vai fazê-la mudar os modos?:

24 horas passageiras

 

05h05. Em frente ao Maksoud Plaza. No Hotel informam que o próximo ônibus para o Aeroporto passa em 15 minutos. Sabia que o brinde da última coletiva no Banco do Brasil, um dia ia servir. Primeira folha do bloquinho! Essa despedida antecipada não estava nos planos. A noite passada foi estranha! Tudo tão confuso que é melhor não processar agora. 05h10. Difícil conseguir pensar. Só com café. Expresso, de preferênicia. A essa hora da manhã consigo um pretinho forte, amigo?

05h07. O moço parou uns segundos para entender a frase. Até que o olhar perdido desapareceu quando enxergou meus dois dedinhos naquele gesto clássico que a propaganda de alguma marca de café ajudou a eternizar.

05h10. Chic não? Pensar que meus pais se hospedaram aqui e eu já era nascida. Contaram com riqueza de detalhes: entre os hóspedes o humorista Juca Chaves em seus chinelos e camisão branco. A atriz Sônia Braga. "Pequeninha ela. E na tela a gente sempre via aquele mulherão", comentário da minha mãe. Foi café com croissant. Podia ser a despedida. Dali ia fazer mais o quê? Aquela dificuldade de raciocinar direito de novo. Nada. Pago logo a conta.

05h20. Preciso correr. Como assim? Embarco no ônibus (posso dizer isso?). Ninguém ajuda com os pacotes. Eu poste. Vou desequilibrar e cair. Preciso insistir com o bilheteiro: "Uma mão?". "Não, obrigado. Não sou parte interessada...Tudo bem, tudo bem! Seguro para você essa caixinha de presente". Ele está certo. Três sacolas numa mão, uma mala enorme na outra. Quem mandou ser consumista? Preciso voltar pro Recife. Como se a frase pudesse apressar o relógio...

05h25. Paulista é pontual. Isso eu aprendi. E rápido. O mínimo dizer que a expressão "vamos em boa hora", que a gente transformou em "vamos embora", eles minimalisticamente tornaram "vamu!". E eu fui. Pro Aeroporto numa distância de apenas mais algumas paradas. Até ali, em dez dias, não tinha aberto os livros que levei. Foram exposições, lojas de design, passeio na Praça Benedito Calixto. Uma loucura a FNAC! A Rua 25 de Março, o Ibirapuera. As fotos!? Tudo aqui.

05h30. Abro o primeiro deles. "O Processo", de Kafka. Aquele começo... Com todo o existencialismo Sartreano e a ajuda das frases de Beauvoir, minha querida Simone, antes parecia confuso. Agora não.

Vou devorando cada página e me envolvendo na trama e no drama de K. Difícil é começar, mas depois que as linhas se cruzam e vão engendrando você a angústia é maior, o ceticismo também. E os sustos simplismente desaparecem. Nada sobressalta mais. Atravessei aquela porta.

06h20. "Chegou moça! Não vai descer". O motorista do ônibus já gritando. Quase em transe, numa espécie de andar mais alto, despenquei caindo na real e descendo os degraus em tropeço. Agora que notei como essa mala pesa.

06h40. Meu Deus é caótico. Não era. Sempre acreditei na sorte. No Divino Espírito Santo. E agora, com esse materialismo todo que me é jogado na cara, onde vou encontrar algum perdão? Continuo. Não consigo mesmo parar. Deve ter um lugar para guardar essa mala. Basta o tanto que minha cabeça já pesa.

06h49. Que bebê bonito! A família passa por mim com dois carrinhos. Na volta só vejo o bebê nos braços. Livraram-se das malas? Quem? Como? Quando? Onde? Volto pelo caminho de onde veio aquela família. Que bom que inventaram o "malex".

06h50. "Sim, senhorita. Temos um guarda volumes no primeiro andar. A taxa é R$ 7,00". O cidadão do serviço de informações é bem mais gentil. Embora as últimas palavras soaram mais duras: "A senhorita só tem que perguntar lá por quantas horas". Pensei que fosse pelo dia todo. Imagina quanto não cobram de pernoite no estacionamento! Conhecer uma cidade grande tem seu preço. Agora não é só a cabeça. A ideia de sair do apartamento daquela ex-amiga pesa também no bolso. Lá vai de novo o cartão de crédito na maquininha...

07h00. Uma da tarde preciso voltar aqui. Vou ter descansado as costas. Tirado um cochilo e aí carrego a mala comigo. Um cyber, lógico. Com jeitão bem paulista. Todo moderno. Básico. O último cenário colorido foi na Benedito Calixto. Deu pra checar caixa de e-mail do yahoo e arrumar tudo em pastinhas. E não sai muito em conta a distração. Melhor voltar pro livro. Daqui a pouco vou sentir outra fome.

08h00. Voltam todos os conflitos de K. Cada detalhe do seu cenário. Do quarto de onde foi detido. A sala dos jurados. O clima denso e frio do livro. Engraçado... A frase pareceu grudar no entorno. Foi como se tivesse sido feita para aquele local onde todos estavam de passagem, exceto eu, o cara da limpeza, do balcão de informações, a moça do banheiro feminino. E todos aqueles garçons e garçonetes das lanchonetes com feições tão tristes. Ao menos não arriscavam palpites sobre de onde eu vim pela completa ausência em mim de algum sotaque. Sei que ainda posso morrer afogada por isso como adverte aquela piada das antigas.

09h00. Eu pedindo desculpas por nada. Morre-se assim a cada dia. Sinto-me a pior das criaturas. Ainda dizem que sou uma "privilegiada".

09h40. Descobri que check-in só se faz horas antes do voo. Agora somos poucos por aqui. Vou ter que dormir com um olho aberto?

10h00. Preciso ir ao banheiro e isso é para hoje! Cometo o pecado de entrar no que é reservado para pessoas com necessidades especiais. Eu não sou assim. Nunca desrespeito uma regra, mas era o único que dava pra entrar com a mala e as sacolas e tudo. Que alívio...

10h20. Alguém com tantos pacotes quanto eu. Confortavelmente sentado. Deve ser rei. Ou deputado. Consegue até ler esse "gênio"! Tá pesado. K. do meu lado. Confiro as malas e pacotes. Firmes no carrinho. O mais próximo possível. Abro livro de uma das sacolas. Fecho a bolsa prefiro para não olhar para a cadeira. Sinto náusea.

10h39. Descubro um jeito de trocar de roupa. Visto uma blusa cor de prata. Na boca, caneta de alumínio.

11h00 - O fluxo de pessoas é menor. Grupos de negros americanos. Mãe irlandesa com filhinho de uns 3 anos. Homens com a mão no bolso, pensando. Começa uma missa. Será que o pároco se incomoda que eu entre? "Não é lugar pra malas". Nunca imaginei que o reencontro com o divino seria num aeroporto. E interrompido pelo excesso de malas.

12h00. Por que essa voz no alto falante não para? Volto a ler "O Processo". Náusea de novo. É cedo e tudo vai ficando escuro. Deve ser (blackout). Fome. Lembrei que não comi.

13h00. Cumprimento um outro casal "países nórdicos" com um bebezinho. Outra família... As malas!

14h08. Portal aberto. Caixa eletrônico. Nada!. Nient! Nothing! Fora do ar. Não tem remédio que dê jeito numa dor de cabeça dessas. É duro. É Kafka.

15h18. Como o mundo é cheiro de gente. Quantos circulam por aqui? "222 milhões 300 mil pessoas

embarcaram e desembarcaram pelos terminais".

16h33. Um casal comprando souvenir. Se leva um pedaço de algum lugar?

17h45. Fome começando a apertar. Dá-lhe pão a metro.

18h59. No final do corredor tem um restaurante para abastardos. Melhor nem olhar muito.

19h00. Vamos conhecer as instalações...

21h30. Duas revistas devoradas. Para tirar da cabeça as imagens tristes de Kafka. Virei figurinha conhecida. Alguns já acenam.

22h00. Na sala vizinha ao restaurante dá para dormir. Um cachorro entra na igreja. Porque a porta estava aberta.

23h01. Aquela risadinha foi comigo...

22h16. Seria muito pedir para fazerem silêncio.

23h56. Meu Deus, K. foi embora. Pode voltar para embalar meu sono. Só quero conseguir dormir.

00h00 - Tem gente na rede. Que bom inventaram Internet!!!

01h30. Pausa para um café. Se o sistema eletrônico permitir.

02h44. No ar!!! Não inventaram cheiro tão bom. Café, café, café!!! Toledo: tirei lição dessa marca.

03h00 - Pena que os paulistas não conhecem tapioca. Tudo bem, pão de queijo e croissant. Nunca mais pão a metro.

04h55. Tem um garoto que também dormiu nessa salinha.

05h10. Fiz meu primeiro amigo na viagem. Paulista sabe ser correto. E simples. Não sei por que, mas gosto muito disso. Em Brasília, os dois taxistas perguntaram pra mim: A senhora é paulista? Não mais "moça", não mais "senhorita". Senhora vendo no espelho alguma elegância paulista.

06h06. Faltam treze minutos. Contagem regressiva para o avião.

06h36 Atravessei!?

 (24 horas no Aeroporto Internacional de São Paulo, Cumbica)

 

Coluna dacordafelicidade

GEÓRGIA ALVES
jornalista e especialista em literatura brasileira
Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

{comments}

  Voltar à página inicial

Vértebra exposta

O ás de espadas de Umbilina e Cícero Belmar

Lampião, o santo forte do cinema brasileiro

Carnaval de cores invisíveis

Ela e o Tuaregue

Bebendo a verdade

A Hora da Estrela

Sobre o amor

Gaia e Gozo

Amor e motivação

Um livro a mais em mim

Kerouac e a força de Kristen

Sophia

Red or Wine?

A última Peça

A luz Azul

O Amor é filme

Argamassa

Tsunami

Línguas de Fogo - De Claire Varin

Perdão

Idade da Razão

Amor Medido

Jingle Bell de Mutantes

Alguém me ensine a não amar Bob Dylan!

Café Pequeno

24 horas passageiras

Atire

Primeiro Ato

Anjo Caído

Cartola com café

A Mala Hora

Antes: a Amora

Por Princípio

Janeiro: A menor concha do mundo

Idéias soltas em páginas presas

Sendo sincero

Passos até a esquina

Alturas

Irisada, azul e terna...

O Sono dos Justos

Colar de Pérolas

Calendário

Não alimente com pedras

Caleidoscópio

Boa Vista

Good Bye, Mr. Autumn

Centro: "é preciso fixar o parafuso central para que a forma permaneça"

Círculos concêntricos em sintonia fina

O aleatório na agulha e no calor da terra

Prosa de volta

Nomadismo

Águas de Março

Umbigo de vidro

Café com letras

Abril ...solar!!!

Sobre o perfume e a vida que transpira

Uma aprendizagem ou os livros que despertam o prazer de ler

Caldas para a literatura infantil

O universo do livro infantil

Os infantis de Clarice Lispector


Flash player required!






Banner

Banner




quem somosfale conoscoportfoliolinksclipagemhotsites

Editores:

 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cida Pedrosa